Paulo Freire e a morte do Índio Pataxó
MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
"(...) Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a serem sérios, justos e amorosos da vida e dos outros." Paulo Freire
Estas palavras foram as últimas escritas por Paulo Freire, um grande educador brasileiro, que desencarnou em 2 de maio último. Ele deixou uma enorme contribuição à sociedade com seu trabalho, enfocando a Educação como base para o desenvolvimento de uma sociedade mais humana e justa. A valorização do saber das pessoas mais simples e a preocupação com a conscientização das pessoas sobre as relações que movem o mundo sempre foi a tônica de seu trabalho.
A Folha de São Paulo de 11 de maio passado publicou o texto de Paulo Freire - do qual extraí a epígrafe acima - que faz menção ao fato recente, marcante e vergonhoso para o nosso País, que foi a morte daquele índio pataxó, incendiado por adolescentes em Brasília. Tal texto - encontrado ainda manuscrito e não revisado pelo autor - comporia o livro em processo de elaboração: "Cartas Pedagógicas", destinado a pais e professores.
O texto que ele deixou com uma reflexão sobre este caso é de tamanha pertinência que transcrevo-o aqui:
"(...) Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor.
Se a educação sozinha não transforma a sociedade sem ela tampouco a sociedade muda.
Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da eqüidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos.
Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a serem sérios, justos e amorosos da vida e dos outros."
Este texto, que até parece um desabafo de Paulo Freire, nos alerta também no sentido de nos percebermos em parte responsáveis pelos caminhos que nossos adolescentes estão trilhando, pois é nos mínimos detalhes, nos exemplos das ações cotidianas que vamos ajudando a construir o caráter das crianças que conosco convivem.
Todos devem se lembrar de que na ocasião daquele acontecimento, os jovens que mataram o índio alegaram que aquilo havia sido "apenas uma brincadeira".
Ora, que brincadeira é essa? O que está acontecendo a ponto de nossos jovens não saberem distinguir brincadeira de um ato de extremo vandalismo? Se adolescentes dito "normais", com pai e mãe em casa, escola, alimentação, carros e uma série de facilidades, estão cometendo tais atrocidades, nós temos que parar e nos perguntar: o que temos a ver com isso? Do jeito que estamos construindo o nosso cotidiano, a nossa relação com nossos filhos e crianças próximas a nós, que exemplo estamos passando? Que modelo de conduta oferecemos a eles? Até que ponto um ato de desrespeito ao próximo, tão pequeno à primeira vista, não vai se tornando modelo de situações mais complexas para nossos filhos? Estamos contribuindo para melhorar esta sociedade ou justamente o inverso?
Paulo Freire alertou-nos para o papel de cada um de nós neste processo de humanização da sociedade, nesta caminhada evolutiva em que estamos, cada um de nós com uma missão importantíssima, no que diz respeito aos nossos filhos, alunos, evangelizandos ou qualquer criança ou jovem que conosco conviva; Que estão conosco neste momento de sua evolução em que são suscetíveis e abertos à nossa orientação e, principalmente, aos modelos e exemplos que podemos dar... Paulo Freire, com sua visão ampla, que ultrapassa os limites da educação formal, deixou-nos mais esta contribuição. Vamos pensar nisso, agora.