MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
Em setembro passado pessoas de vários lugares de todo o mundo, ligadas à Educação e à Psicologia, estiveram reunidas em Genebra, Suíça, para comemorar dois acontecimentos muito especiais deste ano de 1996: 100 anos de Piaget e 100 anos de Vygotsky.
Piaget foi um biólogo e psicólogo suíço, nascido há cem anos, que teve um papel importantíssimo na forma de compreensão do pensamento infantil e da construção do conhecimento. Morreu em 1980. Deixou uma enorme contribuição para os educadores, sendo suas obras estudadas constantemente e tendo enorme influência na prática pedagógica atual.
Vygotsky, também nascido há cem anos, foi um educador russo, com atuação nas áreas de psicologia, literatura, educação de adultos e educação de deficientes, entre outras coisas. Morreu há bem mais tempo, em 1934, com apenas 37 anos, mas também deixou uma obra importantíssima sobre a questão do desenvolvimento infantil, e que só muito recentemente - cerca de 15 anos - tem sido divulgada e estudada.
Afinal, qual o grande feito deles que merece essa comemoração mundial? E por que estamos falando deles aqui, num jornal Espírita?
Ambos foram revolucionários na área da compreensão do desenvolvimento humano.
Piaget mostrou que a criança não é um adulto em miniatura como se pensava até então, que ela tem características particulares e diferenciadas e que precisam ser respeitadas. Para ele a criança é um ser ativo que constrói se próprio conhecimento, a partir da interação com o mundo.
Vygotsky, por outro lado, enfatizou a importância do meio social, da relação com outras pessoas e do próprio aprendizado, que ocorre desde o nascimento, para o desenvolvimento infantil. Enfatizou ainda a importância do ensino sistemático - escolarização - para a criança, mostrando a necessidade de uma intervenção consciente neste processo.
As contribuições destes homens mudaram a forma do mundo ver a criança e a própria educação, principalmente quanto ao aspecto da importância do meio social. Antigamente - e muitos até hoje pensam assim - acreditava-se que a criança já nascia com dons ou vocações específicas e que isto não mudaria. Se nascesse sem vocação para a música, por exemplo, seria uma perda de tempo tentar ensiná-la. O que Piaget e Vygotsky nos mostraram é que na realidade o homem, e especialmente a criança, tem uma capacidade imensa de aprendizado, bastando ter condições para isso.
Emmanuel, em O Consolador, perg.121 trata desta questão: "O meio ambiente influi no Espírito? - O meio ambiente em que a alma renasceu, muitas vezes constitui a prova expiatória; com poderosas influências sobre a personalidade, faz-se indispensável que o coração esclarecido coopere na sua transformação para o bem, melhorando e elevando as condições materiais e morais de todos os que vivem na sua zona de influência."
Também a pergunta 385 de O Livro dos Espíritos, trata justamente desta questão da infância e da responsabilidade das pessoas que convivem com as crianças: "(...) A infância tem ainda outra utilidade: os Espíritos não ingressam na vida corpórea senão para se aperfeiçoarem, para se melhorarem; a debilidade dos primeiros anos os torna flexíveis; acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que devem fazê-los progredir. É então que se pode reformar o seu caráter e reprimir as suas más tendências.(...)"
Esta visão de transformação, de evolução do próprio Espírito imortal nas experiências cotidianas é muito importante, fundamental, e a consciência do papel que pais e educadores exercem nesta situação não pode ser acidental. Já temos sido alertados para isso nas obras da doutrina Espírita.
Para nós, espíritas, o que parece é que cada vez mais a ciência caminha no sentido de esclarecer e trazer à luz, de uma forma científica, estas questões. Piaget e Vygotsky contribuíram neste sentido, mostrando como estes processos de aprendizado e desenvolvimento ocorrem e o que temos de saber para provocar tudo isso.
Reconhecendo então a influência e importância do trabalhos destes autores, o congresso em Genebra representou não só uma homenagem a eles - com a presença inclusive dos três filhos de Piaget e da filha de Vygotsky, todos eles em idade bastante avançada - mas também mais uma oportunidade de estudos e discussão, quando então foram abordados, entre outros, os seguintes tópicos: aprofundamento das concepções de Piaget e Vygotsky à luz dos novos conhecimentos relativos ao desenvolvimento humano; análise das diferentes formas de intervenção das ciências humanas no mundo social, em particular no campo da educação escolar.
E o que percebemos é que muito ainda tem a ser estudado e discutido. Há ainda muitas lacunas no conhecimento humano a este respeito. Os próprios Piaget e Vygotsky têm vários pontos em desacordo, o que vem funcionando como um desafio para todos nós educadores e pesquisadores. Na abertura do Congresso, Bärbel Inhelder - colaboradora de Piaget por muitos anos - disse que devemos mesmo procurar as diferenças entre as teorias de Piaget e Vygotsky, e não simplesmente buscar os pontos de comum acordo. Por que ela disse isso? Porque aquilo que nos incomoda por não estar ainda bem explicado, precisa ser esclarecido. Só assim poderemos crescer e caminhar no sentido de compreensão maior dos processos fantásticos envolvidos no desenvolvimento humano.
Embora tenhamos elementos sobre estas questões nas obras espíritas, é muito importante que a ciência percorra também este caminho, que traga tais conhecimentos, sob diferentes enfoques, para todas as pessoas. Afinal, todos nós, na medida em que convivemos com outras pessoas - crianças, filhos, amigos, sobrinhos, cônjuges, etc. - temos parte desta responsabilidade no processo de aprendizado das pessoas do nosso círculo de convivência, e seria bom que todos nós soubéssemos disso.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Kardec; O Livro dos Espíritos,
SP, LAKE, 1976.
EMMANUEL; O Consolador, Psicografia de Chico Xavier
PIAGET, J.; Seis Estudos de Psicologia, Rio de Janeiro, Forense, 1967.
VYGOTSKY; Formação Social da Mente, SP, Martins Fontes,
1984