Trinta e um anos de amor em plenitude

AMÍLCAR DEL CHIARO FILHO
de Guarulhos, SP

... Meu filho fez 15 anos. Idade Linda... É o momento em que o jovenzinho começa a sentir-se homem, ao mesmo tempo que conserva a ternura da criança... Foi assim que iniciei a Crônica Para Os 15 Anos de Meu Filho, há 16 anos. Foi uma crônica repassada de amor para um adolescente que continuou criança, sempre criança. Esta crônica é um complemento, pois, com 31 anos completados em outubro de 1996, Marcos Allan morreu, isto é, viajou mais cedo, e sem a companhia da mãe ou do pai pela primeira vez.

Parece-nos tão pouco tempo, entretanto estes 31 anos foram de amor em plenitude. Quantos momentos de dores intensas, medos, frustrações e dúvidas. Quantas vezes o medo permeou a nossa mente trazendo desassossego. Mas compensando tudo isto houve momentos de plenitude, de intenso e puro amor.

Filho querido, não quero escrever uma crônica sobre você, mas para você. Quantas vezes conversamos sem dizer palavras... seu olhar sereno penetrava o meu olhar perscrutador e eu mergulhava no abismo dos teus olhos, e um universo diferente se revelava a cada gesto. Quanto amor! Quanta paixão que nunca se realizaria...

Ah, meu filho vai estudar, vai ser alguém que eu não pude ser; meu filho vai ser atleta, vai ter namoradinhas...

- Casa comigo? lava roupa... passa roupa do Marquinho...

Quanta inocência, meu Deus. Quanta pureza! Quantos sustos nos momentos de crise, nas convulsões, nas febres, nas dores. Quanto medo quando obedecendo impulsos interiores de aventura, você fugiu de casa, mas como as criaturas como você tem anjos da Guarda à protegê-los, entre lágrimas de aflições e gemidos de angústias, éramos guiados até onde você estava, as vezes quilômetros distante da nossa casa. Você se lembra filho? Foram quatro... não, cinco vezes.

Colocaram um rótulo em você, meu filho, sim! Sabemos que não foi por maldade, mas te rotularam de excepcional e você foi um excepcional durante toda a vida. Não importa, filho. Eles não te conheciam. Não sabiam que você era realmente excepcional, e como era filho querido. Não importa que você não tenha aprendido a ler e escrever, não conquistou diplomas, não foi importante! Como? Claro que foi filho querido! Ninguém neste mundo foi ou é mais importante que você.

Não estou decepcionado nem triste. O que lamento é não ser aquele pai de que ele precisa, não tenho aquela paciência que deveria ter...

Sabe, Marquinhos, desculpe-me por estar rindo, mas lembrei-me daquele dia que perdi a paciência por alguma coisa que você fez e te ameacei duramente. Creio até que te dei uns tapas e você correu para o portão da nossa casa e gritou para as pessoas que estavam passando:

"- Chama a polícia, o Mica qué me matá ca faca, chama a polícia..."

Felizmente tudo acabou em risadas, pois as pessoas não entenderam sua fala peculiar.

Oh, Meu Deus! Pedi-te um filho e deste-me uma criatura maravilhosa; não vou dizer que ele seja um anjo, mas é alguém destinado ao Teu Reino...

Que criatura maravilhosa. Certamente você não foi um anjo, pois brigava, xingava, era teimoso e desobediente às vezes. Na verdade eu não queria um anjo, queria você. Mas foi destinado ao Reino do Céus. Como seria difícil compreender os porquês se não fosse a reencarnação. Houve crimes no passado? não sei. Tenho a certeza que existiu muito amor no presente.

... como já disseram para mim: uma criança assim precisa ser internada! Ora, meu Deus, quem irá amá-la então? Quem irá ouvir as suas queixas, interpretar suas frases truncadas ou mal construídas? Quem irá tranqüilizá-la à noite quando acorda assustada, ou tem seus sonhos maus?

Renunciamos, eu e a sua mãe, a muitas coisas para poder estar com você. Mas o que importa? Sabe filho, em seu nome vamos fazer um apelo: Pai, mãe não interne a criança deficiente que Deus lhes confiou. Ninguém poderia tomar conta do Marcos Allan a não ser eu e a sua mãe. Ninguém poderá tomar conta de seu filho deficiente como você o faz. Pedimos em nome de nosso filho.

Como foi a gestação do Marquinhos? Aconteceu alguma coisa? Não sabemos, pois a gravidez foi do coração. Eu e a minha mulher ficamos grávidos do coração, por isso fazemos outro apelo: Adote uma criança! Mais ainda; ADOTE UMA CRIANÇA EXCEPCIONAL.

Só peço a Deus que me conceda o privilégio de cuidar dele enquanto viver.

Deus nos concedeu esse privilégio, e que privilégio. Dores, lágrimas, sustos, tristezas foram compensados com um simples beijo, ou a sua pergunta simples e direta: "Você ama eu?" Sim meu filho, e como. Dizem que não existe maior amor do que o de uma mãe, mas meu coração engravidou a 31 anos quando vi aquela coisinha pequena e fofa, chorão, muito chorão, como a pedir que alguém o amasse, e eu e a sua mãe o amamos, seu irmão Carlos, e tantas outras pessoas o amaram.

Até breve filho! O que pedimos a Deus ele nos concedeu, tomar conta de você enquanto você vivesse na matéria. Quem sabe você cuidará de nós quando aportarmos o mundo espiritual. Até lá uma saudade imensa vai morar em nosso peito. Parabéns filho. Parabéns pelos 31 anos que você viveu em plenitude de amor e simplicidade.

Nota do Autor: Os trechos em negrito são da Crônica Para os Quinze Anos do Meu Filho.