Compreensão
e Tolerância
(Encontro Marcado,
lição n.° 15 - Emmanuel)
LEDA MARQUES
BIGHETTI
de Ribeirão Preto-SP
Estudo 2 - Compreensão e tolerância
Na seqüência do tema (VERDADE E LUZ n.° 134) trabalhando no Perante as Ofensas, vimos que terá ela o valor que cada um lhe der, na proporção em que se permitir atingir ou permanecer em campo mórbido, uma vez que os piores adversários, jazem no íntimo de cada um, na forma da inferioridade e das paixões, e não fora dele como habitualmente se supõe.
Nosso tema fala de compreensão e tolerância, situações que tem que nascer e medrar primeiramente no campo pessoal, íntimo. Eclode, portanto, de dentro para fora, como fruto de reflexões, dessa faculdade de perceber os motivos que levam alguém a magoar, ferir, exteriorizando o fel que trás em si, vivendo nas atitudes as cobranças inscrustadas no seu mundo íntimo, não percebidas ou trabalhadas.
Como prosseguir, mesmo entendendo assim, se a marcha agressiva se mantém impassível?
A justiça jamais se omite ou falta. Mesmo que não percebamos sua ação, está ela a exercer, a realizar seu trabalho superior, alcançando todos os que ferem e desrespeitam as leis da vida. Age e manifesta-se sem exceção, nas formas sutis ou ostensivas, recuperando e trazendo ao equilíbrio aquele que hoje se engana.
Num parágrafo anterior, estudamos que quem magoa e fere, é principalmente, vítima de si mesmo. Daí a lógica de, através dos detalhes da dor, ora rígida, ora suave, provações rudes, expiações irreversíveis, mas sob qualquer faceta, infatigável e persuasiva, impor-se-á ao Espírito infantil e descuidado de hoje. Leva-o, por suas agruras a acordar, desejar mudar, cuidar-se na busca da higidez íntima, retomando aí a caminhada, ilusória até então.
Haveria outra forma, menos dura para que a retomada acontecesse?
Sim, e seria aquela decorrente da permeabilidade ao diálogo unido ao desejo da mudança. O nível desse Espírito, em estudo, não admite, não permite aliás, tal abertura. Recorde-se que ele nem percebe ou acha que magoa e fere. No seu conceito, os outros é que estão fora de esquadro.
Só esse cortejo de situações com suas conseqüências de abandono, solidão, rejeição, antipatias, desconfortos, levarão aos questionamentos: - por que estas restrições comigo? por que não sou ou não me sinto feliz? por que não me aceitam, não gostam de mim? o que fazer? quem pode me ajudar? como?
Atente-se que, o entender desses aspectos é primeiramente reflexivo, de vez que, o simples fato de se conviver com essas situações de atrito, sinalizam direito de "fazer justiça com as próprias mãos", mesmo que se esteja com a razão.
De alguma forma ainda somos ou já fomos assim. Atravessamos caminhos igualmente penosos, antes de despertar para as valiosas concepções da imortalidade.
Se essa compreensão já se faz, o agredido de hoje, ao invés de censurar, revidar, descrever, rememorar, comentar e manter o mal, vive em si a correção: expressa-se com a verdade; ressalta o bem; afirma, busca e vive os valores reais. Tem certeza que pessoa alguma foge à própria consciência ou se evade da evolução.
Tais procedimentos falam não do simples suportar, aturar, agüentar, mas de trabalho pessoal buscando conciliação, acordo, harmonia - individual ou recíproca.
Mas, o ser com quem convivo é impermeável. Nada vê, sente ou percebe.
Nenhum bem se perde. Uma vez lançada a semente, conserva ela a potencialidade da sua ação. Ainda que passem milênios, abrir-se-á, germinará amanhã ou depois e será luz a orientar passos no futuro de um tempo.
Se perdermos essa visão da imortalidade, essa compreensão de que somos e convivemos com Espíritos imortais, como só semear sem aguardar, sem querer e exigir o prazer o "direito" da colheita? ..."e eis que o Semeador saiu a semear"... além de falar desse amor desinteressado, ensina também que só essas atitudes de amor e que se constituirão no tempo como instrumento na preparação das almas para a assimilação das sementes no Bem.
Convidados num tempo ou noutro ao testemunho, esse é o momento da vivência dos princípios espirituais edificados na ética e na dignidade. Se de ninguém podemos exigir ajuda e compreensão, cada um há que ser aquele que auxilia e entende sem condições ou exigências, sublimando o compromisso pessoal para com a vida.
E o medo de falhar quando se pressente serem fracas as forças?
Receio é prejuízo, estímulo à desesperança. É natural porém, que ele surja. Pressente-se a gravidade do compromisso, a extensão da tarefa. Para que ou por que temer se está havendo o trabalho consciente na doação do melhor de cada um? Dinamizar as forças no exercício do bem, nas ações enobrecedoras e não temer nunca, na coragem daquele que sente mais do que sabe, que, buscando os caminhos do Pai, em qualquer trabalho com o Cristo. Ele sempre se faz presente na palavra boa do incentivo que não faltará, na conversa boa de alguém que chega, na lembrança de um amigo, na ternura de um olhar, na reflexão de um texto que ergue e fortalece, na vontade agora mais fortalecida de não parar no meio do caminho.
Implícito, junto, paralelo ou decorrente da compreensão está a tolerância. Inseparáveis, expande-se na atitude indulgente daquele que admite o comportamento do outro e respeita opiniões, modo de ser, contrário e até mesmo hostil ao seu.
Tolerância, desse modo, materializa-se como respeito pela vida, pelas pessoas conforme elas são, como se apresentam, com quem preferem estar. Não signifique ou se entenda como apoio, incentivo, aceite, ser conivente ou favorecer o negativo do outro - representa apenas dever mínimo de respeito imediato que não podemos prescindir para viver em paz conosco mesmos.
Daí a urgência do trabalho pessoal na estruturação de novas formas de consciência centradas na imortalidade, na sobrevivência do Espírito. Aqueles que se exteriorizam hoje impertinentes e agressivos, que não percebem ou aceitam reflexões e ajuda também crescerão, convivendo com aspectos e circunstâncias geradas até o seu desgastar completo; ou em problemas e estímulos duros ou em abraços de Amor.
Tolerância, embora implicite e signifique respeito ao direito de cada um ser como quer ser - não desce, não se nivela com a delinqüência, nem com abusos de qualquer ordem. Impõe-se pelo procedimento pessoal correto que não exige de ninguém a não ser de si.
Compreensão e tolerância referenciam-se apenas aos grandes acontecimentos geradores das imensas dores?
Não. As vezes compreende-se, tolera-se acontecimentos graves, por temor de revidá-lo à altura, de gerar situações mais intensas, de envolver mais pessoas que tomando as dores do ofendido, parta para extremos. Nesse caso, não está sendo exercido o processo consciente de um crescimento. Aquieta-se, tolera-se, deixa passar e cria a eterna vítima, que suporta tudo e nada faz. Na realidade, o fato, a situação apenas está sendo relevada; aparentemente se compreendeu.
Assim como nos abalos da dor, a tolerância e compreensão, continuamente nos solicitam, em treinos, por assim dizer, nas pequeninas circunstâncias Tolera-se uma agressão verbal, não um olhar de desdém; compreende-se uma calúnia bem urdida, não a palavra impensada; a dificuldade familiar, não a variação do clima; um compromisso desfeito; não uma impontualidade ..., situações estas, pequenas, sem tanta importância, mas que se apresentam como exercícios para quando as grandes chegarem, encontrar o homem pronto para o trabalho no respeito à vida, onde não correrá o risco de confundir compreensão e tolerância com covardia moral - uma dignifica e exalta; a outra envilece e deprime.
O respeito às opiniões, decisões, escolhas e direitos alheios passam por estágios que emergem à medida que o homem sai da ignorância espiritual e passa a sonhar com o Infinito, por ser essa a situação que lhe atende à ânsia de crescimento e evolução.
Em Mt. 5:25 está registrado ..."concilia-te depressa com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele"... para que entendamos que hoje marchamos lado a lado - amanhã, talvez não mais os tenhamos juntos.
A Doutrina Espírita revela, conta, ensina que na erraticidade vagam infelizes e perturbados que desencarnaram vencidos pelo ódio, corroídos pelo ciúme, dominados pela paixão. Agora, portanto, é o momento de trabalho, da compreensão, da tolerância ...depois, o tempo terá agravado o mal.
Ninguém foi mais atacado, desdenhado, escarnecido do que Jesus, e no entanto, roga ao Pai, que a todos perdoasse porque não sabiam o que estavam fazendo. Sem débito de qualquer natureza permaneceu digno ante os perseguidores testemunhando os legítimos valores e qualidades íntimas, "planando em harmonia íntima acima de quaisquer circunstâncias".
Aprendamos, mais uma vez com Jesus a descer para ajudar, onde essa "descida" será sempre eloqüente forma de subir.
Bibliografia:
- Encontro
Marcado - Emmanuel, lição 15
- Terapêutica
de Emergência; Celeiro de Bênçãos; Dimensões
da Verdade; No Limiar do Infinito - Joanna de Ângelis
- Evangelho
Segundo o Espiritismo - A. Kardec, X - 4 - 6
- Lucas 8 -
4:5