MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
Perguntado a um Espírito, numa reunião da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em novembro de 1860, sobre a influência da mulher no século dezenove, este respondeu: "A influência da mulher no século dezenove! Acreditais que ela tenha esperado esta época para vos trazer à trela, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes rebaixá-la, foi porque a temíeis; se tentastes abafar sua inteligência, foi porque temestes sua influência. Só ao seu coração não pudestes opor barreiras. E como o coração é o presente que Deus lhe deu em particular, continuou senhor e soberano. Mas eis que a mulher se faz também borboleta; ela quer sair do seu casulo; quer reconquistar seus direitos, que são divinos; como aquela, lança-se na atmosfera e dir-se-ia que reencontra o clima de seu justo valor. Não penseis que eu as queira transformar em eruditas, letradas, poetisas. Não. Mas eu quero, aqui se quer, no mundo em que habito, que aquela que deve elevar a Humanidade seja digna de seu papel; que aquela que deve formar os homens comece a se conhecer a si própria e, para lhes dar desde tenra idade o amor do belo, do grande, do justo, é necessário que ela possua esse amor num grau superior, é preciso que o compreenda. Se o agente educador por excelência for reduzido ao estado de nulidade, a sociedade vacilará. É o que deveis compreender no século dezenove." (grifos meus) Comunicação do Espírito de Alfred de Musset (1810-1857, poeta e romancista francês).
Estamos quase às vésperas do século XXI, num mês em que se comemora o dia internacional da mulher. Neste contexto, esta comunicação nos parece bastante curiosa! Destaca-se aqui a luta da mulher - de cada mulher - na sua atividade, no seu cotidiano, para a obtenção de um espaço para seu crescimento, para sua evolução. A busca de novos caminhos profissionais para a mulher hoje toma conta de quase todas as famílias, em função também das novas necessidades que a cada dia surgem na nossa civilização. Ainda assim, as responsabilidades com os filhos, principalmente, não foram esquecidas... As duplas jornadas de trabalho pelas quais as mulheres/mães de hoje passam é do conhecimento de todos. As mulheres "cresceram".... Os homens também se modificaram em função deste novo mundo/século que agora habitamos.
Estamos tentando acertar já há algum tempo... A Terra passa por momentos de desequilíbrios, a evolução não é em geral harmônica, mas fruto de rupturas e conflitos intensos dos quais participamos.
Buscamos um modelo de mulher que não sabemos ainda qual é. Queremos ser totalmente independente, mas o mesmo tempo sentimos que precisamos de alguém... Queremos que sejamos iguais aos homens nas relações sociais e profissionais, mas ao mesmo tempo esperamos algum tipo especial de atenção... Queremos que nossos maridos dividam conosco as tarefas de casa, mas ao mesmo tempo nos submetemos a servi-los em alguns aspectos... Como mãe, também os impasses: na mesma hora em que queremos o melhor para nossos filhos, nos pegamos usando modelos dos nossos próprios pais que antes tanto criticávamos... Ou ainda, queremos nos afastar tanto daqueles modelos que acabamos caindo no outro extremo (por exemplo, se tinha muita raiva de não poder chegar em casa depois das dez horas agora deixo meus filhos chegarem à hora que bem entenderem...)
Ser mulher e ser mãe se colocam como desafios cotidianos, a serem enfrentados a cada dia. Vivemos buscando a síntese de momentos históricos em que os extremos predominavam. Numa época a mulher não tinha voz, não tinha vontades e acreditavam que sequer tinha alma. Em outro momento, o seu corpo é considerado só dela, ela faz o que bem entende, não deve nada a ninguém. O desafio é encontrar o meio termo, o ponto certo, o equilíbrio momentâneo...
Sabemos que as base morais verdadeiras não se modificaram. O que mudou foram as molduras de tais valores. Por exemplo, o respeito dos filhos aos pais. O respeito verdadeiro ainda é o que se procura, mas não mais aquele medo disfarçado de respeito. Agora um respeito baseado em diálogo, em escutar e poder dialogar. Precisamos saber entender tais bases morais.
A grande verdade continua: precisamos conhecer a nós mesmas, precisamos exercitar o amor maior que possa existir dentro de nós. Este é o caminho para encontrar as leis morais. Nós as temos inscritas em nós mesmas, na nossa consciência. Precisamos estar atentas a elas.
Outra grande colocação é a mulher sendo considerada como "o agente educador por excelência" e a importância de, como tal, não ser "reduzido ao estado de nulidade". Convivemos diariamente com esta tarefa, estamos educando desde o nascimento dos nossos filhos, em cada momento. Quando lhe damos o leite, quando conversamos, quando chamamos a atenção, quando o envolvemos em situação de dor ou tristeza... Isto nos faz ser esse agente, embora nem sempre tenhamos tal consciência. Daí a importância de sabermos quem somos, o que queremos, que somos alguém e não sombra de outros... Isto se refletirá na nossa relação com nossos filhos...
O texto da comunicação citada acima retrata um momento de transição do século dezoito para o dezenove. E o Espírito enfatiza: "É o que deveis compreender no século dezenove". O século vinte representou uma reviravolta de valores e oportunidades para reflexão sobre tudo isso. Vamos agora em busca do que precisamos compreender no século XXI !
BIBLIOGRAFIA:
Revista Espírita ano III, N° 12, dezembro de 1860