Mensagem para o homem integral

AMILCAR DEL CHIARO FILHO
de Guarulhos, SP

Temos um profundo e respeitoso amor pelo Evangelho de Jesus de Nazaré, e isto tem ficado bem claro nos nossos editoriais. Mas não o aceitamos cegamente, e fazemos inúmeras ressalvas de pontos duvidosos dos relatos dos evangelistas, além das interpolações e adulterações.

Concordamos com Allan Kardec quando diz que a moral evangélica é a melhor que existe. Concordamos, também, com o seu pensamento de que o Cristianismo, tal qual saiu da boca do Cristo, é imbatível. Mas nunca escondemos a nossa opinião de que o Espiritismo ilumina, completa, acrescenta o Evangelho, e não vice-versa.

Logicamente o Evangelho é importante para o Espiritismo, e dá a este o perfume do Cristianismo, pois é a sua base moral. Entretanto o Espiritismo dá ao homem o entendimento do por quê da vida, imortalidade e individualidade e destino da alma antes, durante e após a sua encarnação.

O entendimento sobre a reencarnação na visão espírita muda completamente o valor da mensagem evangélica dirigida ao homem que nasce, morre e espera um julgamento que lhe dará um destino definitivo, uma imortalidade estática. A mensagem espírita é para o homem integral que já existia antes do nascimento, e voltará a nascer após ter morrido.

O homem materialista, e o homem espiritualista, mas que aceita que nascemos e morremos uma única vez, tanto um como o outro é vítima da fatalidade. Não foram consultados para nascer, e da mesma forma não o serão para morrer. Não influíram na escolha da família, da raça, da cor da pele, as doenças, a classe social e a sua herança genética.

No caso do materialista seriam as forças cegas da natureza que o impeliriam a nascer desta ou daquela forma. Para o homem espiritualista, univivencial, seriam os caprichos, ou o descaso da divindade. Se levarmos em conta situações de doenças congênitas, debilidade mental, defeitos físicos, má-formação cardíaca, ou ainda a miséria, as mortes prematuras, a situação raia ao absurdo.

Por outro lado o homem não é consultado para morrer. Apega-se à vida com todas as suas forças, mas vem, a morte e ceifa-lhe a vida, não se importando com os protestos, e nem com o choro lamentoso dos que ficaram.

Raciocinemos agora com a palingenesia, ou reencarnação, e partamos de um ponto muito distante, o momento em que passamos a ser espíritos simples e ignorantes. Acompanhemos a extraordinária jornada evolutiva do espírito, iniciando a sua caminhada em mundos primitivos, em raças selvagens, adquirindo o conhecimento lentamente. Visualizemos esse ser em civilizações mais adiantadas, já senhor do seu livre arbítrio, apto a escolher as suas provas, as companhias e as circunstâncias das suas vidas, como a família, local do nascimento e etc.

Projetemo-nos a um futuro mais distante e veremos esse mesmo ser, emancipado, feliz, livre dos impulsos da animalidade, dos desejos insanos, e certamente compreenderemos melhor o Evangelho.

Se isto tudo não for suficiente para explicar porque Deus nos criou; por que fez o universo e leis que regulam a vida e a nossa evolução, no mínimo mostra que a vida, no nosso atual estágio, não comporta maiores explicações, porque ela se basta a si mesma, justifica-se por si mesma.

Tanto o Evangelho, como a Doutrina Espírita tem a sua mensagem voltada para o homem, mas esta enriquece extraordinariamente a aquela.