(Encontro Marcado, lição n.° 15 - Emmanuel)
LEDA MARQUES BIGHETT
de
Ribeirão Preto-SP
Estudo 1 - Perante as ofensas
De um modo geral, é próprio do homem, em determinada faixa evolutiva, cultivar, manter, alimentar dores, autopiedade, ofensas, mágoas, queixas e correlatos. Com isso desenvolve tormentos desnecessários que o deprimirão cada vez mais, na razão direta em que a eles se entregue.
O cultivo desses aspectos, raramente expressam a real vontade de entender e trabalhar a causa dos males. Via de regra, exprimem insatisfação sistemática, mecanismos de desvio, visando a valorização do ego.
Além de se configurar como fator de desintegração do psiquismo, a manutenção de tais aspectos, reflete insegurança, que, disfarçadamente é transferido na piedade por si mesmo, o que de certa forma propicia o sentimento de indiferença pelos problemas do outro, pela vida em si, uma vez que, no seu sentir só a sua visão e entendimento são dignas de solidariedade e apoio.
Nesse processo centralizador, permanece como vítima, fecha-se, endurece, não ama a ninguém e tão pouco a si próprio.
As raízes encontram-se no EU que liga ao se sentir desprestigiado, lesado, ofendido, desrespeitado reage ao revidar, ou na mágoa, na doença, na cólera, na indignação surda ou mantém e alimenta estados de inquietação.
Daí a necessidade em aprofundar meditações em torno das aflições e seus problemas a fim de os superar crescendo.
Recorde-se que, no atual estágio evolutivo, não se consegue viver sem as batalhas do passado pessoal reencontrado, revelado através dos choques vibratórios com aqueles ou aquelas situações que se exteriorizarão em simpatias, antipatias, como amizades ou desafetos.
Em decorrência, incêndios de uns contra outros, ou abrandamentos, prazer entre os Espíritos ocorrerão, sendo impossível não sofrer essas condições próprias do planeta na sua função de escola. Por ainda serem mais vívidas, nossas vinculações à retaguarda, tão logo surja a agressão, a acusação, a ofensa enfim, conscientemente ou não, deseja-se desforra, conserva-se o rancor, não se esquece o mal que ..."qual ferida sempre aberta, drena desagradavelmente".
Esquece-se que na visão espírita, tais aspectos falam dos convites ao trabalho, que impelindo à confiança, induz a atividade saudável que dá sentido à vida em função dos objetivos que se passa a perseguir.
O que então, é a ofensa? O que é sentir-se ofendido?
Ofensa caracteriza-se pelas atitudes de lesão, injúria, ultraje, agravo, desconsideração, desacato, menosprezo, desrespeito, enfim, todo um cortejo onde o mínimo em relação ao outro não é praticado ou exercido.
Sentir-se ofendido, significa não somente sofrer a ação mas, incorporá-la, passar a conviver com a agressão, de tal forma que a simples lembrança de um ato em si ou do ofensor, altera todo o mundo íntimo, conturbando o raciocínio, o senso dos valores, mudado pelo sentimento que se permitiu ferir-se.
Desse modo, qual o valor da ofensa?
Será sempre aquele que cada um lhe atribuir, lhes der:
- quando lembramos que aquele que fere, calunia, ofende, desrespeita é um doente quase sempre em estado grave;
- quando lembramos que o ofensor está a exteriorizar uma alma sem elevação, sem grandeza;
- quando lembramos que aquele que hoje chega na agressão pode ter sido alguém ferido no passado, onde o mal causado, não trabalhado e superado se perpetuou no desenrolar das existências e justamente por não haver crescido, cobra, ocasionando as crises que instabilizam o agressor de outrora, também por sua vez desatento ao trato da causa em si.
- quando lembramos que as ofensas e portanto o ofensor revelam estado de insensatez e primitivismo em que estaciona.
- quando lembramos e trabalhamos tudo isso, o valor dado, será diferente do impacto inicial.
Nada se fazendo, num crescendo de sentimentos e reações, exteriorizar-se-á a carga de orgulho que cada um ainda conduz, oferecendo estados progressivos que se mesclam nos vários sentimentos de ira, revolta, mágoa, cansaços que por fim estabelecem ódios ou distanciamentos de longo curso.
Dessa troca das reações entre ofensor e ofendido, nascem as inimizades, as vinganças, os revides que prosseguem além túmulo e retornam a exigir recomposições em novas semeaduras.
Se desencarnado, mais leve, sem o corpo físico, prosseguindo no seu ódio encontra e identifica o parceiro encarnado, que menos livre, normalmente faz-se-lhe presa fácil que atormenta com facilidade incrível, atingindo seus interesses e afeições mais caras.
Se ambos, desencarnados ou encarnados, prosseguem as cobranças exteriorizadas sob as máscaras diferenciadas das carências, das exigências, da vigilância constante de um sobre o outro, de um desejo intenso de distância na necessidade atroz da presença, sempre em clima de atrito, instável e insatisfatório.
Configuram-se quadros de verdadeiras obsessões, que podem caminhar à estados gravíssimos de subjugação, onde, em síntese, os dois são vítimas da própria conduta não trabalhada no entendimento, na compreensão, na indulgência, na caridade, permanecendo ambos imantados aos efeitos das próprias atitudes.
Desse modo quem é o ofensor?
Quase sempre desconhecemos e nem nos interessamos para conhecer, como se encontra psiquicamente aquele que se ergue para ferir ou acusar, que passado espiritual carrega, onde as matrizes que se expandem hoje. Consciente ou inconscientemente, sem ele no seu modo de sentir motivos para se exteriorizar de modo tão desagradável. Em que drama terá tombado, em que detalhe se detém a ponto de, nesse momento, voltar-se contra as pessoas, contra nós? De que dolorosa aflição, de que intensa insegurança padece a ponto de desfechar petardos tão venenosos com os quais semeia amargura e dor?
É comum, esse nível de reflexão passar pela mente do que recebe a ofensa?
Normalmente não. Para alguns é dignidade, é consideração ao próprio eu, abandonar, fugir, distanciar-se geograficamente. Outros fecham-se em aversão profunda, mágoa ou frieza total a exteriorizar-se diante da vida como a eterna vítima, incompreendida e só. Haverá aqueles para quem represente valor a desforra pessoal em lutas despóticas, ostensivas ou veladas, que buscam não só o ofensor, mas que se dilata
abrangendo tudo quanto a ele se relacione ou diga respeito. Vive-se o direito da força, que gerando mais força, precipita atitudes passionais.
O que leva a não ter esse nível de reflexões?
São justamente nossas medievais e arraigadas noções de honra, caráter onde lavava-se a injúria na mesma tônica em que eram cometidas, esquecidos de que honra significa honestidade, consideração, virtude, e caráter é feitio moral, estabilidade relativa na maneira leal e justa de agir e reagir.
Essa falsa interpretação dos termos leva ao culto à personalidade, estimulando o egoísmo. Esses conceitos e considerações, inculcados nos mecanismos reencarnatórios, contribuem para manutenção e aprofundamento do clima das mágoas, ressentimentos e ódios em nome do direito e da liberdade.
Qual a primeira decorrência do sentir-se ofendido?
É o ressentimento. É o sentir de novo o aborrecimento, a mágoa; é o eterno reviver das atitudes menos dignas onde, continuamente, se acrescenta algo e com isso se mantém alimentada a dor, a decepção no desejo de que tudo fosse diferente.
Essa situação representa como que, um processo de fermentação que contamina todas as ações do indivíduo pois refletem seu estado íntimo. O passado com seu séquito de dramas é lembrado, rememorado, comentado, avivado em tintas fortes e cuidado para que as minúcias das decepções fiquem bem atuais. É processo de doença onde transferimos carências. Reflete ausência de compreensão do sentido da imortalidade, de conquistas morais; de avaliação real dos fatos e situações e nivela, isto é, iguala o ressentido ao nível do ofensor.
Ocorrências desagradáveis provenientes das remanescências, dos reencontros do passado ou surgidas sem matrizes nessa atual existência, ocorrerão na trilha evolutiva de cada um - são necessárias, fazem parte dos testes que avaliam o nível espiritual e que por isso mesmo pedem o discernimento do trabalho, da superação no legítimo esquecimento do mal que produziram. Só o vencer-se nas atitudes do amor lança um véu sobre o passado, libertando o ser.
Aquele que sente - não consigo esquecer - como desejar compreensão, se não percebe o limite do outro?
Pode acontecer o esquecimento aparente, envolto em secreto prazer frente a dores que aconteçam ao outro, tipo: bem feito! teve o que merecia ou demorou mas aconteceu!
Há, ainda, a frieza não se querendo mais ver a pessoa ou a imposição das condições, uma vez que para a convivência se manter você deve fazer isto ou aquilo, abrir mão, mudar, aspectos estes que jamais levarão os problemas ao desgaste, ao esquecimento, à superação.
A forma grande, generosa, nobre, entendendo o agressor como doente, o trato sem revides, buscando estabelecer em seu íntimo as atitudes imparciais na busca e manutenção do equilíbrio próprio.
É fácil ou normal agir assim no momento em que os fatos estão acontecendo?
De um modo geral não. Normalmente, os momentos ou as agressões levam a aflições, ansiedades, angústia, agonias, tormentos, insônias, fruto desse desconforto que se instala no Espírito. Funcionam tais situações como sinal de alerta, solicitando a que se avalie a situação, o valor real do fato em si, o porque dela, onde as raízes, o que propiciou sua eclosão e tantos outros questionamentos necessários à nova avaliação, como também convite a reflexão e ao entendimento na liberação dos conteúdos negativos.
Entendendo o ofensor, somente se contaminará aquele que deliberadamente se permitir permanecer no seu campo mórbido. A ofensa somente alcança aquele que a agasalha.
Somos Espíritos em aprendizado. Quando exercitarmos os aspectos melhores do nosso eu, quando acionarmos os valores positivos do ser imortal, passaremos a recolher de cada experiência resultados benéficos, produzindo desse modo resultados opostos aos desejos do agressor.
Se revidarmos com o mal o objetivo do ofensor terá sido alcançado, e na inclinação da nossa queda tombaremos na direção dele. Cairemos em suas mãos ficando-lhe à mercê, precipitando-nos em abismos mais fundos do que aqueles em que eles já estão.
A pretexto de defesa, o maior engano é usar a arma do agressor ou, se envenenar no ressentimento ante a impossibilidade da desforra. O mesmo nível da vibração, mantém o mal, infelicita e acirra ainda mais o ânimo do desafeto, reforçando suas emissões, uma vez que passamos a retribuir o próprio veneno destilado em nossa direção e acrescentado da nossa carga negativa.
Ter em mente que aquele que agride, amaldiçoa, persegue, desrespeita e calunia, mente a si mesmo, se ilude. Está em franco processo de desarranjo moral e emocional, adentrando pelos caminhos sombrios da loucura de longo porte, irreversível no presente momento.
Não entrando nos convites dele, agindo conforme as reflexões do amor (que poderão jamais ser entendidas como apoio, incentivo, conivência ou descaso), o agressor um dia será tocado por uma forma comportamental que não entende. Quando este questionamento acontecer, estará ele se abrindo ao início de um processo de largo curso nos caminhos do seu próprio crescer.
Daí ser, do nosso próprio interesse, não aceitar os desafios das agressões, não sintonizar na faixa daqueles que nos sentem como inimigos.
Se não conseguimos, ainda, superar e vencer de pronto essas situações penosas, o mínimo que podemos fazer em nosso próprio benefício é pedir por eles e, quando neles pensar fazê-lo com a paz no coração:
- dando guarida à ofensa, igualamo-nos ao ofensor.
- revidando, tornamo-nos semelhante a ele.
- se nos ferem e não revidamos, estamos em melhor situação.
- se conseguimos esquecer a ofensa, marchamos em clima de paz.
- se além de perdoar e esquecer, resolvermos ajudar teremos vencido o objetivo da prova onde ele, sem o saber, funcionou como instrumento da vida, chamando nossa atenção sobre determinado ponto ou, mostrando os erros que cometemos ou cometeríamos, colocando-nos em alerta contra nós mesmos.
(no próximo número: Compreensão e Tolerância).