Os anjos da guarda da infância

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP

"Que os educadores se tornem mais semelhantes às crianças, para que as crianças possam se tornar homens de verdade."

Muito me chamou a atenção a psicografia assinada por Miro, apêndice do livro A Educação segundo o Espiritismo, de Dora Incontri, editada pela FEESP. Tanto que resolvi transcrevê-la na íntegra. Tal texto ressalta a importância do período da infância para o desenvolvimento humano, e o papel dos adultos - tanto encarnados quanto desencarnados - no sentido de guiá-las, propiciando um melhor aproveitamento da sua reencarnação. Miro diz o seguinte:

"Faço parte de uma equipe de Espíritos que trabalham com crianças: crianças recém desencarnadas, crianças encarnadas, ou melhor dizendo, espíritos encarnados durante seu período de infância.

Poderão perguntar: por que a predileção de certos Espíritos por crianças? Não são as crianças Espíritos como os Espíritos dos adultos? Não carregam elas o mesmo passado tortuoso, cheio de sombras, que os adultos também carregam?

Sim, é verdade, que sua inocência não é a inocência do espírito recém-criado, ainda ignorante das grandes quedas morais, ainda sem discernimento do Bem e do Mal, com uma consciência apenas embrionária. Não. A criança é um Espírito velho - alguns mais velhos e experientes que outros, mas sempre um Espírito vivido. No atual estágio de nosso planeta, todos os Espíritos que reencarnam já vêm com um passado sobrecarregado de experiências amargas e de lutas fracassadas: eis a grande imagem do pecado original.

Mas, apesar disso, Jesus disse: "Vinde a mim os pequeninos e só aqueles que se fizerem como eles é que alcançarão o Reino dos Céus!" Ignoraria Jesus as existências pregressas daquelas crianças que acariciava em seu colo bendito? Não podemos supor tal disparate. É que Jesus conhecia profundamente as leis que regem a vida - essas leis tão sábias e justas, que Deus estabeleceu no desenvolvimento dos mundos e dos seres...

É que na criança se refaz momentaneamente a pureza primitiva. Não há aí nem hipocrisia, nem disfarce. De fato, a criança está mais perto de nossa essência divina do que o adulto já desvirtuado por uma falsa educação. Rousseau intuiu a verdade, embora não tocasse na chave da reencarnação. Vejam que o próprio tamanho do corpo infantil, sua maior leveza, oprime menos o espírito do que o corpo adulto, plenamente desenvolvido, com todas as suas necessidades e vigor material.

De fato, refaz-se a pureza, porque o Espírito repousa de seus pesadelos passados, sem ainda dar vazão às complexidades da mente culpada e à responsabilidade moral: ele permanece num período de abastecimento de amor... É por isso que a linguagem mais propícia, a primeira linguagem a ser trocada com a criança é a linguagem do amor... Deus quis que a base da renovação do espírito, numa nova encarnação, não fosse a inteligência, mas o amor. A criança ama, antes de compreender, e é nesse amor que, como pregava nosso mestre Pestalozzi, devemos fincar as estacas da racionalidade que se desenvolverá depois.

Poderão objetar que em muitas crianças, esse repouso do Espírito não se dá, pois que a alma tão carregada de sombras atravessa os umbrais do renascimento, presa de obsessões, desequilíbrios psíquicos e físicos tais, que a infância para ela não é período de alegria e reconforto, mas de duros ajustes. Outras, não conseguem atingir no corpo a plena racionalidade, porque se servem de cérebros lesados ou sofreram, no processo da reencarnação, de uma deformação genética que lhes impede o desenvolvimento normal.

Direi então que tanto num, como no outro caso, o amor deve ser redobrado. No primeiro caso, o corpo funciona como um refúgio da consciência oprimida pelo arrependimento. A lucidez do Espírito culpado, em nosso Plano, é mais dolorosa do que o pesadelo na carne, sempre amortizado pelo esquecimento. No caso das crianças com deficiências mentais, ainda louvemos a sabedoria de Deus. Para elas, só o período de infância não basta para refazer em seu espírito um pouco de pureza, para uma renovação moral. As quedas da inteligência são por vezes tão desastrosas, que são precisas existências inteiras aprendendo a linguagem do amor, para que nesses Espíritos surjam as bases de um soerguimento espiritual.

Voltemos, porém, a nós, tarefeiros empenhados no amparo à infância. Geralmente, somos nós mesmos, almas sedentas dessa pureza, desse despojamento humilde, que se lê no olhar das crianças de todos os continentes do planeta. Amamos as crianças, porque elas simbolizam a misericórdia divina, que sempre oferece novas oportunidades de regeneração. Amamos as crianças, porque elas retratam momentaneamente uma realidade universal e eterna: a de que o Espírito mais criminoso, o réprobo mais endurecido pode reconquistar sua pureza; não mais a pureza da ignorância primitiva, mas a pureza do Espírito nobre e evoluído. E afinal, amamos a criança, porque cada nova geração que renasce na Terra é sempre uma nova oportunidade de evolução planetária, pode sempre representar um enxerto de almas decididas a mudar o que encontrarem...

Por tudo isso, há inúmeras falanges no Plano Espiritual que se dedicam às crianças e gostamos de poeticamente evocar as imagens arquetípicas do anjo da guarda dos meninos, a quem as mães de antigamente ensinavam seus filhos a orar... E também quereríamos nos fazer anjos da guarda de homens e mulheres, que tomem a sério a questão educacional, não com ares doutorais e soturnos, mas com a alegria e o despojamento, a doçura e o desinteresse próprios da infância...

Que os educadores se tornem mais semelhantes às crianças, para que as crianças possam se tornar homens de verdade! Quem quer que trabalhe e aja, ore e se engaje a favor das crianças, terá nossa proteção, nossa simpatia e... sempre mais trabalho, em prol de uma causa, que é antes de tudo, a causa de Jesus!!

Miro 25/11/91"

O autor nos chama a responsabilidade diante dos pequenos e diante de nós mesmos enquanto educadores, mostrando o quanto recebemos deles neste processo... Destaca também o exercício necessário do amor, fundamental nesta relação de educação, em função de ser a única linguagem possível e reconhecível para o Espírito na fase inicial de sua reencarnação.

Saber que se pode contar com a ajuda destes "anjos da guarda" das crianças nos torna mais confiantes, mas também mais responsáveis...