Saber ouvir

LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP

À todo aquele que entende a vida como contínuo oferecimento de convites, onde, pelas respostas dadas, aferimos, treinamos, corrigimos, afirmamos o desenvolvimento das virtudes, estas passam a ser percebidas não apenas como o ato em si de fazer o Bem, mas como atitudes que, por mais simples que possam parecer, terão que conter, algo mais, algo muito pessoal.

Nesse raciocínio, o Bem ultrapassa ao fato de socorrer, suprir, ajudar, por que cunha-se no espírito de servir, de dar-se no ato de dar.

Um desses exercícios, a que comumente a vida nos presenteia é o fato de ouvir a desdita, a dor do próximo. No texto trinta e oito do Opinião Espírita Emmanuel levanta várias situações que nos levam a questionar - será que sabemos ouvir, exercitando nesse ato, a beneficência, a caridade, o amor em ação? Reflitamos em dois posicionamentos corriqueiros, reais, onde nossa forma de agir responde à pergunta feita: - ao visitar, por exemplo, alguém que chega de uma viagem ou que convalesce de enfermidade - como agimos? Via de regra, falamos da viagem que fizemos ou faremos; contamos a nossa doença, as dores horríveis que vencemos... nos despedimos, partimos sem permitir àquele que chegou, contar suas experiências e descobertas; sem deixar o companheiro que se restabelece expor suas aflições, temores, e expectativas.

Se nos dispomos a ouvir desencarnados, revivendo este as razões em que se detém no tempo, nem bem começou ele a exteriorizar o pensamento aflito e confuso, interrompemos e, ou tentamos passar-lhe todos os princípios básicos à Codificação ou o mandamos rezar, falando-lhe de um Deus Pai, de um Jesus modelo e vida, aspectos estes que mais o revoltam, uma vez que, fechado em sua dor não se permite perceber essa paternidade, esse auxílio maior.

Por outro lado, ao nosso redor há aflição, tumulto, vozerio e são muitos os que marcham desorientados. Uma das características desses companheiros é a tendência a repetir sempre, sempre a mesma estória, os mesmos detalhes tão logo encontre alguém disponível. Essa compulsão chega a tal ponto que é comum percebermos pessoas se desviando, fugindo mesmo desse aflito em questão, que em síntese, apenas busca alguém que o ajude a entender o momento difícil, que ofereça o silêncio atento de um coração amigo que o deixe falar, que o fortaleça na luta.

Os muitos a quem ele se dispôs a contar seu drama, o escutaram na intenção apressada, no ar distante dos que não querem se incomodar... Muitos já lhe disseram: ..."pior aconteceu comigo"..., sem perceber que ao narrar a "bravura" como resolveu seu caso pessoal, nos colocamos na distante cátedra da superioridade e do egoísmo com que aumentamos os desgostos e dores do outro.

Essa insistência no contar, no falar o drama, evidência busca, por jamais ter encontrado alguém que realmente se preocupasse em ceder atenção, interesse, afeição levando-o a trazer o problema, a dor à superfície; a analisar com ele seus próprios sentimentos, anseios e medos, temores e esperanças, a fim de que pelo entendimento da situação, da sua função e porquês, pouco, se lhe descongestionasse as idéias infelizes que lhe circunvagavam os meandros da alma.

Quem procura o outro para falar de seus dramas, conhece de sobra a dor que o oprime e ao pedir para ser ouvido, roga apenas parcelas de energias que lhe assegurem caminhar mais alguns passos.

Mas... eu não ajo assim. Escuto e sempre tenho um conselho bom. Sei que ajudo!

Será que ajuda, mesmo? Dar conselho é emitir nosso parecer, nosso juízo, nossa opinião onde passamos ao outro nosso modo de ser, de sentir, de pensar, e fazer, de ações nossas pessoais, de reações que pensamos teríamos, diante de acontecimentos, coisas e pessoas, entregando soluções prontas, acabadas limitando o aflito a aceitar ou recusar.

Oferecer conselhos nesse tipo de ajuda, baseia-se no princípio de que o maior problema que possa haver é o meu - portanto o que serve como solução para mim, deve servir também para o outro. Tanto isso é real que o conselho se inicia com fórmulas mais ou menos semelhantes ..."se eu fosse você"... "se eu estivesse em seu lugar"... Na realidade, eu nunca serei o outro; jamais aprenderei a intensidade real do drama, fruto de todo um contexto onde somam antecedentes, percepções, sensações, emoções, raízes a constituir bagagem própria que estruturam cada ser como personalidade única, com sentimentos e necessidades específicas. Decorrendo disso, o que possa se apresentar como solução ideal para mim, não só pode não ajudar, não servir, como até prejudicar o outro.

Públio Lentulus ao procurar Jesus no rogo de benefícios para a filha ouve do Mestre questionamentos e análises duras em relação ao seu próprio viver. Comoções desconhecidas e imprevistas lhe envolve o coração. Profundas reflexões emergem naquele Espírito orgulhoso ...Deveria ele abandonar suas mais caras tradições de pátria e família para tornar-se um homem humilde, irmão de todas as criaturas? Não eram aquelas conotações futilidades ocas e desprezíveis?

Percebendo-lhe os pensamentos, Jesus, ao invés de aconselhá-lo a agir desta ou daquela forma, apenas lança-lhe mais uma reflexão:

— "Depois de longos anos de desvio do bom caminho, pelo sendal dos erros clamorosos, encontras, hoje, um ponto de referência para a regeneração de toda a tua vida. Está porém, no teu querer o aproveitá-lo agora, ou daqui alguns milênios"...

Jesus não induz, não oferece uma solução, uma posição. Lança-lhe a visão da vida e deixa que o Espírito livre toma decisões.

Quando no descuido, na negligência, conselhos são aceitos, por não serem fruto do que realmente o indivíduo é, continuarão os desvios as insatisfações, os desajustes e a necessidade de buscar as soluções para o mesmo problema que não foi entendido, trabalhado.

Desponta ainda o conselho, como desrespeito à liberdade do outro. Por melhor que seja nossa intenção, não podemos tirar-lhe a capacidade de escolha. Cada qual vive em permanente e natural processo de desenvolvimento, buscando na elaboração íntima do mundo mental de profundidade, autonomia, realização, ajustamento e quando esse trabalho não acontece, trunca-se, entrava-se a elaboração das novas formas de consciência do ser em evolução.

Além do ouvir aconselhando, quais seriam outras formas de o fazer?

É comum ouvirmos, exprimindo opiniões relativas ao mérito ou à utilidade da situação em si, refletindo que não está tão ruim assim, que poderia ser ou estar pior, raciocínios que, se não pioram o drama em si também não levam a que se trabalhe o conflito.

Outro posicionamento, é a interpretação, explicando, esclarecendo que se determinadas providências tivessem ou não sido tomadas não se teria chegado a tal ponto representado por agruras e dores desses momentos.

Há a atitude de apoio, tendente a tranqüilizar, aliviar a angústia, analisando não se constituir o momento tão sério ou grave quanto a pessoa o vê e que tudo se resolverá uma vez que não há problema sem solução.

Some-se aquele ouvir que busca obter dados suplementares, aprofundando discussões, envolvendo pareceres de outras pessoas que vão tornando o clima insustentável, a solução mais complexa do que já se apresenta.

Chega-se a atitude que busca abranger todo o contexto, buscando o indivíduo a partir do seu interior no captar em tom afetuoso, o pessoal da comunicação. Isso implicita a preocupação de apreender corretamente o significado da vida, o sentimento que a pessoa experimenta. Nesse ponto, as sensações, emoções daquele que ouve centrada no outro está aberta para aceitar o conteúdo psíquico diferente do seu próprio eu.

Essa empatia estabelecida, essa comunhão afetiva permite ao que ouve sentir todo um mundo subjetivo que no momento oscila desequilibrando a pessoa como um todo.

Quem se dispõe a ouvir assim, não tem a preocupação de interpretar, apoiar, julgar, aconselhar, mas disposto a captar o que de verdade a pessoa está passando, e atento aos gestos, trejeitos, expressões indicadoras do nível de mergulho nessa dor e de onde através de perguntas simples, tiradas daquilo que o indivíduo conta, vão permitindo, que ele, a pessoa com problema, descubra os porquês, deduza ou visualize caminhos.

Tal proceder exige de quem ouve, sensibilidade para que a atenção não se fixe só no caso, no enredo, no drama, mas envolvendo a pessoa como um todo, interessa-se pelo crescimento dela, no desenvolvimento de um potencial, de uma capacidade maior para enfrentar a vida.

Ao invés de absorver-se no querer resolver, seu potencial está voltado para a criação das condições favoráveis onde o indivíduo alcance o significado real que o problema tem para ele como ser imortal em passagem pelo mundo.

Ouvir desse modo, leva a pessoa que sofre a conhecer-se melhor, a descobrir sua própria potencialidade, a vencer bloqueios. A tal ponto esta atitude é benéfica e construtiva que pouco a pouco o indivíduo vai adquirindo habilidade de resolver com equilíbrio suas situações e conflitos, ajustando-se mais adequadamente ao meio, rompendo barreiras até um dia caminhar liberto.

Esse ouvir atento, empático, esse trabalho em relação ao outro é aquele dar de si, é aquele algo mais, é o deter-se para servir, é o dar-se no dar, uma vez que leva o que ouve a centrar-se no outro, despertando esse outro para se ajudar, sem se contagiar emocionalmente. Quando nos couber falar, com todo esse sentimento real de amor encadear raciocínios que levem à análise, à reflexão, sem ferir e principalmente, sem reanimar iludindo ou enganando. Ainda, segundo Emmanuel ... "aprendamos a ouvir para auxiliar sem a pretensão de resolver."

Assim, a vida, o dia a dia, as horas, trazem à todo aquele que está desperto, ensejo de doar-se com o único objetivo de ver o outro independente, feliz por haver se encontrado, harmonizando-se no trato às situações a que faz jus.

Nas pequeninas providências, nos detalhes do caminho, será nesse dar-se no dar, que sem dúvida, estaremos a exemplo de Jesus, amando, consolando, esclarecendo, libertando e servindo.