Religião e Magia

AMILCAR DEL CHIARO FILHO
de Guarulhos, SP

Avisados por uma amiga ouvimos numa rádio de São Paulo, o final de uma entrevista de um sociólogo que está se doutorando pela USP - Universidade de São Paulo, que fez uma pesquisa sobre as religiões pentecostais, e de tabela abordou outras religiões, inclusive o que ele chamou de Kardecismo.

Apesar da insistência dos espíritas mais esclarecidos para que se utilize unicamente a denominação de Espiritismo, fica evidente que o povo simples e os intelectuais, inclusive os sociólogos, precisam de uma palavra para designar uma doutrina que não utiliza prática afro-católica brasileira. O povo utiliza a denominação "mesa branca", e os intelectuais utilizam o verbete "Kardecismo".

O sociólogo, em relação ao Espiritismo, criticou o fato de Chico Xavier ter influído no julgamento de uma pessoa acusada de ter assassinada outra, inocentando-a, e comentou que se torna cômodo, tanto no Espiritismo, como no Candomblé e igrejas pentecostais, jogar a culpa de erros, agressões, assassinatos e tudo o mais, no demônio ou espíritos.

O sociólogo declarou enfaticamente ser ateu, e que as pessoas se ligam à religião por causa do imponderável, da magia da religião, para sentir-se protegida, amparada. Disse ele, que a finalidade das religiões é esta, e da sua eficácia depende o progresso da religião. Ele afirmou que mesmo pessoas de classe média alta, que tem acesso a psicólogos e analistas, também procuram as religiões para se protegerem.

Chegamos a pensar em telefonar para a emissora de rádio, mas desistimos pelo fato de ter que fazer a pergunta ou o comentário para uma atendente, que passaria para a apresentadora. Além do tempo do programa já estar terminando, a pergunta sofria uma reelaboração pela produção, logicamente para facilitar a comunicação.

Sentimos honestidade no sociólogo dentro dos seus conhecimentos. Defendemos o seu direito de ser ateu, mas impressionou-nos a tese de que as pessoas procuram as religiões pela sua magia, pelo seu imponderável. Na verdade é uma constatação daquilo que temos chamado de "religião de resultados", que muitos espíritas e médiuns tem se esforçado para colocar o Espiritismo.

Temos defendido o pensamento que o Espiritismo é muito mais do que fenômeno mediúnico, do que curas, passes ou soluções de problemas. Embora o Espiritismo possa atuar nessas áreas, seu objetivo maior é o esclarecimento, a iluminação do espírito imortal. Para isto é preciso intensificar o estudo, criar escolas de espiritismo nos centros, mas não com a forma rígida das escolas tradicionais, mas com bases dinâmicas.

Ficamos tristes em saber que o sentido das religiões para muitas pessoas, é a dependência, e a procura de situação mágica para resolver seus problemas materiais. Gostaríamos muito de que o Espiritismo fosse compreendido como a nossa procura por Deus, não como a dependência ou barganha, mas como realização, satisfação de interagir com o universo.

Quanto o fato do pesquisador dizer-se ateu e não acreditar na continuidade da vida após a morte, não nos preocupa, porque um dia ele vai morrer como todas as pessoas, e vai verificar que a vida continua.