O essencial

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou" - Paulo (Efésios, 4:32)

Emmanuel, no Livro Palavras de Vida Eterna, lição n.° 14, intitulada Benignidade, analisa o versículo acima, e, em certa altura diz: "Em nome do Mestre Sublime, protótipo do amor e da paz, fizemos guerras de ódio, acendendo fogueiras de perseguição e extermínio; todavia, o Altíssimo Pai não nos cassa a oportunidade de prosseguir caminhando no tempo e no espaço, em busca da evolução."

E conclui o instrutor espiritual: "Reflete na magnanimidade de Deus e não coleciones desapontamentos e mágoas, para que o bem te encontre à feição de canal seguro e limpo. Guardar ressentimento e vingança, melindre e rancor, é o mesmo que transformar o coração num vaso de fel. Segundo a advertência do apóstolo Paulo, usemos constante benignidade uns para com os outros, porque somente assim viveremos no clima de Jesus, que nos trouxe à vida a ilimitada compaixão e o auxílio incessante da Providência Celestial".

Sobre a inconveniência de se guardar ressentimento, melindre e rancor, trazemos a apreciação dos leitores deste Jornal algumas orientações de Allan Kardec transmitidas aos espíritas de Lion, França, que se encontram na Revista Espírita, de fevereiro de 1862. Os espíritas de Lion endereçaram carta ao codificador do Espiritismo, assinada por representantes dos vários grupos espíritas da cidade, cumprimentando-o pela passagem de ano, e solicitando orientação para os grupos espíritas. Por falta de espaço, não podemos comentar toda a matéria, que é extensa, mas faremos algumas considerações sobre tópicos que nos chamaram mais a atenção.

De início, diz Allan Kardec: "O que me deu maior prazer foi o de encontrar entre as numerosas assinaturas representação de quase todos os grupos, sinal de harmonia reinante entre eles". É o incentivo à união, à troca de correspondência, às visitas mútuas, como mais tarde colocaria no Livro dos Médiuns, capítulo 29, item 334. Após falar das dificuldades a serem enfrentadas para a divulgação da Doutrina Espírita, acentua: "O penhor do sucesso está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: "Fora da Caridade não há Salvação". Hasteai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas". Medusa, como sabemos, é uma personagem da mitologia que nunca era derrotada. Poderia decepar-lhe a cabeça e ela a reconstituía imediatamente, permanecendo invencível. Allan Kardec compara a legenda "Fora da Caridade Não há Salvação", com essa personagem. Aqueles que praticarem a caridade, no seu verdadeiro sentido, serão fortes e terão condições de vencer sempre aos egoístas.

Mais adiante: "A tática ora em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha; e tende certeza de que quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções". Parece que Allan Kardec estava prevendo os acontecimentos futuros. No nosso caso, no Brasil, podemos refletir sobre os sistemas que tem sido criados, as divisões que tem provocado, e como temos caído na tática dos adversários, principalmente os adversários desencarnados, que certamente têm inspirado todos esses sistemas que só prejudicam o progresso do Espiritismo. Destacamos a afirmativa: "tende certeza de quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções". Particularmente os meios de comunicação (jornais, revistas, etc.) devemos atentar para a advertência do codificador. Quando se defende pontos de vistas, particularidade de pouca importância, às vezes a título de preservar a pureza doutrinária, o que mais se faz é "romper a boa harmonia". O codificador nos alerta que em todas essas ocasiões, quem procede assim, "não pode ter boas intenções".

Diz mais o texto: "A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora isto não é possível se somos distraídos pelas discussões e pela expressão de sentimentos malévolos. Se houver fraternidade, não haverá sentimentos malévolos; mas não pode haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Orgulhosos que se chocam e se ferem por tudo; ambiciosos e orgulhosos que se desiludem quando não têm a supremacia; egoístas que só pensam em si mesmos, a cizânia não tardará ser introduzida; daí vem a dissolução. Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranqüilidade, de estabilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraterno". O êxito dos grupos espíritas depende do sentimento fraterno e este não pode existir entre os orgulhosos, ambiciosos e egoístas. O orgulhoso faz um juízo muito otimista a seu respeito, se considera muito importante, e conseqüentemente melindra com facilidade, todas as vezes que julga não ter recebido as atenções devidas. E o ambicioso, será que existe no meio espírita? Geralmente, quando falamos em ambição pensamos nas coisas materiais, desejos de posse, de poder, etc., mas existe também aquela ambição por cargo, por consideração. também nos meios religiosos, inclusive o espírita. O evangelho relata que a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus, odorou-o e pediu que o Mestre conseguisse lugar, no seu reino, para os dois filhos dela. E o egoísta, como pensa em si mesmo, também se descontenta com facilidade. Acentua o codificador: "Todo grupo ou sociedade que se formar sem ter por base a caridade efetiva não terá vitalidade" e, mais adiante: "Reconhecereis o verdadeiro espírita pela prática da caridade em pensamentos, palavras e atos; e dizei que aquele que em sua alma nutre sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja e de ciúme, mente a si mesmo, se pretende compreender e praticar o Espiritismo". Mais claro é impossível. Aí está a orientação clara, objetiva, para os grupos, ou sociedades espíritas. A base de tudo, se quisermos progredir na compreensão e divulgação da Doutrina Espírita, é a caridade efetiva. Caridade no sentido de benevolência para com todos, indulgência, perdão das ofensas. Sem isto, estaremos nos iludindo. Ainda do texto de Kardec: "Outra tática dos adversários: a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da Doutrina, que é o da moral...". E depois: "Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar, eis o essencial".

Vale estudar todo o texto citado, oportuno e atual. O essencial é conhecermo-nos, combatermos nossas imperfeições, libertando-nos das paixões inferiores, o que nos possilbilitará criarmos ambientes fraternos, para o nosso próprio bem, e em benefício do ideal que abraçamos.