"Fazer por"

NILZA TERESA ROTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP

Conta-nos Joanna de Ângelis, em seu livro "Momentos de Saúde", que um sábio mestre peregrinava com seus discípulos quando deparou com um homem cuja carroça estava atolada e ele permanecia à beira da estrada orando pedindo que Deus o ajudasse a tirar a carroça do atoleiro, todos se sensibilizaram e o mestre continuou sua caminhada. Alguns quilômetros à frente encontraram outro homem com a carroça igualmente atolada, reclamava com veemência, porém fazia uma força descomunal para movimentar o veículo. O mestre propôs aos seus discípulos que ajudassem o homem e a carroça ganhou novamente o caminho. Os discípulos então interpelaram o mestre do porquê da ajuda a esse homem, que nem sequer piedoso era, enquanto o outro permaneceu sem ajuda. "O que orava, aguardava que Deus viesse fazer a tarefa que a ele competia. O outro, embora desesperado por ignorância, empenhava-se, merecendo auxílio."

Nosso milenar atavismo tem freqüentemente nos colocado à frente de situações semelhantes a da história acima. Freqüentemente nos deparamos com companheiros (e porque não dizer conosco mesmo), que buscam na doutrina soluções para problemas aflitivos, entretanto, na maioria das vezes apassivando-se, contando com a intervenção dos espíritos para solução de seus conflitos.

Transformar o hábito de "esperar cair do céu" é um longo. contínuo e constante processo educativo que cada um deve realizar por si, embora se possa contar com a assistência e assessoramento para isto; entretanto, muitos de nós, na ânsia de ajudar, tal como os discípulos da fábula acima, bloqueamos no assistido o aprendizado que há de advir da própria experiência pessoal.

Esta situação ocorre, também em âmbito familiar. Assistimos uma reportagem que tratava de crianças que não gostavam de estudar e os pais entrevistados mostravam suas angústias pelo comportamento dos filhos. A psicóloga entrevistada acentua então a inversão de papéis que estava ocorrendo, tentando mostrar aos pais que, na maior parte das vezes, querem fazer pela criança aquilo que é seu trabalho, sua responsabilidade. Aqui se coloca o alerta de Içami Tiba (Disciplina-limite na medida certa) "embaixo de um folgado tem sempre um sufocado". Pode parecer forte a palavra folgado, mas não era esta a atitude do crente à beira da estrada pedindo a Deus que viesse fazer o seu trabalho? Sabiamente o mestre ensina a seus discípulos que o esforço do segundo homem era mais importante que a espera do primeiro.

"Fazer por" é comportamento para o qual precisamos estar atentos pois ao invés de estarmos ajudando a alguém, na realidade estamos cassando uma excelente oportunidade de aprendizado. Não é pouco usual vermos pessoas que, na ânsia de serem "caridosas" criam dependentes tanto em situação familiar como de ajuda fraterna em casas espíritas.

Criar dependentes é muito nocivo para ambas as partes pois é muito semelhante a figura da tampa e da panela. Explico: a panela sem uma tampa é incompleta e uma tampa sem panela tem utilidade duvidosa.

A situação "tampa-panela" sempre leva a criatura, quer esteja numa ou noutra condição a se desesperar quando o seu "acessório" não está presente em situações problemáticas, pois sente-se incompleta e portanto incapaz ou impotente.

Essa vinculação de dependência é sufocante pois cerceia a individualidade que foi uma grande conquista de nosso processo evolutivo, portanto estejamos atentos a isto no cotidiano de nossas ações.