Versão prática

LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP

... certo dia no tempo, Jesus ensinava através de uma parábola... Contou a estória sobre certo rei que, celebrando as bodas de seu filho, envia servos a convidar amigos. Estes, alegando várias razões, recusam; não aceitam participar da festa.

Manda o rei que retornem, que insistam no convite. Desta vez, além de não aceita-los, os convidados, ultrajam e matam os emissários.

Acomete-se o rei de ira, cólera. Envia seus exércitos, destrói a cidade, extermina a todos.

Novamente, manda seus servos que saiam a convidar, agora, indistintamente, à todos quantos encontrem: conhecidos, desconhecidos, bons, maus, e desta vez a casa se enche; há movimento por todo o lado. Apreciando a festa, nota que um dos convivas não se preparou, não está vestido adequadamente, está sem a roupa apropriada a tais ocasiões e pergunta-lhe:  Amigo, como entrou sem a veste nupcial? Como nada lhe responde o homem,, chama os servos; ordena que o amarrem de pés e mãos e o lancem fora onde ..."há o pranto, o ranger dos dentes".

Como interpretar essa estória? Qual o ensino aí contido? Que versão prática, isto é, que tradução, qual a aplicação para nossa vida hoje?

Como entender esse estranho banquete onde o anfitrião necessita insistir nos convites que além de serem recusados também se matem os portadores dos convites?

Qual o ensino a tirar desse rei que excedendo-se ordena a destruição, convida indiscriminadamente e constatando alguém sem a veste própria, ata e expulsa da reunião, da festa?

Se nos detivermos nestes questionamentos direcionando-os apenas para o banquete materialmente falando, há contra-senso, absurdos, onde ficam confusas as atitudes. O mesmo, porém não ocorre se procurarmos o significado da proposta, no objetivo espiritual aí contido.

Guardadas as devidas proporções, nos paralelos e transferências a serem feitas, está implícito que Deus, em sua infinita misericórdia deliberara aferir o grau de fé e aprimoramento do povo judeu, na época, a única comunidade monoteísta e que deveria ter atingido ponto de maturidade suficiente para assimilar a nova revelação, devendo esta daí, estender-se para toda Humanidade, como um prelúdio, uma preparação ao grande trabalho que o Cristo de Deus viria a desempenhar na Terra.

Assim, esse foi o povo escolhido e o primeiro convite formulado se dá quando por ocasião da revelação de Moisés, Os dez mandamentos do Sinai, tinham a finalidade de concitar, despertar, para refrear desregramentos e desmandos, educar instintos agregando no íntimo alguma forma de melhoria. Surge aí a primeira situação: - dentro das propostas inseridas na revelação estava implícito o desapego, a sublimação das vantagens materiais na reestruturação de um novo modo de sentir e pensar. Esse contexto não é entendido e por decorrência rejeitado.

Simultânea e posteriormente sucedem-se os chamamentos, onde profetas e missionários encarregados desses apelos são desconsiderados.

Durante muitos séculos fica a Humanidade como que, amadurecendo, dentro das leis imutáveis que regem o Cosmo.

Na sanha feroz que minava as civilizações, tiveram os judeus muitas das suas cidades destruidas; filhos aniquilados, culminando essa série de dores com a destruição de Jerusalém.

Em clima de sofrimento mesclado a desejos de mudança, chega Jesus e com Ele novo convite é apresentado. Desta vez, amplo, generalizado, extensivo indistintamente a judeus, gentios, bons, maus, ricos, pobres, monoteístas, politeístas e entre tantos, muitos o aceitam. A seara regurgita de adeptos de todos os matizes onde se destacam os que polemizam, os interesseiros, os idólatras, os falsos profetas, que locupletando-se com os alimentos do banquete evangélico, se constituem em pedras de tropeço, usando os ensinamentos do Cristo em favor de seus próprios interesses causando alteração e deturpação da mensagem.

Interpretando à sua maneira, como resposta à afirmativa de Jesus de que o filho do homem não tinha pedra onde reclinar a cabeça, eregem, erguem suntuosas casas de oração, esquecidos até das advertências já contidas no Velho Testamento de que o Pai não precisa dos templos de pedra para ali habitar.

Em réplica à admoestação de que o homem necessita da mansidão e humildade de coração, fariam tribunais religiosos, instrumentos de tortura, fomentam perseguições inquisitóriais, as cruzadas fraticidas.

Ao invés de orar na intimidade do coração, na simplicidade do sentimento da hora, montam as litânias exteriores, intermináveis com que mascaram, enganam e se comprometem no uso das aparências.

Surgem os dogmas, o pecado, as penas eternas, a unicidade das existências e do mundo. Usam-se de todos os meios, para impedir a ação da razão, a elaboração do pensamento, as comparações, as deduções, a opção, a escolha, visando estes deter, subjugar, manter o homem dependente, ignorante, fácil de ser conduzido e usado.

Os muitos, mergulhados nesse uso da fé aparente, inoperante e exterior, frágil e imediatista, desvirtuando o convite de Jesus, malbaratando os próprios dons, comprometeram-se, enveredando e comprometendo a outros. A estes diria o rei da estória: "Amigo, como participar da festa sem estar vestido para as bodas?

E aí entra a questão seiscentos e vinte e sete de O Livro dos Espíritos, refletindo sobre a necessidade de desenvolver estes estudos alegóricos, de entendê-los e perceber-lhes a atualidade porque ainda hoje ..."poucos são os que compreendem e menos os que praticam".

Com a Terceira Revelação o convite, na mensagem de Jesus é explicado de forma clara, sem equívocos a fim de que não se pretexte ignorância, que se aprecie, entenda, aprenda no uso da razão, o caráter funcional do Evangelho de Jesus, propondo rumos para que o homem intelecutalizado desses tempos, porém não necessariamente moralizado, consiga sua veste nupcial na interpretação prática da lição para os nossos dias.

O espírito do estudo evangélico, portanto, propõe a lavoura, o trabalho no Bem em cada circunstância, em cada lance da caminhada, onde a Boa Nova continua se fazendo presente, como concessões que a maioria das vezes não só não entendemos como nem lhe identificamos a presença.

Através de que situações aconteceriam hoje estes convites às bodas?

"Há quem recebe o dote da cultura, bandeando-se para as fileiras da vaidade; quem recolhe a mordomia do ouro, descendo para os antros da usura; quem senhoreia o tesouro da fé, preferindo ajustar-se ao comodismo da dúvida malfazeja, quem exibe o talento da autoridade, isolando-se na fortificação da injustiça; quem dispõe da riqueza das horas, mantendo-se no desvão da ociosidade e quem frui o dom de ajudar, imobilizando-se no palanque da crítica ..." Na grande maioria das vezes, detentores dessas bênçãos, as dilapidamos como outrora, nos acreditando íntegros, responsáveis, mas usando-as em proveito próprio a despeito e apesar do outro ..." eis que surge o sofrimento por mensageiro mais justo convocando bons e menos bons, felizes e infelizes, credores e devedores, vítimas e verdugos ao serviço da perfeição "...

Percebe-se que, não aceite ao chamamento de Cristo, nas explicações da terceira revelação, a veste nupcial não se estrutura através dos fatos externos, extraordinários, nos martírios, sacrifícios e fogueiras.

Cada dia ao despontar, traz situações que não identificadas como pessoais e intransferíveis, podem conduzir à auto comiseração, a revolta, ao desajuste, a mágoa, ao pessimismo ou mudar tudo, transformando fundamentalmente o momento na espiral dinâmica que embute no próprio movimento da ação em si, o impulso para a próxima elipse onde a abrangência do raio é cada vez mais ampla, mais aberta e portanto impulsionadora na dinâmica cada vez mais intensa, rápida e abrangente.

Relacionada a estória, passam as existências no contexto da Vida, a se constituir no perene convite, onde seja qual for a situação, se configura como momentos de restaurar, entender, aliviar, alegrar, reconstruir, amparar, desculpar caminhando à feição do raio de sol, que por onde passa, aclara, dissipando miasmas e trevas.

Despertos, nessa busca interior, circunstâncias, fatos, acontecimentos, são entendidos como convites do rei a se expressarem no lar difícil, na convivência tensa, no trabalho, no lazer, sozinho ou convívio social, onde cada detalhe sinaliza como instantes de treino que culminarão nas conquistas, na libertação e posse de nós mesmos.