O trabalhador e as dificuldades

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Aproxima-se o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da humanidade. Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade!" (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XX, item 5)

Temos ouvido, em reuniões da nossa USE Intermunicipal de Ribeirão Preto, e em outras oportunidades, o relato de companheiros, informando a existência de dificuldades na condução das atividades espíritas, nas casas em que trabalham. Falta de colaboração, problemas de relacionamento, desconfianças, maledicências, etc.. Em alguns casos, os companheiros se mostram decepcionados, de ânimo abatido, sem entusiasmo para continuar o trabalho.

Examinemos o assunto à luz de alguns textos constantes do capítulo XX de O Evangelho Segundo o Espiritismo. O texto citado de início é do Espírito de Verdade, e está no item 5, do capítulo citado. Ditoso, ou seja, feliz o que tem a oportunidade de trabalhar no campo do Senhor, isto é, dedicar o seu tempo, seus conhecimentos, sua energia, em favor de uma causa nobre, que vise o esclarecimento, o progresso, e, conseqüentemente, o bem estar dos semelhantes. Feliz o que tem a oportunidade de trabalhar. O trabalho deve ser recebido, pois, como uma bênção, e ser executado com alegria, e não como um dever difícil de ser cumprido. Importante observar o como trabalhar, isto é, com desinteresse, movido apenas pela caridade. Às vezes trabalhamos pensando servir ao ideal, mas vários outros interesses permanecem inconscientes em nós. Pode ser o desejo de aparecer, ou mostrar a nossa capacidade, ou ainda esperar resultados, como apoio, compreensão, gratidão, e daí por diante. Se esses resultados não aparecem a pessoa se decepciona, fica descontente, e se afasta do trabalho por achar que seus esforços não foram recompensados. O móvel de nossas ações deve ser só a caridade. As dificuldades existem mas representam lições de que necessitamos. São exercícios educativos. O trabalhador precisa munir-se de paciência, tolerância, e amor à Causa.

No mesmo capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Erasto nos conclama: "Deixai de temores! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Oh, verdadeiros adeptos do Espiritismo: vós sois os eleitos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas futilidades, à sua propagação. Ide e pregai: os Espíritos elevados estão convosco. Falareis, certamente, a pessoas que não quererão escutar a palavra de Deus, porque essa palavra os convida incessantemente ao sacrifício". O instrutor convida os espíritas para divulgarem a reencarnação e a lei de evolução conjugada com a de Causa e Efeito. Do bom entendimento dessas leis, o homem consegue saber quem é, porque está na Terra, qual a finalidade da vida e da luta (ou do sofrimento). Erasto procura nos encorajar. Não devemos nos intimidar diante da tarefa. Os recursos podem ser poucos, mas contamos com a assistência dos bons Espíritos. 'As línguas de fogo', ou seja, a sabedoria dos irmãos desencarnados suplementará nossos recursos para levar avante tão importante tarefa. A expressão 'eleitos de Deus' não deve ser entendida no sentido de uma escolha privilegiada. As leis divinas são justas e perfeitas, e não há privilégios na obra da criação. Quando alguém recebe uma tarefa, isto ocorre em função de suas necessidades evolutivas. É a oportunidade de trabalho que a criatura recebe para participar da obra geral, dar a sua contribuição em favor do todo, e, ao mesmo tempo, desenvolver o seu próprio potencial.

Afirma Erasto: "É chegada a hora em que deveis sacrificar os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas futilidades, à sua propagação (à propagação do Espiritismo)". Certamente ele está se referindo aos nossos hábitos negativos, mundanos, de acomodação, preguiça, indisciplina. Sacrificar esses hábitos, nosso trabalho, nossas futilidades, em favor da propagação dos princípios espíritas significa modificar nossa tabela de valores. Será que já nos dispomos a sacrificar determinados interesses em favor da Doutrina? Às vezes manifestamos propósito de colaborar, nesta ou naquela atividade, mas acabamos não encontrando tempo. Entretanto, o tempo é uma questão de preferência. Se na programação de nossas tarefas não incluirmos os compromissos junto à Doutrina, acabaremos não tendo tempo mesmo. Cuidamos do trabalho material, obrigações sociais, recreação, e vão aparecendo afazeres diversos, e não sobra tempo. É preciso que na distribuição do nosso tempo, sejam incluídas, como prioritárias, as tarefas no campo doutrinário. Adverte Bezerra de Menezes: "Ensinar, mas fazer; crer, mas estudar; aconselhar, mas exemplificar; reunir, mas alimentar. Em cada templo, o mais forte deve ser escudo para o mais fraco, o mais esclarecido, a luz para o menos esclarecido, e sempre e sempre seja o sofredor o mais protegido e o mais auxiliado, como entre os que menos sofram seja o maior aquele que se fizer o servidor de todos, conforme a observação do Mentor Divino" (Reformador - dez/1975)