LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP
Nas festas e comemorações desta época, reservadas pelo homem como tributo, trégua ou recompensa por toda uma seqüência de esforços, lutas e trabalhos no campo material, surge, com as características próprias a chamada "passagem do ano".
De um modo geral, pouco ou nada afeito aos aspectos transcendentes, esse mesmo homem não percebe, nem a proporção real do fato em si, nem o que poderia significar em termos de retomadas, projetos, aferições e planos..
Qual seria essa proposição?
Quando se entende o tempo no contínuo fluir do sem limites, no desenvolvimento perfeito das leis que se exercem, esse mesmo tempo não se detém ou se diferencia no dia trinta e um de dezembro, não muda suas características por um novo dígito que se lhe acrescente ou substitua.
Por estar imerso, ligado, inserido ao infinito será sempre " a medida relativa da sucessão das coisas transitórias" na eternidade que não é suscetível de medida do ponto de vista de duração onde "não há começo nem fim - tudo lhe é presente".
Dentro dessa ordem de idéias "se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milhares para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade, do mesmo modo que milhares de léguas adicionadas a milhares de léguas não nos dão mais que um ponto na extensão" 1 Configura-se assim, o tempo, como sendo a qualidade perceptível da eternidade. Deslizam conforme nossa marcação, horas, dias, anos e séculos, estando diante de cada um, sempre, toda a eternidade, onde a marcação do homem para nela situar-se, representarão instantes, segundos.
Como imaginar esse segundo? esse minuto, esse tempo?
Contam as lendas, que certo sábio quando indagado a respeito teria respondido: - Suponhamos exista um rochedo com cem metros de largura, cem metros de altura e cem metros de profundidade constituindo bloco monolítico enorme. A cada século repousa sobre ele um passarinho que ali limpa o bico. Quando tiver gasto todo o rochedo de tanto limpar esse bico (e ele vem a cada cem anos) terá ocorrido um minuto na eternidade.
A explicação, que a primeira vista possa parecer tão clara, talvez mais complique o querer se entender tempo, eternidade, infinito, uma vez que, desvinculados desse sentido de seqüência, de imortalidade, de continuidade, contamos o tempo pelas horas, dias, meses, esquecidos de que essa divisão é fruto das necessidades materiais do homem que as estabelecem para melhor orientar-se nessa sucessão interminável.
Para Deus, para os Espíritos que atingiram a perfeição relativa da qual é suscetível a potencialidade, não há essa divisão ou limitação, daí resultando a harmonia da vida que desconhece a pressa, tanto no processo da criação como no do aperfeiçoamento do Espírito, que também a alcançará num tempo variável e decorrente ao do despertar e trabalhar consigo. Cada qual está imerso nessa eternidade e segundo a forma pessoal de viver, ociosa ou produtiva, estática ou dinâmica, galga, incorpora, conquista outros planos de trabalho, ação, vibração, concernentes e decorrentes do maior ou menor empenho.
Por que ao falar de festas e comemorações fazemos incursões tão áridas?
Para que, na proporção do entendimento individual, perceba-se a relatividade do tempo expresso pelos calendários onde cada povo ou local do mundo, administra-o conforme os vários modos de entender a realidade ou atender às necessidades materiais.
As festas de passagem de ano são então tolices, sem valor real?
Conforme o modo que se lide com elas até podem adquirir essa conotação. Na grande maioria das vezes, porém, o homem sente, sem poder precisar concretamente, essa imersão na eternidade daí querer marcar com as festas, comemorações, algo que coloca para trás, por constituírem, segundo ele, fatos já vivenciados e que quer, ou esquecê-los, ou vivê-los em intensidade diferente ou abrir-se como a um salto no escuro, onde as expectativas são povoadas de utopias, ilusões, sonhos, anseios, planos diferentes dos já experimentados.
Nesse turbilhão das expectativas não percebe que a vida é cíclica e os apelos constantes no novo tempo que chega, em síntese, serão quase sempre os mesmos, acrescidos só de nuances diferentes que lhe darão vestimenta, aparência "nova".
Por que isso?
Porque cada Espírito traz em si necessidades globais específicas. Cada experiência no tempo, se incumbe de apresentar as situações constantes de um mesmo teor, onde só variarão, os graus da dificuldade, que ao serem gradativamente trabalhadas e vencidas vão capacitando o ser a libertar-se delas pelo despojamento das reações contrárias.
O que esse entendimento pede?
Segundo André Luiz 2 "pede paz à alma" nesse entendimento de que ninguém usufrui duas situações ao mesmo tempo.... "Seja na alegria ou na provação o homem desfruta a existência vivendo hora após hora, minuto por minuto no tempo imperturbavelmente dosado, nas concessões iguais à todos".
De um modo geral como se desenrola a vida do homem?
Nessa vã tentativa de viver as várias situações num mesmo momento. Aflito, desconhecedor dessa mecânica detém-se em algo que já passou ou projeta-se naquilo que aspira, espera. Cultiva chorando ou conserva em saudade fatos vividos; tenta reviver alegrias de um tempo que segundo ele foi bom. Nos intervalos entre esses aspectos lança-se ao futuro: quando eu crescer, quando eu casar, quando minha chefia mudar, no próximo ano, esquecido que esses quandos estão implícitos em promessas, interrogações; que o passado é valiosíssimo pelos aprendizados que deixa e o futuro afasta-se de ser sonho, interrogação quando é gerado em função do presente vivido no Bem. "A pior circunstância trás consigo instruções preciosas tanto quanto o fruto mais corrompido carrega sementes de subido valor. Cabe-nos descobri-las e utilizá-las".
Ah! quanto tempo perdido! Quanto comprometimento com as opções do passado!
O comprometimento, mesmo quando fruto da deliberação, da premeditação e má-fé, pode ser retomado no tempo que se chama hoje, propício por excelência, para com boa vontade, disposição e coragem, recompor situações.
Como entender o que recompor?
Cada qual convive com os aspectos que necessita identificáveis nas fraquezas necessárias de serem trabalhadas para fortalecer e libertar o ser.
Através do infinito do tempo, nas reencarnações que se sucedem, identificamo-nos como aqueles trabalhadores do passado que, por não entenderem essa função racional do tempo o malbaratamos, gerando salário compatível. Se hoje retornam em experiências duras, buscam essa compreensão dos instantes como oportunidade para no desenvolvimento da potencialidade perfectível, na disposição firme, habitual para a prática do Bem, desgastando o passado, gerando nesse agora um tempo que chegará com o significado de valor divino.
Em que ritmo trabalhar esse entendimento novo?
Se não cabe aflição, precipitação, pressa irrefletida, também não tem lugar a calma inconseqüente do eterno esperar do momento próprio.
No zelo prestimoso, toda realização digna é conseguida pouco a pouco, no empenho normal, regular, uniforme, seqüente, contínuo "com os intervalos onde se refazem as forças da mente e paisagens de lazer que restauram as energias do coração ".
Lembra o Evangelho Segundo o Espiritismo (20:2) a necessidade de se empregar bem a hora, o momento que detemos como real, não nos esquecendo de que a existência por mais longa que nos possa parecer não é mais que um momento muito breve na imensidade dos tempos que constituem para nós a eternidade.
Assim, até pequenos hábitos inferiores, aparentemente inexpressivos, requerem, precisam ser trabalhados por aqueles que já disponham de algum conhecimento da vida espiritual "porque um dos maiores tormentos para a alma desencarnada de algum modo instruída sobre os caminhos que se desdobram além da morte, é sentir nos círculos de matéria sublimada flores e trevas, luz e lama dentro de si mesma".
Nas comemorações do "ano novo" que chega, adentremos nele conscientes de que o melhor tempo, um melhor ano é a construção íntima individual, onde os atos se constituam em lições vivas de amor edificante.
Auroras se sucedem às noites que partem. Cada manhã o fulgor do sol "reforma o valor do dia, renovando-se o ano; o tempo oferecendo novo ciclo ao trabalho como se estivesse a dizer: - se quiseres podes recomeçar! "
Nesse entender, que chegue um novo dia, um novo mês, um ano novo sempre nesse sentido de passagem, recomeço, retomada, onde o esforço, a coragem, a firmeza das decisões no Bem se alicercem no trabalho consciente de cada atitude lembram do que " tudo volta, menos a oportunidade esquecida que será, sim, sempre uma perda real".
Livros consultados:
A Gênese - Allan Kardec
Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Palavras de Vida Eterna
Opinião Espírita
Conduta Espírita
Vinha de Luz