Paulo Henrique D. Vieira
de Uberlândia, MG
Hippolyte Léon Denizard Rivail, que mais tarde ao codificar a doutrina espírita adotaria o pseudônimo de Allan Kardec, nasceu na cidade de Lyon (França), em 3 de outubro de 1804, descendente de antiga família lionesa, cujos antepassados haviam muito se destacado na magistratura e na advocacia.
Desde cedo o garoto revela inteligência aguçada e patente inclinação para as ciências e assuntos filosóficos.
Realiza seus primeiros estudos na cidade natal de Lyon e aos 10 anos seus pais o mandam para o Instituto Yverdon (Suíça), o célebre Instituto de educação de Jean Heinrich Pestalozzi, considerado a escola modelo da Europa.
Rivail cativa a admiração de Pestalozzi por sua aplicação aos estudos e seu caráter reto se tornando pouco a pouco colaborador do grande educador, auxiliando seus colegas menos adiantados, chegando a condição de "submestre".
Em 1824, com dezenove anos vem a lume seu primeiro livro: "Cours Pratique Et Théorique D'Arithmétique D'Apres La Méthode De Pestalozzi, Avec Des Modifications" 1, o livro alcança grande sucesso tendo várias reedições. Desde então Rivail publicaria uma série de obras referentes a educação.
Na mesma época Rivail deixa a Suíça e retorna à Paris, onde começa a fazer traduções do francês para o alemão, principalmente das obras de Fénelon, funda um instituto de educação (Instituto Rivail), à rua de Sévres n.° 35, nos moldes do já extinto Instituto de Yverdon. Em 6 de fevereiro de 1832, casa-se com Amèlie Gabriele Boudet, que seria sua companheira por 37 anos.
Lecionando e dirigindo a escola ao lado de sua mulher, a Prof.ª Amèlie Boudet, paralelamente prosseguia escrevendo, nas horas vagas sobre questões educacionais.
Em 1835 já com várias obras publicadas e consagrado com uma das grandes cabeças da França, Rivail sofre alguns contratempos financeiros sendo obrigado a baixar as portas de seu Instituto. Emprega-se em casas comerciais como contabilista, dedicando-se à noite a organização de novos trabalhos pedagógicos, a tradução de obras do inglês e do alemão.
Ministra gratuitamente de 1835 a 1840, cursos de Química, Física, Astronomia, Fisiologia e Anatomia Comparada e funda e dirige o "Liceu Polimático" até 1850.
Até hoje pairam dúvidas se Kardec teria ou não sido médico, Albert L. Caillet destaca em sua obra "Manuel Bibliographique des Sciences Psychiques ou Occultes" (vol. III), que embora Kardec tivesse "conhecimentos médicos incontestáveis", ele não se diplomara em medicina.
Nesta primeira fase de sua existência Rivail já havia publicado mais de uma dezena de obras e era membro das mais ilustres Sociedades e Institutos culturais da França.
Em sua vida de professor e pedagogo lecionou Química, Matemática, Astronomia, Física, Fisiologia, Retórica, Anatomia Comparada e Francês. Escrevia e falava fluentemente o alemão, o inglês, o holandês, como também possuía conhecimentos do latim, do grego, do gaulês e de algumas línguas novilatinas.
A partir de 1848, começam a ocorrer uma série de manifestações insólitas, começando na residência das irmãs Fox no vilarejo de Hydesville, no Estado de Nova York (EUA), se espalhando rapidamente por toda a Europa com o nome de mesas girantes. Noticiam os jornais da época.
"Verdadeira época de loucura", "Revolução inacreditável nas leis físicas", o crítico e literato francês, Júlio Jain fez a seguinte crônica na coluna "História da Semana", do periódico "L'Illustration", famoso jornal francês da época, em 14 de maio de 1853:
"Toda a Europa (que digo eu, a Europa?), neste momento o mundo inteiro tem o espírito voltado para uma experiência que consiste em fazer girar uma mesa. Só se ouve falar, por toda parte, da mesa que gira; o próprio Galileu fez menos ruído no dia em que ele provou ser realmente a Terra quem girava em torno do Sol. Ide por aqui, ide por ali, nos grandes salões, nas mais humildes mansardas, no atelier do pintor, em Londres, em Paris, em Nova Iorque, em São Petesburgo, - e vereis pessoas gravemente assentadas em torno de uma mesa vazia, que eles contemplam à semelhança daqueles crentes que passam a vida a olhar seus umbigos! Oh! a mesa! ela fez tábua rasa dos nossos prazeres de todas as tardes" 2
Em 1854, através do magnetizador Fortier, Kardec ouve falar pela primeira vez nas mesas girantes, a princípio demonstra incredulidade quanto a veracidade do fenômeno devido ao seu espírito de homem cujo pensamento era caracterizado pela lógica e bom senso, mas em maio do ano seguinte Fortier lhe diz que as mesas quando interrogadas respondiam a perguntas, revelando uma causa inteligente. Então assiste a algumas sessões das mesas falantes, como também a algumas demonstrações de escrita mediúnica sobre uma lousa.
Kardec então conclui de suas observações que havia um efeito inteligente por trás das respostas, pois mesas não respondiam perguntas. Em abril de 1856, na casa do Sr. Roustan, Kardec recebe uma comunicação mediúnica através da médium Japhet, onde os espíritos lho confirmam a missão que teria de desempenhar, fato que foi confirmado em comunicações posteriores, por outros médiuns. Já havia mais de 50 cadernos de comunicações diversas, reunidos pelo Sr. Pierre-Paul Didier (que mais tarde viria a ser o 1.° editor das obras de Kardec), mas Didier e outras pessoas que haviam se juntado a ele não conseguiam colocar as diversas comunicações e instruções dos espíritos em ordem.
Era este o papel de Kardec na codificação
do Espiritismo, somente um emérito pedagogo como ele, um ilustre escritor
didático, verdadeiro reformador da instrução francesa tinha
a capacidade para compilar, separar, condensar e coordenar as diversas comunicações
recebidas.
Com o concurso de mais de dez médiuns e auxiliado por uma plêiade
de Espíritos Superiores, sob o comando do Espírito de Verdade,
em 18 de abril de 1857 vem à lume "O Livro dos Espíritos". O livro
alcança grande repercussão e a 2.ª edição de
março de 1860 é esgotada em 4 meses. Em 1.° de janeiro de
1858 funda a Revue Spirite e em 1.° de abril do mesmo ano a Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas, com sede em sua casa.
Em janeiro de 1861 lança "O Livro dos Médiuns", três anos depois vem à lume "O Evangelho Segundo o Espiritismo", em agosto de 1865 publica "O Céu e o Inferno", com diversas comunicações mediúnicas recebidas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, onde os espíritos contavam sua situação depois da morte. Em Janeiro de 1868 lança "A Gênese". Ao todo foram mais de 16 obras escritas por Kardec.
Depois do lançamento do Livro dos Espíritos, Kardec viveu intensamente, por 12 anos, o Espiritismo, dividindo seu tempo entre a publicação do pentatêuco e dos demais livros que complementaram a codificação, com as edições mensais da Revista Espírita e as sessões práticas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Aos 64 anos de idade, sempre auxiliado pela fiel companheira Amèlie Boudet, o codificador preocupava-se com a organização e difusão do Espiritismo. Mas as várias noites insones, a idade que avançava e as inúmeras tarefas sob sua responsabilidade já o haviam cansado bastante. Desde 1860 realizava conferências por toda a França e Bélgica
Em 31 de março de 1869, quando se preparava para mudar de residência, tomba vitimado pela ruptura de um aneurisma, com 65 anos incompletos.
O grande mestre lionês legava ao mundo a Doutrina Espírita, que era uma nova mensagem contra a propagação das idéias materialistas e durante o desdobramento da codificação teve que enfrentar duas correntes opostas: a dos cientistas materialistas e a dos defensores das religiões ortodoxas, como os católicos e protestantes, que não aceitavam a comunicabilidade dos espíritos e a reencarnação.
Allan Kardec deixa seu nome gravado no pensamento científico e filosófico mundial, descortinando para a humanidade a existência do mundo dos espíritos, a imortalidade da alma e a reencarnação e cabe a todos nós que herdamos a doutrina tão penosamente codificada por ele nos mantermos fiéis as suas diretrizes doutrinárias, difundindo as grandes verdades contidas nela.
1 - Curso
Conveniente e teórico de Aritmética, depois do método de
Pestalozzi, com Modificações.
2 - Trecho extraído
do livro "Grandes Espíritas do Brasil" de Zêus Wantuil - Homenagem
Especial a Allan Kardec - 2.ª edição - FEB.
Bibliografia: Wantuil, Zêus - Grandes Espíritas do Brasil, Biografia
de Allan Kardec - Edição FEB
Kardec, Allan - Enciclopédia Barsa.
Kardec, Allan - Enciclopédia
Mirador Internacional