NILZA TEREZA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
É o hipnótico bichinho eletrônico que temos visto nas mãos de pessoas de todas as idades, que se ocupam nas horas adequadas, e nas inadequadas também, em suprir suas exigências de comida, sono e até afeto, acionando botões inseridos no misto de chaveiro e brinquedo.
De fabricação japonesa este "artefato", que utiliza chips para seu funcionamento, já coloca em risco, naquele país, a produção de artigos eletrodomésticos que também utilizam chips, pois a fabricação destes não tem sido suficiente para cobrir as duas demandas.
Não é só este transtorno que o bicho virtual está provocando; recentemente pudemos assistir uma matéria em canal de televisão que mostrava uma escola na Bahia onde se proibiu aos alunos entrarem na mesma com seu brinquedo, pois não se prestava mais atenção nas aulas e atividades escolares, pelas freqüentes interrupções feitas a fim de se atender aos alarmes que o bicho eletrônico emitia para que suas exigências fossem atendidas.
Mais espantoso que isso foram as entrevistas dadas por alguns pais que permaneciam com a guarda do "artefato" cumprindo-lhes as exigências na ausência de seus filhos, inclusive interrompendo atividades profissionais e escondendo-se em banheiros pelo receio do ridículo.
Trocando idéia com alguns pais perguntamos como eles viam tais bichos, a grande maioria posiciona-se contrário, mas não têm coragem de negar aos filhos pois "toda criança tem". Essa questão tem reaparecido nos debates educacionais: a necessidade de colocar limites quando estamos convictos que esses limites são educativos. não pode se constituir em excelente elemento de reflexão quando discutido com trocas de idéias nas duas direções; entretanto é trabalhoso, exige tempo e energia que nem todos se propõem a consumir.
"É só um brinquedo, daqui a pouco a moda passa", afirmam alguns, mas a vivência fica, podemos completar. Mas que vivência é essa? A de reduzir o relacionamento humano a sinais eletrônicos que se processam apertando botões, num caminho de mão única que nada dá em retribuição, a não ser um sorriso, também eletrônico. É muito triste ver aquela propaganda de seguro na qual a criança "conversa" com seu "bicho" que retrata uma solidão constrangedora e um receio intenso da perda se não for capaz de "fazer a coisa certa" ou atender integralmente a exigência de seu "bicho". É sucumbir a tirania e ao egoísmo do outro para que perdas não ocorram.
Em toda a obra da codificação, Kardec enfatiza a importância do relacionamento humano para o desenvolvimento moral do espírito, em O Céu e o Inferno (o céu - item 8) diz: "A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoismo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a fraqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso, tem por móvel, por alvo e estímulo, as relações do homem com seu semelhantes. (...) A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades."
Usando este referencial para nossa análise e reflexão perguntamos o quanto este "brinquedo" está, com suas sucessivas e inesperadas solicitações, interrompendo relacionamentos de amigos, de pais com filhos, de professores com seus alunos e muitos outros. Quantas leituras edificantes foram interrompidas, quantos estudos foram fragmentados, quantos cultos no lar tiveram sua seqüência perturbada, dentre outras atividades importantes ao desenvolvimento da criança.
Não pretendemos que o brinquedo seja condenado, mas esperamos que essas reflexões possam ajudar a análise desta e de outras atividades no cotidiano da vida da criança.
Em tempo, o artigo estava concluído quando fomos receber o benefício do passe em uma casa espírita. Conosco entrou na cabine de passe um menino de aproximadamente 8 anos com seu "bichinho" pendurado no pescoço e não é que no momento do passe soou o alarme..., o restante o leitor pode concluir.