JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP
"Eu de muito boa-vontade gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado" - Paulo (II Coríntios, 12:15)
Com a Doutrina Espírita, que recorda e explica os ensinamentos de Jesus, temos condições de compreender melhor a vida, as situações em que nos envolvemos, as outras pessoas, e tudo o que ocorre conosco. Sabemos que estamos na Terra em busca de nossa evolução espiritual, às vezes resgatando dívidas passadas, mas sempre com as oportunidades do trabalho e do aprendizado para construir um futuro melhor. Com tantos ensinos a beneficiarem o nosso campo de ação, alimentamos o propósito louvável de divulgá-los. Queremos que, assim como fomos beneficiados, outras pessoas também possam ser auxiliadas com as luzes da terceira revelação. Entretanto, nem sempre nos lembramos que a melhor pregação é a do exemplo. E que a receptividade da mensagem depende da credibilidade, da autoridade moral de quem a transmite. Emmanuel, comentando o versículo de Paulo, citado de início, afirma: "Há numerosos companheiros da pregação salvacionista que, de bom grado, se elevam a tribunas douradas, discorrendo preciosamente sobre os méritos da bondade e da fé, mas, se convidados a contribuir nas boas obras, sentem-se feridos na bolsa e recuam apressados, sob disparatadas alegações" (Fonte Viva, lição n.° 53). E mais adiante acentua: "na prática legítima do Evangelho não nos cabe apenas gastar o que temos, mas também dar do que somos".
Não basta a colaboração financeira, sem assumir compromissos com o trabalho, o que significa falta de disposição para aceitar responsabilidade. Às vezes a pessoa se oferece para colaborar, mas não quer responsabilidade, ainda não está disposta a isto. Ela já está disposta a gastar, mas não a se gastar. Já é um começo. É melhor do que aquele nem colaborar quer. Mas um dia compreenderemos que, além de gastar, precisamos também nos gastar, porque só assim aprenderemos a servir, realizando o aprendizado espiritual.
Entre o saber e o fazer há grande distância. O conhecimento teórico, a informação recebida nos dá a impressão de que sabemos. Mas, na realidade, só sabemos efetivamente depois que passamos a fazer, a praticar o ensino teórico aceito. A seta nos indica a direção a seguir, nos informa o rumo, mas só ficamos conhecendo a estrada, só aprendemos verdadeiramente o roteiro depois que percorremos a estrada e chegamos ao ponto desejado. Só aprendemos a fazer, fazendo. "Quem, de algum modo, não se empenha a benefício dos companheiros, apenas conhece as lições do alto, mas não tem experiência, ainda não descobriu a importância de viver o ensino, para receber os resultados benéficos daí resultantes, É alguém que só conhece a estrada por informação, porque leu as indicações, mas ainda não se dispôs a percorrê-la. Conseqüentemente, pensa que sabe, mas não sabe.
Alguns companheiros do movimento espírita, empenhados em trabalhos de divulgação, entendem que os espíritas devem concentrar todos os seus esforços e recursos financeiros nas tarefas de divulgação do Espiritismo. A realização de obras de assistência e promoção sociais, como creches, hospitais, abrigos, escolas, todas essas atividades devem ser realizadas pelos poderes públicos. Os espíritas devem, no entender desses companheiros, canalizar o seu tempo e os seus recursos financeiros para tarefas exclusivamente doutrinárias, ou de divulgação do Espiritismo. Em abono dessa idéia evocam a afirmação de Emmanuel: "A maior caridade que podemos fazer para a Doutrina Espírita é a sua própria divulgação" .Respeitamos esses companheiros, mas lembramos que o mesmo Emmanuel nos assegura que "o melhor meio de divulgar o ideal que abraçamos é o exemplo", ou seja, fazer o que a Doutrina nos ensina. O trabalho assistencial, promocional, é a oportunidade que nos é oferecida para o nosso treinamento, para nosso aprendizado. Do contrário, ficamos naquela situação: "faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço".
No aprendizado espírita não deve haver especialistas. Todos devemos fazer um pouco de tudo. Exercitarmo-nos nas mais diversas atividades. Como é natural, cada pessoa tem mais habilidade e gosta de determinadas tarefas. Então ela se dedica mais a essas tarefas, mas isto não a exime do dever de colaborar nas demais atividades da casa espírita a que pertence. Não é bom o médium só comparecer às reuniões mediúnicas; o evangelizador da infância só vai naquele dia e horário do trabalho com as crianças; o expositor só comparece para fazer palestras, etc., como se as outras atividades não fossem importantes.
No movimento espírita, apenas para citar um exemplo, Divaldo Franco talvez pudesse ser considerado um especialista em divulgação. Seus dons de oratória, sua mediunidade, a facilidade de expressão, fizeram dele esse orador requisitado e aplaudido por grandes públicos no Brasil e no exterior. Entretanto, ele conta que, ao iniciar suas atividades no Espiritismo, os Espíritos superiores que o orientam inspiraram-no a fundar uma casa de assistência e promoção social. Assim, a espiritualidade superior nos ensina que toda pregação deve estar respaldada pelo exemplo, na realização daquilo que se ensina.
Na página citada de início, Emmanuel afirma: "Pregadores que não gastam e nem se gastam pelo engrandecimento das idéias redentoras do Cristianismo são orquídeas do Evangelho sobre o apoio problemático das possibilidades alheias; mas aquele que ensina e exemplifica, aprendendo a sacrificar-se pelo erguimento de todos, é a árvore robusta do Eterno Bem, manifestando o Senhor no solo rico da verdadeira fraternidade".