LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP
Em O Livro da Esperança, no texto acima, Emmanuel reflete que, religiosos, escritores, pregadores e muitas, muitas pessoas, fazem questão de, quando se referem ao mundo, identificá-lo como:
- vale de lágrimas
- poço de tentações e culpas
- núcleo de incompreensões
- antro de discórdias, viciações, delinqüência, perversidades, violências e malícia, esquecidos de que até a própria subsistência depende desse mundo que tanto depreciam.
As reflexões são atualíssimas.
Nos dias que passam, essas mesmas apreciações se fazem presentes, principalmente diante de situações tão diferenciadas, chocantes, com as quais convivemos.
Os meios de comunicação, na exploração desses acontecimentos, buscam o sensacionalismo das manchetes, acenando, insistindo, destacando detalhes, onde o homem descuidado mergulha e absorve a violência contida, para dali sair, ou o que é pior, se manter, triste, medroso, intranqüilo.
Para muitos, a situação ganha tal intensidade, gera tal nível de insegurança, que chega a ser comum ouvirmos alegações no sentido de ser preferível alhear-se do contexto, negando-se a ler jornais, livros, ir ao cinema, teatro, como se o simples fato da fuga da realidade contribuísse para alterar, mudar a situação, trazendo-lhe equilíbrio e paz.
Outros, mais drásticos, também nesse desapreço e desgosto, buscam esse equilíbrio e paz no isolamento dos lugares longínquos, afastando-se do próprio mundo, que lhe oferece até mesmo, esse isolamento buscado.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo cap. V - 26, as reflexões ali constantes claramente perguntam: "Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no insulamneto, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais do combate? "
Desse modo, ignorar, esconder-se, fazer de conta que não vê, fugir da realidade a título de resguardar-se, é "... abraçar o egoísmo mascarado de santidade." é condenar-se a não ser útil a ninguém.
Haverá porém, casos que justificam esse isolamento tornando-o bom, produtivo, válido e meritório quando aquele que o faz buscando-o para amparar os infelizes. Estes se elevam, têm o duplo mérito de se sobrepor aos prazeres e comodidades materiais, e em ambientes inóspitos, difíceis, vivem o Bem, no exercício do trabalho em função das melhores condições para o outro.
Situação também grandiosa e meritória é a daqueles que no retiro ao burburinho geral do meio, buscam a tranqüilidade necessária à produção de certos trabalhos e pesquisas. Estes, não estão ou não se isolam da sociedade, pois que trabalham para o encontro dos meios que facultem viver melhor.
Afora esses aspectos, isolar-se no sentido de preservar-se, atestam ..."mentes infantis reunidas nas linhas primárias", do entendimento em desalinho.
Poder-se-ia perguntar - mundo - por que precisa o Espírito viver, reencarnar em ambiente tão contrastado aos nossos desejos e anseios?
Recorde-se que em determinado ponto da caminhada Deus impõe a encarnação ao Espírito como meio de levá-lo à Perfeição.
Será justamente aqui, na vida corpórea, convivendo nas várias diferenciações características, nos atritos, nos problemas, nas situações não solucionadas no passado que esse Espírito encontrará os estímulos necessários e pessoais, onde no trato com eles buscando superá-los, cresce, amplia horizontes e colabora com a criação.
Passos, providências, atitudes, às vezes na aparência, insignificantes, pequeninos, mas que somam-se em progressão no renovar dos valores para o Bem. Esse processo individual, esta mesma mecânica, ocorre nos demais indivíduos e o complexo dessa somatória influencia, concorre, determina o bem geral - muda o homem - muda o meio - muda o mundo.
Nesse sentido encadeiam-se as modificações na estrutura íntima do ser; transubstancia-se, muda a essência que lentamente vai se exteriorizando em posicionamentos diversos dos anteriores. Refletem-se desde os desejos, os sonhos, as aspirações, às providências e alterações nas situações, decretos e leis que buscam, ainda que inconscientes a melhoria do mundo que nos acolhe.
A problemática, a atual situação não decorre portanto, do mundo como componente físico, material, mas do homem, uma vez que a vida altera, desvirtua seu sentido, sua significação e razão de ser, na proporção em que esse mesmo homem se distancia, se afasta ou desconhece sua essência imortal. Sem isso, sem a compreensão espiritual, busca no mundo material a única explicação para os fatos. Quando então, problemas e desgraças acontecem, quando os fatos chocam, os horizontes se fecham, as perspectivas inexistem, os problemas e as dores, imperam impondo a visão pessimista, derrotada e imediatista, numa existência robotizada, onde só vale aproveitar, tirar vantagens da hora, do momento presente, a despeito portanto, de tudo e de todos.
Há uma lenda russa sobre velho monge que além de altamente preocupado com as agruras do mundo, se mantém desgostoso, decepcionado com o homem, no caso seus paroquianos, Não encontra, não vê, não descobre meios para melhorar a ambos; não vê, não encontra, não descobre meios de despertar o homem.
Em tais preocupações adormece. Nesse estado distingue súbita claridade, alguém toma-lhe a mão e o arrebata em glorioso vôo para o Espaço. Vagarosamente começa a perceber cores, sons, melodias, harmonias diferentes, pontos e pontos luminosos formando caprichosos desenhos em movimentos rotativos, cadenciados, como gemas de valor incalculável a bailar na imensidão. Deslumbrado, atônito explicam-lhe ser aquela uma visão do Universo Sideral, onde em todos eles, caracteriza-se a vida, o trabalho, o progresso, a evolução, o equilíbrio das leis.
Quer o monge ver a Deus, os anjos, os arcanjos, os querubins, os serafins, os santos... Explicam-lhe que estes todos, somos nós mesmos que depois de termos educado o sentimento utilizamos as faculdades no sentido do Bem.
No tempo que retrocedeu, foi lhe mostrado a Terra num estágio bem anterior a descida de Jesus com sua Doutrina de reeducação. Pode apreciar todo um trabalho minucioso onde o Amor tudo visava, construía, estabelecia preocupado com o bem estar alheio. Quando a Terra, no turbilhão dos tempos, ficou pronta por assim dizer, observou um pequeno globo azul onde as bênçãos do Pai o envolviam em dádivas generosas "capazes de permitirem venturas perenes aos que nela ingressassem para os estágios necessários à evolução. Dessas bênçãos fazia parte a constituição geológica, os veios profundos dos excelentes minérios, a exuberância mágica de seu solo, a Flora, os rios caudalosos, a água pura, a Fauna, as aves, os pássaros variados úteis e formosos, cada verme, cada micróbio, cada um e cada qual formando núcleos, famílias, raças em sociedades vastas e intensas, a guardar atraentes segredos e preciosidades em homenagem ao Homem para servi-lo e ajudá-lo propiciando-lhe situações sempre mais elevadas no trajeto da Eternidade.
Satisfeito, louvando a Deus pela gloriosa Criação, foi-lhe mostrado o Homem para quem tão caprichoso paraíso fora ideado. Frente a tanta grandeza comentou-se que no mínimo, certamente seria ele obediente e amoroso, trabalhador e idealista... Acompanhando-o porém, insólita angústia, choca em desapontamento uma vez que as Virtudes não conseguiam se insinuar no caráter humano.
Mas não fora esse homem criado à semelhança do próprio Criador, abrigando em seu coração qualidades que traduzem essa origem? Como entender exteriorizar-se ele nem amorável, nem generoso, nem humilde, nem piedoso, nem fervoroso, nem razoável, nem paciente, abnegado, perseverante, desinteressado, dedicado e sincero? Como explicar quando ao contrário revelava-se ambicioso, cruel, violento, invejoso, luxurioso, devasso, orgulhoso, hipócrita, infiel, dissimulado, adúltero, traidor, intrigante, sanguinário, incrédulo e blasfemo?
Decidiram buscar Jesus pedindo-lhe explicações, esclarecimentos sobre tão confuso paradoxo.
E Jesus ..."com seu sorriso de Luz" explica-lhe que por isso mesmo viria para ensinar os códigos do Pai uma vez que não era o homem como o julgavam, mau; apenas ignorantes, crianças que crescem, vacilantes nos trabalhos da evolução e necessitados de educação. Viria ensinar-lhes com exemplos, amando-os até ao sacrifício ..."para que aprendam que no Amor é que se encontra toda a essência da Vida"...
Reconduzido ao corpo, meio desperto agitando-se no humilde catre guarda as advertências do Espírito amigo: ..."Reeduca pois as tuas ovelhas sob rigorosos programas cristãos, sem mescla de enxertías humanas... ministra-os imaculados como saíram do coração do Mestre...
- em vez de descuros, alfabetiza...
- em vez de prometer desgraças e castigos, sê tu primeiro, virtuoso, com exemplos...
- em vez de prometer um Céu duvidoso, ajuda-as a descobrir o Céu na própria consciência...
- em vez das absolvições, faze sentir a responsabilidade que carregam como almas imortais inteligentes e livres...
- em vez de jejuns, sacia-as com a comunicação da glória do Cosmo, com o conhecimento das belezas sem fim que Deus criou para seus filhos...
- em vez de penitência, ensina-os a servirem ao próximo...
- em vez de nichos, ícones, velas e oferendas dá-lhes o estudo e a meditação, fala-lhes da evolução sem limites, gloriosa, arrebatadora em cada espécie...
Reeduca-as com amor e perseverança! E verás depois, que serão cidadãos aproveitáveis, pacíficos, amáveis e obedientes a Deus!"
"Dar e ser-vos-á dado" - Jesus (Lc 6:38)
"Doemos, pois, ao mundo ainda que seja o mínimo do máximo que recebemos dele, compreendendo e servindo aos outros sem atribuir ao mundo os erros e desajustes que estão em nós"
Bibliografia:
Emmanuel, O Livro da Esperança - 11
Kardec, Allan - O Evang. Seg. o Espiritismo - cap. 5 -
26
Kardec, Allan - L. E. - 769 - 711 - 132
Pereira, Yvonne A. - Ressurreição e vida
- 40