A perfeição como meta

AMILCAR DEL CHIARO FILHO
de Guarulhos, SP

Às vezes o homem fica perplexo diante do sofrimento que o atinge, e, não raro, duvida da existência de uma justiça divina ou de uma força superior que dirige os destinos humanos.

Quando o sofrimento físico e moral se abate sobre as nossas vidas, e não encontramos uma razão para isto, há os que entram pela via do desânimo e da rebeldia. Alguns reagem infantilmente, como se quisessem dizer a Deus: "Você não atende os meus pedidos, eu não acredito mais em você".

A maioria das seitas religiosas e das religiões institucionalizadas não apresentam uma explicação lógica para o sofrimento, colocando-o como a inquestionável vontade de Deus. Assim ele quer, assim será! Não adianta questionar. Entretanto, muitos dos que se dizem seus representantes na Terra, ou, seus capatazes, como dizia Herculano Pires, são bastante atilados e acenam com a felicidade para agora e a salvação para a vida futura, para arrebanharem adeptos.

Não poucas vezes eles tem usado palavras de Jesus de Nazaré para confortar aqueles que curtem ou são curtidos pela pobreza, pelas misérias da vida, levantando uma ponta de rancor ou desforra: "Dificultosamente um rico entrará no Reino do Céu". Ora, pobreza não é santidade, assim como riqueza não é perdição. Dependerá do que cada um faz da sua riqueza ou da sua pobreza.

No entanto os autodenominados representantes de Deus, não raro, se enriquecem de bens terrenos doados pelos seguidores, que pensam, assim, garantir a salvação e a sua entrada no paraíso. O dinheiro, logicamente, é doado para Deus, mas como o Ser supremo não precisa de dinheiro e não vai gastá-lo, seus capatazes o fazem por ele. Mas isto não é vício apenas do cristianismo. Algumas religiões orientais também tem seus grandes líderes levando vidas principescas.

Até a metade do século XIX a humanidade tinha poucas opções: Ou se entregava à crenças simplórias, ou a doutrinas dogmáticas ou às iniciáticas, ou então preferia o materialismo. Foi neste momento que houve um grande surto de espiritualismo, cujo estopim foi Hidesvylle e prosseguiu com a explosão das mesas girantes e falantes que tomou conta de grande parte do mundo, e especialmente da Europa.

Esta invasão organizada dos espíritos encontrou em Paris, cidade que se rendeu aos fenômenos das mesas, o Prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail, um pedagogo genial, que interessou-se pelos fenômenos das mesas, ridicularizadas por muitos intelectuais, e delas fez nascer a racional e lógica Doutrina Espírita.

Usando o pseudônimo de Allan Kardec, e afirmando que a moral espírita é a mesma moral cristã, por ser a melhor, trouxe um fato novo: a reencarnação progressiva e humana, que caminha junto com a Lei de Causa e Efeito, dando uma anterioridade às nossas aflições, mas advertindo que existem, também, causas atuais, muitas delas nascidas da nossa incapacidade de bem gerenciar a nossa vida.

Com o conhecimento espírita fica evidenciado que fomos criados simples e ignorantes, e nos foi dada uma meta a atingir, a perfeição. Atingiremos o alvo através das reencarnações sucessivas e progressivas, onde acumulamos experiências.

Mas nem todo sofrimento é resgate; pode ser "prova", desvinculada de dívidas, mas configura-se num teste de capacitação, e se torna altamente motivadora do progresso.

Infelizmente o privilégio de ter tais conhecimentos nem sempre resulta em bom aproveitamento. O movimento espírita tem a tendência de banalizar a reencarnação, vinculando todos acontecimentos da vida aos débitos do passado. Repetimos por condicionamento de muitos milênios, a mesma cantilena das religiões, afirmando que precisamos ser pacientes, bons, acríticos para podermos morar numa região de luz, ao desencarnar, e quando reencarnar, fazê-lo numa situação melhor, e, mais para à frente, em mundos mais adiantados.

Concordamos que a paciência dá bons frutos, mas se torna negativa quando impede que lutemos por corrigir as injustiças, mormente as de natureza social, ou que nos faz acomodar às dores e angústias das reencarnações dolorosas, numa espécie de masoquismo místico e inconsciente. Mas entendam que quando falamos de luta, nem de leve pensamos em luta de classes ou luta armada, mas sim numa resistência pacífica ao mal, uma luta amorosa por um mundo melhor, de vivência plena, de qualidade de vida, de autodoação, de fraternidade.