Parábola do avarento

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"As terras de um homem rico produziram abundantemente. Ele, então, discorria consigo: Que hei de fazer, pois não tenho onde recolher os meus frutos? Finalmente disse: farei isto: derrubarei os meus celeiros, construirei outros maiores, e neles guardarei toda a colheita e os meus bens. E direi à minha alma: tens muitos bens em depósito para largos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Deus, porém, disse a esse homem: Insensato, esta noite mesmo virão demandar tua alma; e as coisas que ajuntaste, para quem serão? Assim acontece àquele que entesoura para si, e não é rico em Deus" (Lucas, 12: 16-21)

Esta parábola, que é também conhecida como do rico insensato, é de fácil compreensão. Nada há nela para se interpretar. O ensino transmitido por Jesus é direto e claro. É pena que os que se consideram cristãos não reflitam sobre esse ensino, buscando aplicá-lo na vida cotidiana.

Jesus nos mostra que é uma insensatez fazer nossa segurança, nosso bem estar, depender do dinheiro, dos valores materiais. A paz, a felicidade que tanto buscamos dependem dos valores do Espírito - o saber e as virtudes - e não dos bens materiais.

Na Terra, como Espíritos encarnados, precisamos dos bens deste plano. O próprio Cristo alimentou famintos, curou enfermos, auxiliou as pessoas que O buscavam a resolverem também seu problemas materiais. Não se trata, pois, de renegar os bens da Terra. Os recursos materiais (dinheiro, saúde, poder, prestígio) têm o seu valor, são bons, porque é trabalhando com eles que vamos desenvolvendo em nós a "verdadeira propriedade", que é a evolução espiritual. Mas é importante saber fazer a hierarquia correta dos valores. Saber o que é principal e o que é secundário. Jesus nos ensina que os bens do Espírito (saber e virtudes, ou seja, evolução espiritual) são os principais. Os bens relacionados com a vida física têm o seu valor, mas não devem constituir no objetivo maior da vida. Mesmo porque, na verdade, estes bens não nos pertencem. Deles somos apenas usufrutuários. O Pai no-los concede, e quando Lhe aprouver no-los retira.

Indício de inferioridade espiritual é o apego aos bens materiais. O Espiritismo nos esclarece que o egoísmo é o vício radical (L. E. perg. 913); dele deriva todo o mal.

Pensando fazer "pé de meia", em garantir o seu futuro, o homem se lança ao trabalho, e, nesse afã, muitas vezes, sem refletir no rumo que vai dando à sua vida, passa a sacrificar tudo em favor daquele objetivo: acumular bens, para desfrutar de um futuro mais ameno. O trabalho é uma lei da Natureza e por isso mesmo uma necessidade. Aprendemos com a Doutrina Espírita que o trabalho não se resume às ocupações materiais. O Espírito também trabalha. Toda ocupação útil é trabalho. Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância intelectual, por isso que deve a sua alimentação, a sua segurança e o seu bem-estar ao seu trabalho e à sua atividade (L. E. pergs. 674 a 676). Infelizmente, porém, muitos se preocupam em demasia com os problemas materiais, em detrimento das questões de ordem espiritual, deixando-se levar pela ambição, pelo desejo insaciável de acumular bens e fortuna, o que não raro se transforma em verdadeira obsessão.

Não sobra tempo par a vida em família, para conviver mais com os filhos, dialogar com eles, participar de suas vidas. Não sobra tempo para as atividades nobres como o estudo das questões espirituais, no caso do espírita, para participar mais ativamente das atividades do movimento. Enfim, não sobra tempo para o mais importante, que é cuidar da própria criatura que somos. Quando a dificuldade chegar, em forma de enfermidades, problemas de relacionamento, revezes financeiros, só então é que se vai pensar nos assuntos do Espírito. E às vezes a desencarnação surpreende a criatura em pleno apogeu da realização material, mas de mãos vazias para a vida espiritual, como o personagem da parábola.

Cuidemos, sim, das coisas materiais, pois enquanto estamos aqui precisamos delas. Mas não nos esqueçamos que o homem é um Espírito que anima uma carne. Tudo que é da carne é passageiro, não nos pertence, e não soluciona nossas carências espirituais. Recomendou-nos Jesus: "Ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não penetram nem roubam". Rodolfo Calligaris, no livro "Parábolas Evangélicas", considera que "(...) esse tesouro são as virtudes cristãs, são as boas qualidades do coração, que devemos cultivar, se quisermos de fato assegurar-nos a vida eterna nos páramos celestiais. As obras de benemerência e os esforços que se façam para formar um caráter reto e puro constituem a grande colheita da vida.

Todo ato nosso em benefício de outrem, assim como todo cuidado em vencer nossas imperfeições, suscita um impulso para cima, equivalente a um depósito de tesouro no céu. Busquemos, pois, no Evangelho de Jesus, a inspiração sobre como gerir os "talentos" que nos tenham sido concedidos temporariamente, lembrando-nos sempre do avarento da parábola, cuja alma, na mesma noite em que fazia planos para o "futuro", foi chamada pelo Senhor (...)"