Os portadores de deficiências nas escolas regulares

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP

"A mistura das aptidões é necessária a fim de cada um possa contribuir para os desígnios da Providência, nos limites do desenvolvimento de suas forças físicas e intelectuais: o que um não faz, o outro faz, e é assim que cada um tem a sua função útil " (perg. 804, O Livro dos Espíritos).

Ultimamente temos lido e ouvido notícias a respeito da inclusão de deficientes em escolas regulares.

As reações variam da perplexidade ao sentimento de incapacidade de lidar com tal situação.

De um lado temos o preconceito já arraigado e o hábito comum da sociedade de segregar os portadores de deficiências, colocando-os em ambientes isolados e afastados de todos, desde um quartinho no fundo de casa até escolas onde só freqüentam crianças com problemas.

Por outro lado, a cada dia novas descobertas tem sido feitas sobre a capacidade destas crianças de participarem mais ativamente da sociedade. No jornal O Estado De São Paulo, de 27 de março de 1998, há uma reportagem sobre escolas paulistas que acolhem alunos com deficiências, e os resultados surpreendentes que tem conseguido. A reportagem fala de uma criança com síndrome de Down, que cursou uma escola desde os 2 anos de idade - isto depois de ter sido recusada por 42 escolas - e hoje, com 19 anos, voltou para aquela mesma escola, atuando como estagiária junto às crianças. A matéria fala também de outras crianças - com problemas de paralisia cerebral, ou tetraplégica - que, a muito custo, foram integradas a escolas ditas normais, e que hoje apresentam um rendimento perfeitamente aceitável, sem atrasos para o programa das escolas.

E o que é melhor ainda, o convívio destas crianças com aquelas sem deficiências tem se apresentado extremamente interessante e produtivo para todos. Estas últimas envolvem-se naturalmente em ajudar os colegas com dificuldades, tanto em termos de atividades cotidianas de higiene e alimentação, como nas atividades de aprendizagem, tornando-se mais reflexivas sobre a sua própria condição e sobre as diferenças entre as pessoas - diferenças não no sentido pejorativo, mas no sentido mais produtivo que isto possa significar, de trocas, de interação, de aprendizagem recíproca...

Estas questões não estão ocorrendo apenas no Brasil, onde atualmente figuram nas Leis de Diretrizes e Bases da Educação, mas já vem ocorrendo no mundo todo a algum tempo. Na França, como se pode ler numa reportagem do jornal O Diário de Ribeirão Preto, de 10 de abril de 1998, a determinação de incluir deficientes físicos e mentais em escolas regulares já é lei desde 1975. Lá também os primeiros anos foram cheios de "incertezas e desculpas" .Segundo a reportagem, "hoje, a grande maioria dos deficientes franceses freqüenta normalmente a escola maternal (até 6 anos) e segue o curso elementar (6 a 11 anos) e colegial (11 a 17 anos) até onde for possível. E os limites do possível vem sendo quebrados a cada ano. Quase 100% dos portadores de Síndrome de Down, por exemplo, estão na escola maternal e cerca de 73% deles frequëntam o curso elementar, após o qual seguem para cursos profissionalizantes, de nível médio."

O professor romeno Reuven Feuerstein declarou, numa entrevista à Revista Isto É, de 10 de agosto de 1994, que é possível "contrariar o determinismo genético" .Ele disse: "Trabalho com meninos com síndrome de Down que fazem coisas muito importantes. (...) Um de nossos alunos escreveu um best seller nos Estados Unidos e é ator de teatro. Outra é professora de Matemática em Pittsburg. Um terceiro, que não podia falar aos 12 anos, é um pintor reconhecido em Israel. Aos 23 anos pinta belissimamente. Considero-o um gênio. Sua língua foi operada para ser mais maleável. Os traços da doença foram retirados e ele leva uma vida normal, depois de 11 anos de aprendizagem. Meu neto nasceu com síndrome de Down e hoje, aos cinco anos e meio, possui um vocabulário equivalente ao de um menino de sete anos. Se não podemos mudar os cromossomos, temos que lutar contra eles." Nós nos perguntamos: como isso é possível? Segundo Feuerstein "o educador é uma peça chave. Ele transmitirá os valores, as motivações e as estratégias. Ajudará a interpretar a vida. Nós, os educadores, estamos mais em jogo do que as crianças e os jovens. Se não formos capazes de ensinar, será impossível aprender. Com esse método potencializamos o professor para que ele mude o destino do aluno. O professor passa a acreditar que tem capacidade de modificar aquela criança." Eu estenderia tal capacidade a todas aquelas pessoas - pais, responsáveis, médicos, colegas de escola - que convivem com os portadores de deficiência.

O que isto tudo tem a ver com a Doutrina Espírita? Quando vemos uma pessoa portadora de deficiência imediatamente imaginamos tratar-se de um Espírito em prova, e pode ser até que a imaginemos - erroneamente - como um castigo. Mas se deixarmos essa visão - de certa forma preconceituosa - de lado, podemos pensar no desafio que tal situação representa tanto para a pessoa portadora de deficiência quanto para aquelas que com ela convivem. Desafio no sentido de buscarmos melhores meios de lidar com isso, de possibilitarmos um melhora na situação, de ajudarmos aquela pessoa a avançar, de aprendermos mais, de nos tornarmos melhores. Aquela postura conformada de uma pessoa que acredita nada mais poder fazer pois "foi Deus quem quis assim", parece ser equivocada. A Doutrina sempre nos impeliu ao progresso, à evolução. Entender a lei de causa e efeito não nos desobriga de tentar avançar, crescer, ajudar aos outros de forma sempre positiva. Cada dificuldade precisa ser vista não como um obstáculo incontornável, mas como prova sim, prova de inteligência, de vontade, de disposição. E mais ainda, os ensinamentos dos Espíritos sempre apontaram para a necessidade da interação, da troca entre as pessoas, do quanto nós precisamos do outro para crescer e evoluir... Quantos exemplos, como esses acima, tem nos mostrado isso?

Segundo O Livro dos Espíritos, "A mistura das aptidões é necessária a fim de cada um possa contribuir para os desígnios da Providência, nos limites do desenvolvimento de suas forças físicas e intelectuais: o que um não faz, o outro faz, e é assim que cada um tem a sua função útil (perg. 804)." "Deus (...) permitiu que os diferentes graus de desenvolvimento se mantivessem em contato a fim de que os mais adiantados pudessem ajudar os mais atrasados a progredir. E também a fim de que os homens, necessitando uns dos outros, compreendam a lei de caridade que os deve unir ( perg. 805)."

A humanidade está aprendendo isso. Já há movimentos no sentido de acabar com os manicômios, as segregações são cada vez mais criticadas. Esta questão da integração do portador de deficiência - sempre tão segregado em épocas passadas - nas escolas regulares é mais um exemplo disso.

Entender essa postura como um avanço da humanidade e tentar trabalhar no sentido de esclarecer as pessoas sobre as vantagens de estarmos sempre cada vez mais unidos, é também nosso dever. E quando as pessoas - professores, colegas de classe, vizinhos, etc. - se julgarem incapaz de lidar com tal situação, podemos lembrar que nenhuma mãe foi "preparada" para receber filhos com tais características, mas que as situações os impeliram a buscar respostas e ajuda, e que temos tido mais exemplos de sucessos do que de fracassos nessas experiências. Vamos acreditar nisso.