MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de
Ribeirão Preto-SP
"Ao começar meus estudos, o passo inicial me agradou tanto, a simples tomada de consciência dos fatos, essas formas, a força em movimento, o menor inseto ou animal, sentidos, vista, amor, digo que o primeiro passo me infundiu tanto respeito e me deu tanto prazer que a muito custo eu teria passado, e a muito custo gostaria de passar adiante senão de parar ali e vaguear todo o tempo cantando aquilo em canto extasiado."
Essas palavras foram escritas por Walt Whitman (1819-1892), poeta norte-americano que libertou a poesia das convenções formais. Ele é apontado no filme "Sociedade dos Poetas Mortos" como fonte de inspiração de um professor que tenta passar aos seus alunos a alegria e o prazer de criar, renovar, aprender e tomar as rédeas do próprio desenvolvimento.
Suas palavras nos fazem pensar... Temos sentido este prazer em nossas crianças quando estão estudando? Temos sentido em nós mesmos estas sensações de prazer diante da descoberta daquilo que nos era antes desconhecido?
A Ciência evoluiu tanto nos últimos anos que parece que não temos tempo e, muitas vezes, nem condições de acompanhar tal evolução, e aí oferecemos resistência a aprender. Quantas pessoas relutam em tentar manipular os próprios eletrodomésticos que possuem em casa? O que estamos ganhando e perdendo com isso? Nossas crianças parecem acompanhar melhor que nós os avanços tecnológicos, e parecem sentir prazer quando têm acesso a estas novidades. Por que às vezes se entediam quando têm de pegar um livro ou ir à escola?
Encontrar o prazer de aprender depende de muitos fatores e, em parte, somos os grandes responsáveis por isto.
Primeiro é preciso trabalhar conosco mesmo. Dizer que não se teve oportunidades em determinados momentos da vida pode explicar, em parte, tais dificuldades, mas não deve nunca servir de justificativa para que não se comece agora a buscar novas oportunidades. Nunca é tarde para aprender. Não somos Espíritos imortais? Se começar - ou recomeçar - a freqüentar uma escola parece assustador para algumas pessoas, por que não buscar amigos que também gostariam de novas oportunidades? Um grupo de estudos, com determinados temas a serem estudados, já é um bom começo.
Ao fazermos isso estaremos nos envolvendo novamente, buscando dentro de nós aquela alegria que ficou escondida em algum canto, estaremos também envolvendo outras pessoas, compartilhando com elas nossas descobertas...
Tais exemplos e atitudes serão extremamente valiosos para as crianças que conosco convivem. Quem já não observou o quanto nossas crianças nos têm muitas vezes de modelo, apesar da imensa influência da sociedade sobre elas? A criança vai reunindo fragmentos de suas experiências vividas na escola, com seus amiguinhos, informações que recebe via televisão, como também, e principalmente, da interação que mantém conosco. A partir da combinação destas experiências é que ela vai negociando, entendendo, buscando o melhor para ela. Por isso muitas vezes ela pode até debochar dos pais que não têm tanta facilidade nos computadores ou vídeo-games como ela, como também pode não se interessar tanto por estas coisas. Da mesma forma, se ela nunca viu seus pais estudando, comentando o que leram, o que aprenderam, aonde vão buscar tais modelos?
É muito difícil para as crianças entenderem a exigência de dedicação que pedimos delas, quando não percebem em nós esta mesma dedicação. Não basta dizer: "No meu tempo, eu era estudioso"... Ser estudioso não é uma coisa que tem fim. Nenhum trabalho pode ser bem executado sem o constante aperfeiçoamento do trabalhador. Estes exemplos fazem parte das condições que devemos dar às nossas crianças para aprender. Claro que a escola tem um grande papel nestas questões, mas também não devemos nos omitir, jogando a responsabilidade da educação dos nossos filhos apenas para as escolas. Temos muito a fazer nesse processo.
Que mais poderemos fazer então para que essa alegria de aprender que existe nas crianças pequenas não se perca no decorrer de sua escolarização (além de estar acompanhando e participando do trabalho feito pela escola)? Mostrar coisa novas para ela, conversar sobre tudo o que existe à nossa volta, estimulá-las a falar, perguntar, querer conhecer, dar oportunidades para que ela possa perguntar para quem conheça mais sobre algum assunto que lhe interessou, permitir o acesso a livros, em bibliotecas públicas etc.
Tudo isso nos envolverá também e assim estaremos aprendendo. Também estaremos fazendo conquistas que, se em algum momento representaram o objetivo inicial da estudo, passam a ser conseqüência do ato de aprender, do prazer de aprender.
Precisamos (re)encontrar o prazer do canto extasiado do aprender, e dar condições para que nossas crianças também o (re)encontrem. Nossa vida será, no mínimo, mais divertida e feliz