NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
Interessante e oportuno o artigo de nossa companheira Marlene, no VERDADE E LUZ de janeiro p.p., no qual faz uma reflexão, à luz da doutrina, das questões ético morais que envolve a mídia e de como o respeito às questões pessoais têm sido tratadas, de como os atores e atrizes têm exposto a sua vida privada ao público, sobretudo quando esse público é constituído de crianças e adolescentes que, ainda em processo de maturação psicobiológica, social e espiritual, não têm o discernimento necessário para reflexões que envolvam a análise de conseqüências advindas de procedimentos e condutas que repercutam em outras pessoas, tal como a concepção de uma criança fora de uma estrutura social de apoio como é a família constituída.
Todos esses aspectos remetem a uma reflexão igualmente importante que é o aspecto do que é público e do que é privado na nossa vida pessoal e familiar e de como esses aspectos têm sido transmitidos às novas gerações em nossa sociedade.
Muito se tem escrito à respeito da vida privada nestes últimos tempos, a cada dia podemos encontrar nas livrarias novos títulos a esse respeito, parece que virou assunto da moda a análise histórica desse tema, entretanto nos preocupamos com esse aspecto no espaço cotidiano de nossa própria vida.
Os órgãos federais que regulamentam o ensino em nosso país, publicaram no ano passado um documento sobre educação sexual nas escolas de primeiro e segundo graus preconizando dois momentos para abordagem desta temática, no primeiro não haveria um conteúdo específico, mas as questões da sexualidade percorreriam de maneira transversal todas as matérias e/ou atividades do cotidiano da vida escolar desde a pré-escola até a quinta série sendo que o conceito de público e privado seria abordado desde a pré-escola, com uma complexidade pertinente a cada etapa do desenvolvimento infantil. Sentimos como fantástica esta idéia uma vez que assim vamos cada vez mais compreendendo que as coisas que dizem respeito a nossa intimidade é assunto privado e que seria, pelo menos, educado não estarmos impingindo essa intimidade aos outros.
Os professores têm oportunidade de observar jovens e também muitas vezes adultos em troca de "afagos" que se tornam constrangedores para as pessoas que estão presentes no mesmo ambiente, longe de nós estarmos preconizando a volta dos tempos vitorianos quando filhos jamais presenciavam troca de carinho e aproximação física de seus pais ou outros adultos, mas argumentamos que determinadas aproximações físicas dizem respeito a intimidade das pessoas envolvidas e que portanto é assunto de sua vida privada e como diz a própria palavra é privada ou seja particular.
Certa vez conversando com um grupo de adolescentes sobre a despreocupação com que eles trocavam "afagos" em público e de como isso podia ser constrangedor para outras pessoas, um deles mais "avançado e sabido" nos respondeu que a ele pouco importava o que os outros podiam sentir, que os "incomodados que se mudassem".
Naquele momento pudemos compreender com toda sua amplitude a resposta que os espíritos deram a Kardec na questão 785: o maior obstáculo ao progresso são o orgulho e o egoísmo. Assim, quando não respeitamos que o espaço público não é nossa propriedade mas é um espaço compartilhado por diferentes pessoas com diferentes experiências pessoais e diferentes sistemas de valores, somos egoístas pois não percebemos que nosso direito termina onde começa o direito do outro.
A medida que esta compreensão for se consolidando em termos de vivência e não como discurso teórico, espontaneamente vamos transferindo os aspectos íntimos de nossa vida para nosso espaço privado pois consolidou-se em nós mais uma vitória sobre o nosso milenar egoísmo de que primeiro eu e depois os outros. Não mais "eu pouco estou me lixando com os outros" como tão freqüentemente ouvimos da boca de pessoas de todas as faixas etárias.
Gostaríamos de concluir lembrando que a formação do conceito de privado inicia-se desde a primeira infância quando treinamos nossas crianças para o controle de esfincteres. Sugerimos seja feito em ambiente próprio e que nada tem de bonitinho uma criança andando com seu peniquinho pela casa toda, lembrando como nos ensina o psiquiatra Içami Tiba que limite na medida certa é bom e faz bem à saúde.