MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
De Ribeirão Preto, SP
"Se a dor é, como foi dito, a grande educadora dos homens, o amor ainda pode ser a semente miraculosa, sempre capaz de germinar, crescer e florir no coração de algum menino."
Jean Jacques Rousseau, nascido na Suíça em 1712 e desencarnado na França em 1778, representou um marco na história do pensamento do mundo, influenciando grandes movimentos de transformação, mormente ligados à Educação e à valorização da infância. Ele publicou, em 1762, um livro chamado Emílio ou da Educação, que representou uma revolução na pedagogia, sendo até hoje considerado uma leitura fundamental para qualquer educador. Este é um livro fácil de se encontrar nas livrarias e sua leitura é fascinante, principalmente quando lembramos que foi escrito há 235 anos.
Mais interessante ainda é poder ler uma mensagem de Rousseau, escrita do lado de lá, em pleno séc. XX, sobre seu próprio trabalho. Isto ele fez por ocasião dos preparativos mundiais da comemoração do Ano Internacional da Criança, em 1979. Rousseau enviou uma mensagem, psicografada pelo médium Hernani T. de Santana em 9/11/78 na Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro. Aqui está ela:
"Digo-lhes, meus amigos, que, mesmo quando o agricultor possa merecer reparos, se plantar alguma boa semente, ela germinará e produzirá bons frutos.
De mim pode-se dizer que errei muito como homem, e até acusar-me de haver pecado, quase sempre por excesso, nos meus impulsos desbordados, nas explosões dos meus sentimentos sem freio, dos meus entusiasmos sem medidas e das minhas atitudes quase sempre nada ortodoxas. Fui, porém, sincero e continuo a encarar e dizer tudo como tudo me parece, com a honestidade possível.
Certo, tive de retificar muitos dos meus conceitos e de reciclar sem número de convicções que dantes me pareciam claras e firmes. Algo, porém, jamais me trouxe senão alegrias imensas, em que pesem as insuficiências e até, paradoxalmente, os excessos que são visíveis em tudo quanto empreendi.
Refiro-me ao amor pelas crianças e ao meu trabalho pelas novas gerações.
Não importa que se me lancem até hoje em rosto coisas e fatos do meu humano proceder, que nada têm com as motivações maiores e com as realidades mais profundas de minha alma e de minha tarefa.
Emílio gerou um mundo, despertou interesse de grandes almas, inspirou espíritos de escol e desatou a revolução promissora e feliz que abriu no mundo a era da Escola Nova.
Com essa autoridade, com esse título de quem de fato amou e quis servir, apresento-me agora, diante de vós, nesta Augusta Casa, para, na posição de companheiro de serviço, dizer-vos que tudo o que vindes fazendo repercute nos Céus e vai multiplicar bênçãos fecundas no grande amanhã da Terra.
Claro que falo do vosso trabalho educacional, a prol da infância - essa gleba espiritual de características divinas, que não se pode nem deve jamais perder a prioridade absoluta em vossas cogitações e em vossos esforços construtivos.
Vejo agora que, mesmo quando errei, acabei acertando no essencial, sob a ação do pensamento celeste, porque mesmo os maus e os pervertidos renascem na face do planeta inconscientes da sua maldade e da sua perversão, em condições de serem reeducados e recambiados ao bem.
Ainda que todos os sacrifícios e todos os programas de redenção humana falhassem na obra cristã de salvação dos seres humanos, restaria a oportunidade de tudo reconstruir a partir da criança - as sementes divinas da Humanidade renascente.
Se a dor é, como foi dito, a grande educadora dos homens, o amor ainda pode ser a semente miraculosa, sempre capaz de germinar, crescer e florir no coração de algum menino.
Espero que jamais poupeis nenhum esforço no desenvolvimento do vosso sublime trabalho no campo da Infância e Juventude. Tereis sempre, nessa seara abençoada, a garantia de uma admirável colheita futura.
O mundo se prepara para celebrar, em 1979, o Ano Internacional da Criança. Seria bom que tudo quanto vai ser dito e feito resultasse, pelo menos, um novo sentido de respeito e apelo o senhor Jesus, que pediu aos terrenos que deixassem ir a Ele os pequeninos.
Em verdade, isso seria o bastante, porque são os poderes maléficos do mundo - é o egoísmo, é a insânia, é a maldade dos homens - que afastam as crianças do Supremo Mestre, do Divino Educador, do Celeste Amigo. Dão-lhes armas, dão-lhes motivação para o mal, dão-lhes falsas noções de verdade e do Direito e lhes tiram o pão do Céu, a capacidade de aspirar à luz, a força de conquistar a Graça, a Felicidade e a Salvação.
Cegos que guiam cegos, eles, os geradores da desgraça, cometem contra as crianças o pecado contra o Espírito. Vós, porém, fareis o contrário, e o Mestre Excelso descerá do seu trono de luzes alcandoradas, para receber de vossas mãos generosas os pequeninos que conseguirdes preservar para sublime porvir do mundo.
Vosso servo e amigo certo
Jean Jacques Rousseau"
Numa próxima oportunidade, estaremos comentando alguns trechos desta carta, que por si só, já vale pela sua beleza e estímulo no trabalho da Educação Infantil.