LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP
Com o lançamento de "O Livro dos Espíritos" em 18 da abril de 1857, raiou para o mundo a "era espírita", cumprindo-se a promessa de Jesus, de que, no tempo próprio enviaria o Consolador (Jo. cap. XIV - XVI; Mt. XVII) aquele que viria explicar e desenvolver tudo quanto Ele, Jesus, havia ensinado de forma figurada alegórica, em parábolas. Faltava ao homem daquela época conhecimentos, que só o tempo, com a abertura mental que traria, dar-lhe-ia condições para perceber e entender.
Assim, "O Livro dos Espíritos" representa, é, o código de uma nova fase da evolução humana. Sobre ele, ergue-se todo um edifício - o da Doutrina Espírita. Constitui-se como pedra fundamental, marco do Espiritismo que surgindo com "O Livro dos Espíritos", através dele se propaga, se impõe e se consolida no mundo. Antes desse livro portanto - não havia Espiritismo. Aliás, nem essa palavra, que criada por Kardec define-o como "(...) ciência, filosofia e religião, que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos bem como suas relações com a matéria". Aos fatos, aos fenômenos que sempre existiram e que eram interpretados segundo o entendimento e explicação de cada um, Kardec codifica esse conhecimento dando ordenação lógica, racional.
Caracteriza-se "O Livro dos Espíritos" por conter os princípios básicos da doutrina e ser o marco da Terceira Revelação. Ao mesmo tempo em que sintetiza o conhecimento, esboça plano de trabalho essencial e se mantém como estrutura geral doutrinária.
Percebe-se claramente tal premissa, quando entendemos que todo conteúdo das demais obras que constituem a Codificação Espírita, parte da matéria inicial contida em "O Livro dos Espíritos", podendo-se facilmente definir as várias faixas de texto, correspondendo cada uma delas a um aprofundamento específico.
"O Livro dos Espíritos"
Livro I - Das causas primárias
- A Gênese - 1868
Livro II - Do mundo Espírita - O Livro dos Médiuns
Livro III - Das Leis Morais - O Evangelho Segundo o Espiritismo - 1864
Livro IV - Das Esperanças
e Consolações - O Céu e o Inferno - 1865
Apresenta-se a Doutrina como um todo homogêneo isto é, todas as partes são da mesma natureza, ficando impossível separar os livros como possível expressão de uma forma diferente do pensamento. Cada um deles constitui-se como desenvolvimento, aprofundamento dos temas ou problemas aflorados, tocados ou assimilados de maneira sintética em "O Livro dos Espíritos".
Essa estrutura, esse inter-relacionamento entre as obras configura o arcabouço filosófico do Espiritismo e segundo Allan Kardec no frontispício do livro - "contém os princípios da doutrina Espírita". Esses cinco livros são conhecidos como "Obras Básicas" e todos os demais, por preciosos que possam ser, constituem-se em subsidiárias e serão considerados espíritas se não se afastarem da fonte, preservando-lhe a pureza.
A força da Doutrina Espírita aí contida, estrutura-se nos princípios em permanente possibilidade de comprovação:
1 - Existência de Deus - criador - causa primária - inteligência suprema - eterno - imutável - onipotente soberanamente justo e bom.
2 - Imortalidade do Espírito - pré-existente e sobrevivente ao corpo físico - princípio inteligente do Universo criado por Deus para evoluir e realizar-se individualmente pelos seus próprios esforços.
3 - Pluralidade das Existências - criado simples e ignorante, sem conhecimento, dotado de livre arbítrio, encontra na justiça das vidas sucessivas oportunidade para, em trabalhando consigo, desenvolver potencial perfectível reencarnando tantas vezes quanto necessário for e no contínuo renovar crescer intelectual e moralmente.
4 - Comunicabilidade - sendo os Espíritos nada mais que os seres humanos sem o corpo físico, podem comunicar-se com os homens, também Espíritos, através dos processos mentais, especialmente através da Mediunidade.
5 - Pluralidade dos Mundos habitados - decorrência, corolário dos princípios anteriores, pois fala exatamente da evolução, isto é, do progresso universal e infinito onde cada Espírito encontra nos diferentes mundos o meio que necessita para desenvolvendo seu potencial, colocando-se na busca da Perfeição, objetivo esta, da sua própria criação.
Todo esse conteúdo é dinamizado, usado, trabalhado pelos espíritas que nas atividades todas que dinamizam, constituem o Movimento Espírita - que visa - por essa prática aplicar a Doutrina Espírita, em todos os sentidos, divulgando seus princípios, exercitando a vivência dos postulados renovadores de Jesus.
Enquanto o Espiritismo como Doutrina estruturada não sofre deturpações, está completa, é intocável em seus princípios e objetivo, o Movimento Espírita, por ser exercido pelos homens, pode pelo desconhecimento sofrer enxertias e deturpações.
Como se apresenta o Movimento Espírita?
- organização dinâmica e federativa
- congrega as atividades das várias associações onde as diretrizes são comuns no propósito de difusão e vivência dos princípios basilares da Doutrina Espírita com vistas ao progresso da Humanidade.
- isso implica em convivência dentro de uma unidade de pensamento e ação comuns.
- não há imposições arbitrárias, mas o consenso advindo dessa conscientização contida na base do pensamento espírita.
Desse modo, o Movimento Espírita é livre, aberto, tanto em relação às Instituições como às pessoas, sem hierarquias dominantes, sem obediência cega ou dogmática, mas de, compreensão harmoniosa, de zelo, de cuidado com a Doutrina, de autodisciplina, de conhecimento cada vez mais profundo dessa mesma Doutrina objetivando maior fidelidade e segurança à Causa. Isso implica em vigilância, responsabilidade, cuidado, análise, raciocínio, para não enxertar nada diferente, tentando incorporar, trazer, inventar, modismos e excentricidades que nada tem a ver com o Espiritismo.
O Movimento Espírita, portanto, pode descaracterizar-se, afastar-se da Doutrina Espírita, o que não acontecerá se através do conhecimento perceber que sendo um movimento de consciências livres, são estas comprometidas com a proposta de Jesus. Em razão disso, exige de cada um particular cuidado, vigilância permanente, união fraterna, avaliações constantes, no sentido de que as deturpações, personalismos e invencionices não comprometam o ideal.
Esse sentido de responsabilidade para com a Doutrina acontece sempre?
Percebemos que não. Por desconhecimento gerado pela falta do estudo, pela desunião entre os Centros e os espíritas, pelo personalismo e por vários outros fatores, o Movimento Espírita, nem sempre se apresenta vinculado à Doutrina Espírita no seu objetivo primeiro - a renovação moral do homem.
No Projeto 1868 - Allan Kardec cuida desse aspecto quando insere que "(...) um dos maiores obstáculos à propagação da Doutrina, é a falta de unidade e esta, não se refere à Doutrina que sistematizada permanecerá íntegra inabalável nos fundamentos. A preocupação é relativa à ausência de unidade de idéias, sentimentos e propostas de seus profitentes, necessitando os espíritas terem claro o espírito de equipe, estando alertas quanto aos grupos fechados e isolados".
A razão de ser do Movimento Espírita portanto é divulgação e prática da Doutrina Espírita na sua pureza cabendo aos espíritas difundir e viver o Evangelho de Jesus, à luz da imortalidade, da reencarnação, da justiça e misericórdia inesgotável do amor divino.
Cada atividade espírita, cada página de livro, jornal, revista, programa de rádio, TV, cada palestra, cada encontro, conferência, congresso, feira, banca ou livraria - deve constituir-se em compromisso para divulgar Doutrina Espírita levando às almas sementes de consolação, esperanças, entendimento superior da vida, nova concepção de fraternidade com base nos sublimes ensinos de Jesus explicados no Consolador.
Para que cada espírita se constitua nesse ponto forte, que na somatória reflita um movimento coeso, dinamizador das propostas para o mundo novo que tanto almejamos, o passo primeiro é a conscientização que se dá através do conhecimento, do estudo, da reflexão. Sem ele, como ajuizar se esse livro, romance, centro, atividades e posicionamentos realmente são espíritas? Como banir ciúmes e individualizações? Como unir pela troca das experiências? Como fazer desaparecer o meu Centro ou o Centro do Sr. ou da Sr.ª X? Como formar a família espírita onde em cada casa que se chegue encontrar-se-á nossa casa pois ali está implantada a Doutrina Espírita em pontos comuns da fraternidade, união em torno dos princípios básicos.
Constituímos no Estado de São Paulo número estimado entre oitenta a cem mil espíritas. Como marcha o Centro que freqüentamos ou eu como espírita no processo unificador? O que me compete nesse zelo maior com o Espiritismo, para que não se desvirtue? Para que se exteriorize plenamente no seu aspecto consolador, esclarecedor e libertador do pensamento de Jesus através da Doutrina Espírita?