JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto-SP
"Zaqueu procurava ver Jesus para saber quem era, e não podia conseguir por causa da muita gente, já que era pequeno de estatura. E correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver, porque por ali havia de passar" - Lucas XIX - 3 e 4
Ao lado do fato real, o evangelho apresenta um ensinamento simbólico a ser percebido no bojo de suas narrativas. Zaqueu não conseguia ver Jesus por causa de muita gente, já era pequeno de estatura. Esta pequena estatura pode significar o seu grau evolutivo. A muita gente seria a distância entre ele e o Mestre. Sua pequena estatura, isto é, sua pouca evolução espiritual dificultava sua aproximação com Jesus. Interessante observar que Zaqueu tem conhecimento do fato. Sabe que sua pequena estatura lhe dificulta ver o Mestre. Nós também somos de pequena estatura, ou seja, somos Espíritos pouco evoluídos. O degrau evolutivo em que nos encontramos dificulta-nos compreender melhor os ensinos e, sobretudo, vivenciá-los. Dificulta-nos aproximarmo-nos do Mestre. Mas nem sempre tomamos conhecimento do fato. Não assumimos nossas dificuldades, nossas limitações. O orgulho e a vaidade impedem-nos de tomarmos conhecimento de nossa realidade. Allan Kardec indaga aos instrutores espirituais (QUESTÃO 919, L. Esp.) "qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal". Resposta: "Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo". Exatamente isto o que fez Zaqueu. Conhecia a si mesmo, sabia de sua pequena estatura, da distância que o separava de Jesus.
Mas Zaqueu não se acomodou. Ao contrário, elaborou um plano de ação de maneira a superar a dificuldade em que se achava. "E correndo adiante, subiu a um sicômoro para ver o Mestre". Portanto, planejou suas atividades, visando atingir o fim que pretendia. Sabemos da importância do planejamento em nossas vidas. Fazemos planos a curto, médio e longo prazo, a fim de que vamos vencendo determinadas etapas, reunindo recursos, melhores condições, para enfrentar as etapas seguintes. E se o plano é bem elaborado e executado com dedicação, conseguimos ótimos resultados. Fazemos isto na vida material, por que não fazer o mesmo em relação às questões espirituais. Identificadas nossas carências, os pontos em que precisamos melhorar, as falhas a serem corrigidas, por que não fazermos como Zaqueu: Planejar a vida também com vistas aos interesses do Espírito. Os livros a serem lidos, estudos a serem feitos, trabalhos a realizar, treinando-nos na vivência dos ensinos que abraçamos.
A árvore em que Zaqueu subiu pode significar estes recursos de que podemos nos valer para superar nossas deficiências. Não possuímos, ainda, conhecimentos melhores, habilidades, capacidade para a realização de grandes feitos. Somos de estatura pequena, mas podemos correr, isto é aproveitar o tempo, dedicando-nos ao ideal. E subir numa árvore, ou seja, suprir nossa falta de talento, ou falta de evolução espiritual, com esforço, dedicação. Os considerados gênios, ou seja, pessoas talentosas, tem mais de transpiração (trabalho, dedicação) do que de inspiração (habilidades especiais).
Zaqueu subiu numa árvore para ver Jesus. Ele, Zaqueu, era um homem rico, conhecido, entretanto não se importou com a opinião pública, com o que iriam pensar e falar dele. Estava decidido, determinado, a ver Jesus. Significa que quando resolvemos trabalhar pela nossa evolução espiritual, buscando aproximarmo-nos do Mestre, não podemos estar preocupados com a opinião de terceiros. Elogios, ou reprovações não devem nos atingir. Devemos fazer o que julgamos correto, executar o nosso plano, sem desviar do roteiro, ainda que recebamos críticas e reprovações. O mundo em que vivemos ainda é bastante materializado. Embora a maioria afirme acreditar em Deus e na imortalidade da alma, não vive como se fosse eterna. Não vivemos de maneira coerente com os princípios religiosos em que dizemos acreditar. Aquele que, efetivamente, se empenhar na aplicação dos ensinos de Jesus na vida cotidiana, princípios recordados e explicados pelo Espiritismo, estará em minoria e exposto a opiniões desfavoráveis até de amigos e dos próprios familiares. É como subir numa árvore. Terá que ser indiferente ao que as outras pessoas pensem e falem dele. É como nadar contra a corrente. Quem nada rio abaixo, a favor da correnteza encontra facilidade. Basta alguns movimentos do corpo e a própria corrente o conduz. Mas para quem vai em sentido contrário, contra a corrente, é tudo difícil. Precisa ser bom nadador e, mesmo assim, só com esforço conseguirá vencer a correnteza e seguir adiante.
Zaqueu tomou essa atitude corajosa e foi bem sucedido. O mestre o viu e falou com ele: "... desce depressa, porque importa que eu fique hoje em tua casa". Zaqueu que não conseguia nem ver Jesus, recebeu o Mestre em sua casa. Diz o Evangelho que Zaqueu recebeu Jesus com júbilo, e nem podia ser de outra maneira. Sua estratégia deu certo. O plano elaborado e executado alcançou pleno êxito. Dali por diante ele seria outro homem, porque passaria a viver com as luzes do Evangelho, na companhia do Senhor.
Nós também podemos nos aproximar de Jesus, recebê-Lo em nossa casa, isto é, em nosso íntimo. Para isto, precisamos nos conhecer, planejar as ações visando superar as dificuldades, nossas imperfeições que fazem com que permaneçamos distantes do Mestre (embora Ele esteja conosco), e realizar o plano com dedicação, mesmo que, para isto, tenhamos que enfrentar opiniões contrárias.