MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
" ( ) o espírito encontra no cérebro o gabinete de comando das energias que o servem, como aparelho de expressão dos seus sentimentos e pensamentos, com os quais, no regime de responsabilidade e de auto-escolha, plasmará, no espaço e no tempo, o seu próprio caminho de ascensão para Deus." Evolução em Dois Mundos, André Luiz.
Nestas últimas semanas alguns meios de comunicação, como as revistas Veja, 19/08/98 e Educação, agosto/98, e a Folha de São Paulo 21/08/98, publicaram reportagens enfocando o cérebro humano, e as últimas descobertas científicas sobre o assunto.
Desde derrubar os mitos - como o de que usamos apenas 10 % do cérebro humano (a Folha trouxe depoimentos de neurobiólogo e neurocirurgião sobre o assunto) - até demonstrar o caminho histórico do conhecimento humano sobre o cérebro, todos são unânimes em enfatizar a necessidade do exercício mental para que não haja atrofiamento do cérebro.
Esta idéia não é nova, intuitivamente já era conhecida das pessoas, mas agora está sendo colocada de uma forma mais incisiva.
Diferentemente do que se possa pensar à primeira vista, no meio Espírita estas reportagens também são bem-vindas, pois vem reforçar a necessidade da constante busca do aperfeiçoamento humano.
A revista Veja afirma que "os novos estudos mostram o cérebro como um órgão fascinante e diferente de todos os demais. Ele desenvolve-se rapidamente na infância, mas é o único que pode ser melhorado por meio do uso intenso até o fim da vida. (...) uma vida intelectual ativa aumenta a longevidade e reduz o risco de doenças típicas da velhice, como senilidade e perda de memória".
Ora, se pudermos ver o cérebro como o elemento através do qual o Espírito atua quando está encarnado, é claro que se faz urgente estar atento a isto também, possibilitando cada vez mais oferecer melhores condições para sua atuação.
André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, já trabalhava esta idéia: "No diencéfalo, campo essencialmente sensitivo a vegetativo, parte das mais primitivas do sistema nervoso central, o centro coronário, por fulcro luminoso, entrosa-se com o centro cerebral, a exprimir-se no córtex e em todos os mecanismos do mundo cerebral, e, dessa junção de forças, o espírito encontra no cérebro o gabinete de comando das energias que o servem, como aparelho de expressão dos seus sentimentos e pensamentos, com os quais, no regime de responsabilidade e de auto-escolha, plasmará, no espaço e no tempo, o seu próprio caminho de ascensão para Deus."
Mas uma questão parece saltar quando se discute estas questões. A formação do cérebro depende de muitos fatores, inclusive daqueles externos ao sujeito, aqueles ambientais/sociais. Muito já se falou a respeito do papel do Outro no desenvolvimento humano, inclusive no desenvolvimento do próprio cérebro. Quando a criança nasce, embora seu cérebro já esteja equipado com quase a totalidade de seus dez bilhões de neurônios, só alguns circuitos funcionam, aqueles que asseguram a sobrevivência do bebê, comandando suas funções vitais. Quanto ao cérebro que analisa, calcula e decide, ele ainda está sendo construído.
Segundo a Revista Veja, "estima-se que apenas 30% da capacidade intelectual das pessoas seja inata, determinada pela herança genética. Os outros 70% vêm do uso e do aprendizado". Ou seja, até fisicamente o homem precisa do outro para desenvolver-se, até a construção de seu órgão mais importante, que vai comandar seu organismo, desenvolve-se nas relações mantidas com outros. Assim, o cérebro, quando se sente em segurança e é bem estimulado, chega a um estado de vigilância que lhe permite registrar o máximo de informações.
Na infância, ao mesmo tempo que certos circuitos (entre os neurônios) se estabelecem, outros se desligam e desaparecem. A fiação inicial é oferecida ao recém nascido com fartura, em seguida, à medida em que o bebê faz seu aprendizado, os circuitos úteis são selecionados e estabilizados por todas estas atividades. Os outros circuitos inutilizados, regridem e desaparecem para sempre. Eles são afogados por bilhões de glóbulos brancos que limpam o cérebro de todos os detritos. Desta maneira o meio ambiente contribui para construir o cérebro. Ele o alimenta, estimula, guia, e modifica os traços de sua arquitetura. Em grande parte a hereditariedade propõe e o meio ambiente, dispõe.
A partir destes comentários, fica colocada a questão da relação entre o desenvolvimento do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais. Cabe aqui destacar a relação existente entre o cérebro e o Espírito. Sobre isso, a pergunta 370 do Livro dos Espíritos esclarece: "Não confundais o efeito com a causa. O Espírito tem sempre as faculdades que lhe são próprias. Assim, não são os órgãos que lhe dão as faculdades, mas as faculdades que impulsionam o desenvolvimento do órgãos." E continua, na 370-a: "As qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado, constituem o princípio, mas é necessário ter em conta a influência da matéria, que entrava mais ou menos o exercício dessas faculdades."
Volta-se aqui ao interacionismo, aquela visão da necessidade da interação entre diversos fatores para o desenvolvimento humano; interação entre a pessoa e o meio, entre o Espírito e o ambiente social em que está envolvido quando encarnado. Os estudos atuais sobre o cérebro representam a possibilidade de uma libertação dos limites impostos ao Espírito pela matéria, representam uma possibilidade de se desenvolver fisicamente, propiciando maior crescimento e maiores possibilidades de aprendizado.
E alerta também a nós, pais e educadores, responsáveis em parte pelo desenvolvimento das pessoas que nos foram confiadas, mostrando a importância de um trabalho bem feito neste sentido. Nós podemos ajudar, guiar e proteger o desenvolvimento do cérebro, lembrando-nos que ele atua como "gabinete de comando das energias que o servem, como aparelho de expressão dos seus sentimentos e pensamentos" (André Luiz).
Referências Bibliográficas:
ANDRÉ LUIZ; Evolução
em dois Mundos.
KARDEC, A.; O Livro dos Espíritos.