O essencial

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Sede vós logo perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito" - Jesus

Devemos entender, por essas palavras, a perfeição relativa de que a humanidade é suscetível, e que mais pode aproximá-la da Divindade - esclarece Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII. Em que consiste essa perfeição relativa? O mesmo Kardec, citando Jesus, afirma: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam". Aplicar essas normas em nossa vida prática parece algo muito difícil, quase impraticável. Mas se não fosse possível sua aplicação, Jesus não as teria feito. Se Ele nos deu tais ensinamentos é porque temos condições de utilizá-los. Se não conseguimos, ainda, cumpri-los integralmente no atual estágio evolutivo, quando evoluirmos um pouco mais, iremos, paulatinamente, reunindo condições para aplicar, em nossa vida diária, as recomendações do divino Mestre.

Entretanto, gostaríamos de abordar um outro aspecto da questão. Algumas pessoas consideram desnecessário, ou até mesmo inconveniente, estarmos comentando os ensinos cristãos, no que tange à moral, à observância das recomendações de Jesus. Entendem ser perda de tempo falar destas questões. Querem receber novas revelações, entrar na posse de conhecimentos, segundo entendem, mais aprofundados, enfim querem novidades. Livros com conteúdos profundos e edificantes permanecem nas prateleiras, ainda não estudados, ou sequer lidos, e as pessoas querem novas obras, que tragam assuntos inéditos, algo ainda não conhecido, sendo que esse conjunto de ensinamentos de que já dispomos ainda não foi digerido, compreendido, e muito menos aplicado.

Allan Kardec, na Revista Espírita de agosto de 1865, já dizia: "(...) é incontestável que o Espiritismo ainda tem muito a nos ensinar", e mais adiante "mas em falta de novas descobertas, os homens de ciência nada terão que fazer? ". "Dá-se o mesmo em relação ao Espiritismo. Os adeptos de tal modo aproveitaram o que ele até hoje ensinou, que mais nada tenham a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; moderaram tanto as suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim são tão perfeitos que de agora em diante seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral? Essa pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam dessas lições elementares, que alguns consideram fastidiosas e pueris. É, entretanto, só com o auxílio dessas instruções, se as aproveitarem, que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior.

Refletimos um pouco sobre isso. O aluno, na escola, só é promovido à série seguinte, após demonstrar já ter assimilado os ensinos do patamar em que se encontra. Em matéria de evolução espiritual também é assim. Só conseguimos entrar na posse de novos conhecimentos, depois de aplicar, pelo menos uma boa parte, os ensinos já recebidos. Compreender o mecanismo das leis divinas é algo tão importante, proporciona tantos benefícios, que o candidato a esse conhecimento precisa demonstrar algum merecimento, o que é feito pela vivência daquilo que já lhe foi dado saber. Do contrário, seria "atirar pérolas aos porcos...".

Na revista citada, Kardec afirma: "O Espiritismo tende para a regeneração da humanidade; isto é um fato adquirido. Ora, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral, daí resulta que seu objetivo essencial, providencial: é o melhoramento de cada um. Os mistérios que nos pode revelar são o acessório, porque nos abrem o santuário de todos os conhecimentos. Não estaríamos mais adiantados para o nosso estado futuro, se não formos melhores. Para admitir ao banquete da suprema felicidade, Deus não pergunta o que se sabe, nem o que possui, mas o que se vale e o bem que terá feito. É, pois, no seu melhoramento individual que todo Espírita sincero deve trabalhar, antes de tudo. Só aquele que dominou suas más inclinações aproveitou realmente o Espiritismo e receberá a sua recompensa. É por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: Não preciso de mais. Só Deus sabe quando aqueles serão inúteis e só a Ele cabe dirigir o ensino de Seus mensageiros e de o proporcionar ao nosso adiantamento".

Desculpe-nos, o leitor, a transcrição longa, mas muitos não possuem a revista espírita, e achamos oportuno lembrar as considerações de Kardec. Muitos acham que já sabem tudo. Julgam que não precisam estudar mais, não precisam ouvir outros companheiros, etc.. Será que já nos transformamos, incorporando os ensinos ao nosso modo de ser? "Só um orgulho insensato pode dizer: Não preciso de mais", considera Kardec. Outro detalhe importante. Em vez de procurarmos a Doutrina só para receber (receber passes, receber solução para nossos problemas), lembrar a advertência do Codificador: O objetivo essencial, providencial, do Espiritismo, é o melhoramento de cada um. Os mistérios (fenômenos mediúnicos) são o acessório, mas não estaremos mais adiantados para o nosso estado futuro se não formos melhores.