Desenvolvimento humano
O quebra-cabeça coletivo
(de Rousseau aos dias de hoje)
MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
No jornal VERDADE E LUZ n.° 140 de setembro passado publicamos na íntegra uma mensagem de Jean Jacques Rousseau, psicografada por Hernani T. de Santana em 9/11/78 na Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro.
Nesta ele faz um comentário sobre o valor das obras produzidas por ele quando esteve reencarnado na França, entre 1712 e 1778.
Alguns aspectos nos chamaram bastante a atenção, visto que a influência de Rousseau para os educadores foi, sem dúvida alguma, indiscutível.
Por que isto interessaria a nós, educadores espíritas?
Uma das afirmações de Rousseau dizia respeito à pureza e natureza essencialmente boa das crianças ao nascer. Esta era a linha mestra que guiou grande parte da sua obra no que diz respeito à infância.
À primeira vista tal afirmação parece ser discordante da Doutrina Espírita, pois sabemos que as crianças são espíritos com muitas experiências anteriores, e com um caráter já em construção há muito tempo. É neste ponto que volto à fala de Rousseau nesta sua mensagem psicografada:
"Vejo agora que, mesmo quando errei, acabei acertando no essencial, sob a ação do pensamento celeste, porque mesmo os maus e os pervertidos renascem na face do planeta inconscientes da sua maldade e da sua perversão, em condições de serem reeducados e recambiados ao bem."
Para os espíritas esta idéia parece bastante familiar. Buscando em Kardec explicações para tal tema, encontramos:
"Encarnando-se com o fim de se aperfeiçoar, o Espírito é mais acessível, durante esse tempo (infância), às impressões que recebe e que podem ajudar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir os que estão encarregados de sua educação. (...)
Não conheceis o mistério que as crianças ocultam em sua inocência; não sabeis o que elas são, nem o que foram, nem o que serão; e no entanto as amais e acariciais como se fossem uma parte de vós mesmos, de tal maneira que o amor de uma mãe por seus filhos é reputado como o maior amor que um ser possa ter por outros seres. De onde vêm essa doce afeição, essa terna complacência que até mesmo os estranhos experimentam por uma criança? Vós sabeis? Não; e é isso que eu vou explicar.
As crianças são os seres que Deus envia a novas existências, e para que não possam acusá-lo de demasiada severidade, dá-lhes todas as aparências de inocência. Mesmo numa criança de natureza má, suas faltas são cobertas pela não consciência dos atos. Esta inocência não é uma superioridade real, em relação ao que elas eram antes; não, é apenas a imagem do que elas deveriam ser, e se não o são, é sobre elas somente que recai a culpa.
Mas não é somente por elas que Deus lhes dá esse aspecto, é também e sobretudo por seus pais, cujo amor é necessário à fragilidade infantil. E esse amor seria extraordinariamente enfraquecido pela presença de um caráter impertinente e acerbo, enquanto que, supondo os filhos bons e ternos, dão-lhes toda a afeição e os envolvem nos mais delicados cuidados."¹
Os homens das ciências têm buscado, em todas as épocas da humanidade, entender este processo de desenvolvimento pelo qual passamos. Esta procura funciona como um grande jogo de quebra-cabeça, que faz pensar, relacionar fatos e tentar entender as implicações de cada acontecimento. Todos estamos sujeito a esse trabalho.
Kardec trata desta questão no livro "A Gênese", quando afirma que:
"...tal ensinamento (da revelação espírita) não constitui privilégio de nenhum indivíduo, mas é proporcionado a todo mundo da mesma forma; pelo fato de que, tanto aqueles que o transmitem como os que recebem não serem seres passivos, dispensados do trabalho de observação e pesquisa; por não renunciarem ao seu próprio julgamento e livre arbítrio; porque o exame não lhes é interdito, mas ao contrário recomendado; enfim, a doutrina não foi ditada completa nem imposta à crença cega; porque ela é deduzida do trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos pelas instruções que eles dão, instruções estas que o homem estuda, compara e das quais tira ele mesmo as suas conclusões e aplicações."²
Eu diria que isso se aplica ao conhecimento de tudo no nosso Universo. Com certeza alguém na espiritualidade sabe, com detalhes, qual o processo do desenvolvimento humano, da aprendizagem, da constituição do sujeito, etc. Mas isto não nos é dado de forma completa e pronta. Temos que percorrer um longo caminho para chegar a esse entendimento, e isso faz parte da própria construção das características do ser humano particular que somos, cada um de nós, e nos dá condições específicas de crescimento. Não somos seres passivos, não é o que disse Kardec?
Assim, muitos estudiosos, como Rousseau, dedicaram-se e tem se dedicado com empenho ao esclarecimento dos fenômenos que nos cercam. O testemunho de Rousseau vem justamente mostrar-nos isso. Primeiro reconhece o esforço, as dificuldades e os erros cometidos. Segundo, dá ênfase ao fato de que, mesmo neste trabalho que cabe ao homem, a espiritualidade tem sempre estado presente, possibilitando condições e apoio ao desenvolvimento das suas próprias idéias.
Da mesma forma que Rousseau possibilitou, com suas idéias, um grande salto no que diz respeito ao desenvolvimento da Educação Infantil no mundo - vamos nos lembrar que até então a criança era considerada apenas um adulto em miniatura, que não merecia nenhuma atenção especial dos adultos - outros estudiosos vieram e possibilitaram mais avanços no conhecimento científico sobre a infância, ainda que com base em erros e acertos.
Hoje já comprovamos, cientificamente, grande parte daquilo trazido por Kardec. Podemos citar Piaget, que demonstra o processo de construção do conhecimento da criança a partir das estruturas que já tem e que vai transformando; podemos citar Vygotsky, que destaca o papel fundamental das relações sociais na formação das funções psicológicas superiores; e podemos ainda citar Wallon, que nos mostra que a inépcia do bebê desperta nos adultos a postura de proteção e cuidado. Todos estes - e muitos outros estudos não citados aqui - tem vindo destrinchar, aprofundar, esclarecer como cada etapa deste processo se dá.
Talvez alcancemos algum dia um conhecimento maior sobre todas estas questões que hoje nos desafiam. Então teremos a certeza de que a contribuição de cada um destes estudiosos foi preciosa para isso. O estudo de tudo o que já foi elaborado deve ser feito com atenção e carinho, para que possamos continuar crescendo neste sentido.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, perg. 383, 385.
2. Allan Kardec, A Gênese, Cap. I, item 13.