NILZA TERESA ROTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
O processo educativo, sem dúvida, é o processo individual que ocorre em um contexto coletivo sendo por ele influenciado enquanto o influencia. Assim, à medida em que os povos, como coletividade, evoluem refletindo o progresso da maioria de seus membros, muitos daqueles, que permaneceram à margem do processo, podem por força desta influência, serem sensibilizados modificando-se em direção aos ideais diferenciados que passaram a se constituir a maneira de ser e viver daquele grupo.
Assim podemos entender (entretanto não justificar) a discriminação sofrida por aqueles que se adiantaram ao coletivo, pois tornam-se extremamente incômodos para os que ainda não querem ou não podem transformar seus valores ético-morais.
Viajando pela Espanha, visitando suas sinagogas, mesquitas e igrejas e escutando o relato dos guias turísticos entendi um pouco melhor o processo de intolerância religiosa, que se torna evidente na história daquele país, uma vez que teve e ainda tem forte aderência ao catolicismo, bem como teve uma expressiva comunidade judaica e por ter sido ele invadido por muçulmanos durante aproximadamente 800 anos e, quando da tomada de territórios, o processo de intolerância ficava evidente; há personalidades com diferentes crenças sacrificadas com as mais diferente formas de crueldade; há templos transfigurados e até mesmo travestidos para que o vencido pudesse sentir a humilhação de não mais poder exercer seu culto a Deus.
Dentro deste contexto refleti sobre o atavismo (maneiras de entender que muito nos influenciou em experiências passadas e que, embora agora entendo inadequadas, somos ainda fortemente por elas influenciados), que ainda temos expresso na dificuldade de sermos tolerantes frente àqueles que pensam de forma diferente da nossa e porque ainda hoje a domesticação é confundida com educação.
Na primeira o princípio é colocado como certo sem que haja espaço para refletir sobre ele, deve ser acatado porque "alguma autoridade" o preconizou ou porque é assim que aquele domina quer, evidenciado na história espanhola quando se impôs a todos, independente de sua cultura, que havia uma única forma de louvar e cultuar a Deus, ou quando ainda hoje respondemos aos filhos dizemos "porque eu quero assim", ou quando o padrão é estabelecido por um grupo que se intitula defensor "da verdade". Em todos estes momentos não se valoriza que as modificações transformadoras, portanto educativas que só podem ocorrer quando o sujeito da ação pode dela se inteirar, elaborar racional e emocionalmente seu conteúdo e daí se tornar receptivo a esta transformação. Esse é o processo educativo.
Kardec soube muito bem entender e vivenciar esse real significado do processo educativo, pois traria ensinamentos revolucionários para sua época, imbuído da plena certeza de veracidade do que expunha em sua obra, entretanto sua conduta era de extremo respeito para com todos, mesmo quando tinha, por mister de sua missão, refutar críticas e calúnias. A Tolerância então aparece como um dos elementos da tríade que compunha a sua bandeira, conforme aparece no primeiro número da Revista Espírita (maio de 1869) escrita após seu desencarne.
Sabia o Codificador que sem a necessária tolerância seria impossível educar, uma vez que esta é a virtude que faculta ao educador respeitar o tempo de cada aprendiz.
Ao contrário do que muitos acreditam tolerância não é procedimento passivo onde tudo é relevado e aceito. "Tolerar: suportar opiniões contrárias" (Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa). Se não for assim como poderá se estabelecer o diálogo, a troca de idéias? Se não damos espaço para o outro se expressar, como saber à respeito de suas opiniões e como angariar respeito no momento de expressarmos nossa própria opinião?
Um dos mitos mais freqüentes é que aceitar o outro de alguma forma significa incorporar seu repertório de procedimentos em nosso próprio repertório. Aceitar o outro não quer dizer que concordamos com tudo o que o outro faz ou diz, é sobretudo entender que seu processo de elaboração chegou até aquele ponto e que se realmente pretendemos ajudá-lo é necessário ser gentil, atento e sobretudo disponível e paciencioso.
André Luiz (Opinião Espírita, cap. 7) nos ensina que o espírita deve ser "Tolerante, mas não indiferente, aplaudindo o erro deliberado em benefício da sombra"; "Paciente, mas não irresponsável, adotando negligência em nome da gentileza". Portanto se já sentimos os benefícios da compreensão espírita e acalentamos o desejo que outros dela se beneficiem e nos propomos a ser os multiplicadores de seus princípios esclarecedores e consoladores, não nos esqueçamos que todo processo carece da chama da tolerância sem o que, ao invés de educativo, pode assumir o traço da domesticação.