Servir a Deus e a Manon

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto-SP

"Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de entregar-se a um e não fazer caso do outro. Vós não podeis servir a Deus e as riquezas" (Lucas XVI: 13)

A questão do apego aos bens materiais é bastante estudada no movimento espírita. O assunto parece ser suficientemente conhecido, mas entendemos ser válido, uma vez mais, refletir sobre ele. Eurípedes Barsanulfo fazia suas palestras sobre temas evangélicos, às quartas-feiras, no Colégio Allan Kardec, em Sacramento. Certo dia, um dos freqüentadores dessas exposições se dirigia ao Colégio, no horário habitual, para ouvir mais uma das concorridas preleções do querido Eurípedes. No trajeto encontrou um companheiro também freqüentador das reuniões de Eurípedes. Mas o companheiro aquele dia disse que não iria, alegando que já conhecia o assunto . E completou: "O professor repete muito os temas evangélicos. Eu já os conheço todos". Chegando ao Colégio, e indagado por Eurípedes pela presença do companheiro, aquele senhor transmitiu a Eurípedes a alegação ouvida. Eurípedes, então, na serenidade de sempre, redarguiu: "E ele já pratica as lições evangélicas aqui estudadas?"... "Enquanto não as praticarmos, precisamos repeti-las para que estejam sempre presentes em nossas mentes e permaneçamos cientes quanto a necessidade de vivenciá-las".

O apego aos bens materiais é um dos sérios obstáculos à evolução espiritual, como todos sabemos. Porque somos, ainda, pouco evoluídos, nossa confiança em Deus é bastante frágil. Preocupamo-nos, excessivamente, com o futuro. O medo de sofrer privações nos leva a estarmos sempre buscando segurança, precauções, prevenindo-nos contra os imprevistos da vida. É claro que devemos nos precaver, planejar a vida, prevenir o futuro, enfim fazer a nossa parte. Mas estamos falando do exagero, dos excessos, da preocupação excessiva com os bens materiais, como se tudo dependesse do dinheiro, ou como se com ele tudo resolvêssemos. "Guardai-vos e acautelai-vos de toda avareza, porque a vida de cada um não consiste na abundância das coisas que possui", disse-nos Jesus. Ouvimos alguém classificar a avareza como estúpida, ridícula e feroz. A avareza estúpida é aquela em que a pessoa só sabe guardar, amealhar. Não gasta nem com ela mesma. Torna-se escrava do dinheiro. Passa falta de um determinado bem, e não o compra, mesmo podendo, para não gastar. A avareza ridícula é aquela em que a pessoa só gasta consigo mesmo. Para ela tudo, para os outros nada. Viagens, passeios supérfluos, tudo para si próprio é muito bem empregado, mas não tem condições para nada fazer em favor dos outros. E a avareza feroz é aquela dos grupos financeiros fortes, grandes capitais, que para acumular mais e mais lança-se mão de todos os meios, mesmo ilegais, ou imorais. E assim distribui-se a miséria para muitos, enquanto uns poucos se locupletam. Esta é a avareza feroz.

Com tantas descobertas, inventos de máquinas para facilitar a vida das pessoas, poderíamos estar desfrutando, já, de uma vida melhor no planeta terra, não fosse a ambição, a avareza de muitos em prejuízo dos demais.

A medida em que formos compreendendo melhor os ensinamentos de Jesus, e, sobretudo, aplicando-os em nossas vidas, a qualidade de vida certamente muito lucrará.

A riqueza não é obstáculo absoluto à salvação, reflete Kardec nos seus comentários no Evangelho Segundo o Espiritismo. Entendemos por salvação o aperfeiçoamento espiritual, a evolução do ser. Salvação não é um ponto de chegada, mas uma caminhada, é o despertamento das faculdades do Espírito, o que vai acontecendo paulatinamente. Se a riqueza fosse obstáculo absoluto à salvação, Deus estaria colocando nas mãos de alguns instrumento fatal de perdição, o que é inadmissível. Se o dinheiro não é bem utilizado, o problema não está na moeda, e sim naquele que a administra. Condenar a fortuna pelos desastres da avareza, é o mesmo que espancar o automóvel pelos abusos do motorista, diz Emmanuel. O dinheiro é alavanca suscetível de ser manejada para o bem e para o mal.

Importante ter presente as advertências de Pascal, na mensagem constante de o Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 16, intitulada "A verdadeira Propriedade". Diz ele: "O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza durante sua permanência na Terra; mas, desde que é forçado a deixá-los, é claro que só tem o usufruto e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo e tudo que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, e que ninguém tem o poder de tirar-lhe e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste". Esta propriedade verdadeira é aquela que "os ladrões não roubam e a traça não come", como disse Jesus.

Os bens materiais são necessários, precisamos deles para vivermos no plano físico. Mas o seu valor é relativo, isto que importa ter sempre presente. Na hierarquia de valores, os verdadeiros bens, são os bens do Espírito. Se é assim, porque não sermos um pouco mais pródigos nas colaborações com as entidades beneficentes idôneas, necessitadas de ajuda? Porque não ajudar um pouco mais os irmãos em dificuldades materiais? A caridade material não é a mais difícil, mas é um grande teste. Quem pode praticar a caridade material, e não o faz, por falta de desprendimento, também não está qualificado para praticar a caridade moral, ou espiritual. 'Nenhum servo pode servir a dois senhores". Necessário saber o que é mais importante; saber fazer a hierarquia de valores. Se colocamos, ainda, em primeiro lugar, os bens materiais, ainda não aprendemos a trabalhar para aquisição dos verdadeiros bens - aqueles que o ladrão não rouba e a traça não come.