A decisão de viver ou morrer

AMILCAR DEL CHIARO FILHO
de Guarulhos, SP

É interessante como no início e no final da nossa existência terrena somos frágeis, vulneráveis, e não raro, alguns querem decidir se devemos ou não viver.

O maravilhoso ato do início da vida, quando um óvulo é fecundado por um espermatozóide, uma sucessão de pequenos milagres, no seu significado da antigüidade, que se traduz por coisa maravilhosa de se ver, se desencadeia, para que o espírito tenha um corpo físico apropriado às suas necessidades evolutivas.

Entretanto, este milagre é recebido com tristeza, medo, decepção por muitas pessoas. Este milagre da reprodução que caminha dia a dia na formação de um novo organismo, não raro causa revolta, e por motivos diversos, que vai do econômico à vergonha, torna aquele ser indesejado e alguém decide pelo seu extermínio. Não poucas vezes aquele botão de carne, que prenuncia a beleza da vida, é violentado, despetalando-se em lágrimas cristalizadas na dor, decepção, angústia.

O carrasco, tendo a seu favor todas as vantagens, impiedosamente ceifa aquela vida, indiferente ao grito silencioso daquele pequeno ser que clama pela oportunidade de nascer.

Por outro lado, com o passar dos anos o corpo que nasceu louçã, envelhece. O tempo, depois de várias décadas enrigece as juntas, enruga a pele, diminue a acuidade visual e auditiva, e não poucas vezes a mente se fragiliza, e as idéias e ações se tornam caducas, os esfincteres, especialmente o urinário, relaxam e o drama está formado. Além disso, achaques próprios da velhice se sucedem. Outras vezes são doenças graves e alguém pensa na eutanásia como solução. Mata-se o feto por ser indesejado, mata-se o velho ou o enfermo desesperançado por comodismo. Entretanto ninguém perguntou ao velho ou à criança se eles querem viver ou morrer.

Aborto profilático, aborto eugênico, aborto social, por vergonha, medo, desespero e a vida se esvai, porque o homem brinca de ser Deus e decide pela qualidade de vida, de uma existência que não lhe pertence, mesmo quando gerada no seu ventre.

Quem pode decidir se um ser humano deve ou não viver? Como seria tudo mais fácil se aprendêssemos a amar a vida e o próximo, se a vivêssemos com intensidade, vibrantes de amor, permitindo que todos vivam, e que tenham sempre o necessário para viver com dignidade. Não falamos numa divisão forçada dos bens materiais de quem tem mais, e sim que, pela educação moral, cada um retenha para si somente aquilo que necessita para viver.