Como fazer

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Felizes serão os que tiverem trabalhado o campo do Senhor com desinteresse, e movidos apenas pela caridade!" (cap. XX, item 5, Evangelho Segundo o Espiritismo)

Ponto pacífico da Doutrina Espírita, o entendimento de que precisamos trabalhar em favor do próximo. Fora da Caridade não há Salvação - é o lema do Espiritismo. Afirmam os instrutores espirituais que a oportunidade de serviço no bem é uma bênção que o Pai concede em favor da própria criatura. Servindo ao semelhante, servimos a nós próprios, realizando a finalidade da vida, que é a evolução espiritual. Entretanto, é importante considerar o como fazer, como servir. O bem deve ser praticado com desinteresse, isto é, sem visar qualquer tipo de recompensa. O interesse pessoal nem sempre se caracteriza por um ganho amoedado, ou algum bem material, pois poderá ter outros fins interesseiros, tais como: manter privilégios, exercer poder hierárquico despótico, usufruir de prestígio social, beneficiar-se dos bens da instituição em que serve, ter mais amor ao cargo que ao dever cristão, lutar pelo predomínio de opiniões próprias, preocupar-se mais com os lucros financeiros da instituição do que a evangelização do povo, o fascínio pelo destaque ser maior que a dedicação à caridade, etc.. Outro tipo de interesse, é aguardar gratidão, reconhecimento, por parte dos beneficiários. Quem recebe um benefício tem o dever de ser grato, mas quem o pratica não deve esperar gratidão do beneficiado. Ao praticar a boa ação, seu autor já está sendo abençoado pela lei da vida, e nada mais deve esperar como recompensa. Herculano Pires dizia que a caridade deve ser praticada como um meio, cujo fim é o aperfeiçoamento espiritual, tanto do que dá, como do que recebe. E não como um fim em si mesma. Se a pessoa que faz o bem considerá-lo como um fim em si mesmo, estará entendendo que está solucionando o problema do outro, e não o dela própria, como se ela fosse auto-suficiente, realizada, e de nada necessitasse. A realidade, porém, é outra. Todos somos necessitados de evolução espiritual. A oportunidade da prática do bem ocorre em favor daquele que a pratica porque, assim, estará trabalhando pela solução do seu problema evolutivo.

"A medida que o tempo passa, o espírita é chamado por Jesus a servir com mais renúncia, mais abnegação e mais desprendimento. Nosso coração mora onde colocamos nossos desejos mais profundos,. O espírita escravizado às ambições mesquinhas não participará das vibrações mais puras de humildade e simplicidade, a bem da Verdade e do Amor Universal, no campo da exemplificação cristã.

"A humildade aparente é muito mais grave na consciência que o orgulho espontâneo. O primeiro finge ao máximo para mostrar que é virtuoso, ao passo que o segundo é orgulhoso sem pensar em disfarçar. A hipocrisia é a mais grave manifestação do orgulho, por querer ser aquilo que não é.

"O problema do interesse é tão sutil, que os Espíritos comentam quanto à pratica da caridade com segundas intenções. Explicam em O Livro dos Espíritos, na questão n.° 951: Um sacrifício não é meritório senão pelo desinteresse, e aquele que o pratica tem às vezes uma segunda intenção, que lhes diminui o valor aos olhos de Deus".

"... Trabalhar com desinteresse é não misturar a caridade com o orgulho, a cultura espírita com a presunção, as distribuições generosas com a ostentação, a mediunidade abençoada com a vaidade, os bens espirituais com os bens materiais, os lucros eternos com os lucros terrestres.

"Onde o interesse brota, viceja e se desenvolve, não pode existir a verdadeira humildade. Nós, espíritas, estamos defrontados por inúmeros desafios morais, e um deles será lutar contra os próprios interesses que ainda gritam muito forte em nossos corações imaturos.

"No movimento espírita, infelizmente, em muitas ocasiões e em diversos lugares, o interesse pessoal é aplaudido, conservado e mesmo divulgado, denunciando o distanciamento dos fundamentos evangélicos. A nossa personalidade, a nossa intelectualidade, o nosso nome e nossos poderes mediúnicos tornam-se fatores mais propagados que a Doutrina Espírita. Alastra-se o fermento dos elogios infindáveis, o abuso da lisonja às figuras ilustres, o endeusamento aos médiuns e oradores notáveis. Mais grave ainda, quando os novos adeptos passam a imitar essas práticas desagradáveis.

"Os interesses subalternos cultivados no coração do trabalhador espírita criam problemas e prejuízos graves ao movimento de cristianização das criaturas. O culto do "EU" na seara do Evangelho é tão ou mais pernicioso que o culto ao bezerro de ouro dos tempos proféticos de Moisés.

"Bem melhor que brilhar muito no cenário do Espiritismo será o Espiritismo brilhar em nós, a partir das ações mais simples" (1)

(1) - Walter Barcelos, em artigo publicado no Jornal "Flama Espírita", de Uberaba (MG) - nov/96