O "best-seller" e a literatura Espírita
NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
Andava meio preocupada com um fato que estava ocorrendo comigo. Tentava ler algum "best-seller" que livrarias espíritas tem vendido e não conseguia ir além das páginas iniciais (exatamente a de número 43 na última tentativa), cheguei a comentar com alguns amigos e para meu alívio alguns também, embora lendo até o fim, sentiam que nada havia acrescentado.
Mais aliviada pus-me a refletir sobre o assunto quando chega o "Reformador" de abril que transcreve na íntegra um comentário de Kardec publicado na Revista Espírita ano 1863 pág. 153-156, intitulada "Exame das comunicações mediúnicas que nos enviam" .Introduzindo a transcrição há a nota do Reformador: "Em face da grande quantidade de produção mediúnica de discutível valor doutrinário - que atualmente são divulgadas em livros, ou mensagens avulsas, transcrevemos..."
Não era preocupação exclusivamente pessoal!
Convido os leitores para uma reflexão sobre isto.
A Doutrina Espírita está a cada dia alcançando pessoas oriundas de outras religiões ou mesmo algumas nem se preocupavam com este aspecto de suas vidas. Essas pessoas buscam uma livraria Espírita "para ler alguma coisa para conhecer melhor o Espiritismo" .Lá está o "best-seller" junto com obras básicas e outras subsidiárias de grande coerência doutrinária. Nosso amigo leitor neófito "compra o que todo mundo está lendo" na certeza de ter comprado uma obra genuinamente espírita e lá, sabemos nós, há conceitos que nata tem a ver com a Doutrina Espírita.
Volto aos meus amigos. E agora vamos restaurar o "ex-librorum" ?Voltar a época da inquisição? Prosa com uns, reflexão com outros. A busca do consenso torna-se tarefa difícil, as opiniões divergem com argumentações bastante sólidas para as quais não há espaço nesta coluna. Entretanto fica claro em todos os pontos de vista: defende-se o não a censura mas o clarificar por ser honesto, educativo e ajuda a identificação dos autênticos princípios doutrinários.
Dentro deste aspecto não deve prevalecer o interesse comercial, que rege as livrarias comuns, mas o objetivo esclarecedor e educativo daquele que usa o nome Espírita em sua atividade de venda de livros. Esta é a grande diferença que de fazer o uso do adjetivo dada à casa: ser Espírita.
Precisamos considerar também o leitor que já "conhece" as obras básicas, já leu algumas outras obras subsidiárias e se debruça sobre a literatura que pouco ou nada favorece a reflexão. "É tão bonito", "Li num instante", "tão levinho que entendi tudo", "não é daquele tipo que é preciso ler várias vezes para entender, nem precisei do dicionário".
Entreteu-se e isso nada tem de errado desde que se tenha a clara idéia que é entretenimento não é estudo doutrinário e que este, o estudo doutrinário, é recomendação do Espírito de Verdade.
Nascemos para progredir e progresso pressupõe desenvolvimento intelectual, senão porque Kardec teria escrito na Revista Espírita (Janeiro 1864 pág. 26) "E ainda, quando a alma goza do livre arbítrio a responsabilidade cresce em razão do desenvolvimento da inteligência".
Frente a profundidade desta colocação, poderíamos nos perguntar se não seria por isso, por não querer ter responsabilidades, que nós ainda ficamos no trivial e no óbvio da literatura, encantando-nos com aquele livro "tão bonitinho" ao invés de abraçar um estudo que exige de nós a busca trabalhosa de informações complementares que ainda não possuímos?