JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP
"Mas os fariseus, quando viram que Jesus tinha feito calar a boca aos saduceus, se ajuntaram em conselho. E um deles, que era doutor da lei, tentando-o, perguntou-lhe: Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Jesus lhe disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos contém toda a lei e os profetas (Mateus, XII: 34-40)"
Jesus resume toda a lei e os profetas no amor, amar a Deus e ao próximo. O que é o amor? No livro "Depois da Morte", Léon Denis afirma: "O amor é a celeste atração das almas e dos mundos, a potência divina que liga os Universos, governa-os e fecunda; o amor é o olhar de Deus! O amor é o sentimento superior em que se fundem e se harmonizam todas as qualidades do coração; é o coroamento das virtudes humanas, da doçura, da caridade, da bondade; é a manifestação na alma de uma força que nos eleva acima da matéria, até alturas divinas, unindo todos os seres e despertando em nós a felicidade íntima, que se afasta extraordinariamente de todas as volúpias terrestres. Amar é sentir-se viver em todos e por todos, é consagrar-se ao sacrifício, até a morte, em benefício de uma causa ou de um ser. Se quiserdes saber o que é amar, considerai os grandes vultos da Humanidade e, acima de todos o Cristo, o amor encarnado, o Cristo, para quem o amor era toda a moral e toda a religião."
O amor engloba todas as outras virtudes. Quem ama perdoa e esquece qualquer ofensa, ou maldade recebida de alguém; quem ama releva as faltas, tolera-as e usa de indulgência para com as imperfeições alheias. Talvez o melhor exemplo que encontramos para o amor, no mundo imperfeito em que vivemos, seja o amor de mãe. Embora, às vezes, mesclado com imperfeições diversas, as mães conseguem abstrair as imperfeições, os erros dos filhos, e identificar neles o que há de bom, e os amam apesar de suas imperfeições. Assim também os que amam: não se detém nas imperfeições, nos erros, nas fraquezas dos outros seres, mas sabem ver neles as qualidades boas, e os amam mesmo assim.
Queremos refletir não sobre o amor em si, porém no como fazer para que o nosso amor cresça. Qual o caminho a seguir para desenvolver o amor em nós.
Amar não é uma espécie de dom, ou de graça dada por Deus. Amar é uma arte, e, como todas as artes precisa ser aprendido, cultivado, aperfeiçoado. Naturalmente alguns tem maior capacidade para amar do que outros; isto se explica pelo progresso anterior realizado pela individualidade. Cada um de nós está num determinado grau da escada evolutiva. Quem já evoluiu mais, já desenvolveu mais sua sensibilidade, o entendimento das leis divinas, e já ampliou sua capacidade de amar, enquanto outros estão mais atrasados na estrada do progresso espiritual. Erich Fromm, no livro "a Arte de Amar", afirma: "O amor é uma atividade, e não um afeto passivo. De modo mais geral, o caráter ativo do amor pode ser descrito afirmando-se que o amor, antes de tudo, consiste em dar, e não em receber. Que é dar? Embora pareça simples a resposta a esta pergunta, ela em verdade é cheia de ambigüidades e complexidades. O equívoco mais vastamente espalhado é o que entende que dar é "abandonar" alguma coisa, ser privado de algo, sacrificar. A pessoa cujo caráter não se desenvolveu além da etapa da orientação receptiva, explorativa, ou amealhadora, experimenta o ato de dar dessa maneira. O caráter mercantil deseja dar, mas só em troca de receber; dar sem receber, para ele, é ser defraudado. Aqueles cuja principal orientação é não-produtiva sentem que dar é um empobrecimento. A maioria dos indivíduos deste tipo, portanto, recusa dar. Alguns fazem do ato de dar uma virtude, no sentido de sacrifício. Sentem que, por ser doloroso dar, deve-se dar; a virtude de dar para eles, reside no próprio ato de aceitação do sacrifício. Para eles a norma de que é melhor dar do que receber significa que é melhor sofrer privação do que experimentar alegria. Para o caráter produtivo, dar tem um sentido inteiramente diverso. Dar é a mais alta expressão da potência. No próprio ato de dar, ponho à prova minha força, minha riqueza, meu poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência enche-me de alegria. Provo-me como superabundante, pródigo, cheio de vida e, portanto, como alegre. Dar é mais alegre do que receber, não por ser uma privação, mas porque no ato de dar, encontra-se a expressão de minha vitalidade."
"Na esfera das coisas materiais, dar significa ser rico. Não é rico quem muito "tem", mas quem muito "dá" .O avaro que ansiosamente receia perder alguma coisa é, psicologicamente falando, o homem pobre, o empobrecido, não importa quanto possua. Quem é capaz de dar-se é rico. Põe-se à prova como quem pode conceder de si aos outros."
"A mais importante esfera de dar, entretanto, não é a das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa a outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá de sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas que lhe dê daquilo que em si tem de vivo; dê-lhe de sua alegria, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza - de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si" .E mais adiante: "Não dá a fim de receber; dar é, em si mesmo, requintada alegria. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado à vida reflete-se de volta no doador; ao dar, verdadeiramente, não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas são gratas pela vida que para ambas nascem. Com relação especificamente ao amor, isso significa: o amor é uma força que produz amor. O mestre é ensinado pelos seus alunos, o ator é estimulado por sua audiência, o psicanalista é curado por seu cliente - contanto que não se tratem uns aos outros como objetos, mas se relacionem uns com os outros genuína e produtivamente."