JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP
"O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas enquanto os homens dormiam veio um inimigo deles, semeou joio no meio do trigo e retirou-se. Porém, quando a erva cresceu e deu fruto, então apareceu também o joio. Chegando os servos do dono do campo, disseram-lhe: Senhor, não semeaste a boa semente no teu campo? Pois donde vem o joio? Respondeu-lhes: homem inimigo é quem fez isso. Os servos continuaram: queres então que vamos arrancá-lo? Não, respondeu ele, para que não suceda que, tirando o joio, arranqueis juntamente com ele também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: primeiro ajuntais o joio e atai-o em feixes para os queimar, mas recolhei o trigo no meu celeiro". Jesus (Matheus, XIII - 24-30).
O campo é o mundo. O trigo são as pessoas boas, que procuram conhecer e observar as leis divinas. O joio são os chamados maus, melhor dizendo: menos evoluídos; são aqueles que ainda não se preocupam em conhecer e muito menos em observar as leis de Deus. Tanto estes como aqueles evidenciam um estágio evolutivo. Estão num determinado degrau da escada do progresso. Progresso conquistado no uso do livre arbítrio, que o Pai concede a todos. No ponto de partida, todos eram iguais - simples e ignorantes, mas com um potencial para desenvolver. O Criador respeita o livre arbítrio que Ele concedeu à criatura. Não obriga ninguém a ser bom, e não impede ninguém de ser mau. O Espírito é livre para agir e deverá sofrer o resultado de sua ação, seja ele bom ou mau. Se o criador respeita o nosso livre arbítrio, por que nós, os homens, não queremos respeitá-lo? Os ditadores, prepotentes, que se julgam donos da verdade querem obrigar os outros a pensarem e serem como eles. Mas Jesus nos ensinou que o homem deve ser bom por expontânea liberdade. Deve ser bom em virtude do seu próprio querer.
Mas, se não devemos arrancar o joio do meio do trigo, como fica a divulgação do bem, a tarefa da instrução, da educação das pessoas? Ensinar sim, divulgar o bem, fazer tudo para que as pessoas se esclareçam e aprendam a viver, mas sem violentar consciências. Sem a pretensão de "salvar" os outros; sem impor o que consideramos certo. A influência sobre os outros ocorre mais pela força do exemplo, do que por conselhos. Importante informar, auxiliar o próximo a encontrar soluções para suas dificuldades, porém a decisão, a tomada de atitude, a mudança íntima é trabalho de cada um. O educador auxilia o educando a encontrar soluções para os seus problemas, ajuda-o a realizar o seu aprendizado, mas se o educando, no uso do seu livre arbítrio, não realizar a tarefa que lhe cabe, nada acontecerá. Disse alguém que "o único modo de fazer bem aos outros é ser bom". E Gandhi afirmava: "Quando um único homem atingir a plenitude do amor, neutralizará o ódio de milhões". Os Espíritos superiores nos ensinam que devemos ser exigentes conosco, e benevolentes com os outros. É bom refletirmos sobre os alertamentos que a espiritualidade superior nos envia, pois há companheiros no movimento espírita que, preocupados com aquilo que consideram incorreto no movimento, criticam agressivamente, ferem as pessoas e instituições respeitáveis. Na tentativa de arrancar o joio (segundo o ponto de vista deles), acabam prejudicando também o trigo. Pensando servir, na realidade prestam um desserviço à causa que pretendem apoiar. Imperfeitos que somos, ainda não sabemos distinguir bem o joio do trigo, já que ambos são muito semelhantes, como diz a parábola.
Allan Kardec, na Revista Espírita de fev/1862, falando aos espíritas de Lyon, afirmou: "A tática ora em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja". A história do movimento espírita no Brasil nos leva a concluir que, infelizmente, isto tem ocorrido em nosso País. O Jornal Mundo Espírita, da Federação Espírita do Paraná, no seu editorial da edição de agosto/98, fez oportunas considerações sobre o assunto. Transcrevemos parte daquele texto "Desde os primórdios do movimento espírita no Brasil, temos ouvido falar desses sistemas divergentes, que têm suscitado muita polêmica no meio espírita. De certa forma, o objetivo dos inimigos dos espíritas tem sido alcançado ao longo do tempo. São práticas esdrúxulas e contrárias à Codificação Kardequiana que surgem, aqui e ali, gerando contendas e dissenções. O de que não damos conta é que muitas vezes temos caído na armadilha, pois enquanto ficamos discutindo sobre essas questões divergentes, o trabalho que deveríamos fazer fica paralisado.
O Espírito Camilo, em seu livro "Cintilação das Estrelas", considera o seguinte: "(...) os contendores estão, quase sempre, defendendo cores e idéias pessoais que, comumente, retratam desajustes emocionais, anseio de domínio ou neuroses várias, consubstanciadas em teimosia injustificada, detendo-se em pontos de vista ou achismos inconvenientes ou caprichosos".
Se nos detivéssemos a refletir um tanto mais acerca dessa realidade, perceberíamos quanto tempo temos perdido com discussões vazias, ao invés de nos dedicarmos, com afinco, ao campo que o Senhor nos oferece para joeirar e, por conseguinte, à nossa redenção pessoal, como devedores das Leis Maiores que reconhecemos ser.
O Cristo afirmou que toda a árvores que o Pai não plantou será arrancada. Por essa razão, deveríamos deixar que esses falsos sistemas, ou falseados em sua base, desaparecessem por si mesmo, sem causarem prejuízos ao movimento espírita, já tão fragilizado pelas nossas próprias imperfeições.
Mais cedo ou mais tarde, todos teremos que prestar contas às leis divinas por tudo o quanto fizemos com o nosso livre-arbítrio, assim como todos os que maculamos o nome de Jesus outrora, e que já nos demos conta disso, agora estamos tentando resgatar a Sua grandeza. Por essa razão, ocupemos os espaços em nossos escassos meios de comunicação social espírita para divulgar a Mensagem Espírita, que é por demais valiosa para ser preterida pelos verdadeiros cristãos. Kardec, ainda na revista citada, faz a seguinte observação: "Pedis que continue com os meus conselhos. Eu os dou de boa vontade aos que os pedem e crêem que deles necessitam. Mas só a esses. Aos que julgam saber muito e que dispensam as lições da experiência, nada direi, a não ser que desejo não tenham um dia que lamentar por terem confiado demais nas próprias forças".