O Espírito que somos
Gustavo Marcelo Rodrigues Daré
de Ribeirão Preto, SP
Os Espíritos são a "individualização do princípio inteligente" do Universo. Dizemos que são imateriais, porque sua essência difere de tudo que denominamos matéria, mas os espíritos da Codificação preferem defini-los como incorpóreos, pois, "sendo criação de Deus, tem que ser alguma coisa" .Para se fazerem compreensíveis, o compararam a uma flama, um clarão, uma centelha etérea, cuja cor varia do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a menor ou maior pureza do Espírito.
Nós, Espíritos, fomos criados "simples e ignorantes" e percorremos um processo evolutivo que vai "do átomo ao arcanjo". Sob o aspecto material, não há na natureza terrestre mais que seres orgânicos e inorgânicos, mas, do ponto de vista moral, há quatro reinos: mineral, vegetal, animal e hominal.
No reino mineral, as reações químicas evidenciam o movimento corpuscular e a lei de afinidade como algumas das primeiras manifestações do princípio inteligente primitivo.
No reino vegetal, as plantas apresentam vitalidade (reatividade a estímulos sobre a matéria), hereditariedade (aquisição de "memória biológica" pelo princípio inteligente), mas ainda sem sensações verdadeiras (como a dor), pensamento ou instinto, agindo apenas mecanicamente.
Os animais já apresentam: instintos bem estabelecidos, linguagem própria de comunicação e vontade e liberdade limitadas às suas necessidades mas ainda não possuem consciência de si mesmos. Apresentando apenas a inteligência da vida material, mantêm a individualidade após a morte do corpo carnal, mas a vida inteligente permanece, então, em estado latente. Pela ausência de "substância mental" consciente, o princípio inteligente desta fase passa por pesada letargia na esfera espiritual devido à incapacidade de manobrar os órgão do aparelho psicossomático. Permanece em uma espécie de erraticidade por algum tempo (algumas espécies, em situações especiais, por um tempo mais prolongado) e são rapidamente utilizados pelos espíritos protetores em novas experiências no mundo denso.
Na evolução do princípio inteligente, não há limites demarcatórios muito nítidos entre os reinos inferiores, já que "tudo é transição na Natureza, pelo fato mesmo de que nada é semelhante e, no entanto, tudo se liga". Na ante-sala do nível hominal, o princípio inteligente sofre uma transformação profunda e se torna Espírito. Emmanuel localiza esta fase de transformação no mundo espiritual. Estes Espíritos, em suas primeiras reencarnações nos Mundos Primitivos, conservam toda a atenção voltada para o mundo carnal. Com isso, quando libertos do corpo denso por ocasião do desencarne, buscam o convívio de seus parentes ainda encarnados, desejando o retorno ao mesmo plano, o que lhes dificulta a relação com o mundo espiritual e, fixados ao monoideísmo da perda do corpo carnal, perdem seu psicossoma, transubstancializando-se em espíritos ovóides. Através de reencarnações sucessivas, o Espírito vai se desenvolvendo intelecto e moralmente, desenvolvendo as potencialidades de seu psicossoma e adquirindo autonomia e consciência progressivas na vida de relação da Erraticidade, aumentando aí o seu tempo de permanência, e enriquecendo suas experiências durante o sono e o exercício de suas faculdades mediúnicas. Neste processo ascensional, o Espírito busca, através da comunhão com mentes afins, o contato cada vez mais direto com as ideações progressistas, originariamente vertidas dos espíritos superiores, disciplinando as criaturas e ofertando-lhes novos horizontes à visão e ao entendimento não podemos esquecer que "a idéia é um ser organizado pelo Espírito a que o pensamento dá forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção".
Carl Jung define muito bem esta marcha evolutiva de descobrimento e autodescobrimento como um processo de "individuação". Realmente, quanto mais tomamos consciência da realidade externa e interior, mais particularizada, pessoal e individual se tornam nossas vivências, opiniões e reações, ao mesmo tempo em que se torna mais amplo e diversificado o nosso campo de ação. ("Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade"). Como disse Léon Denis: "a alma dorme na pedra, sonha no vegetal, acorda no animal e vive sua plenitude no Homem".
O Espírito e o desenvolvimento de doenças:
Devido ao nosso viver ainda de grandes conflitos, uma das importantes realizações do Espírito sobre o organismo carnal é o adoecer, quando cria uma oportunidade de catarse de suas aflições e que, se bem resolvida, impulsioná-lo-á ao progresso espiritual.
Aproveitando a classificação da Medicina Psicossomática, posso dizer que o adoecer possui três fases: TENSÃO EMOCIONAL, quando se observam apenas os componentes psicológicos, exteriorizados como medo, raiva, mágoa, depressão, angústia, etc. possuindo, como origem, sempre componente individualizados de orgulho e egoísmo; DISTÚRBIOS FUNCIONAIS - dores generalizadas, disfunções gastrointestinais, cefaléias, etc.; ENFERMIDADE CELULAR, quando a doença do Espírito, já instalada no perispírito, passa a lesar as células do corpo carnal a nível evidenciável pelos exames laboratoriais atuais; DOENÇA ANATÔMICA, quando progride para infecções, doenças degenerativas, doenças auto-imunes e toda a gama de patologias conhecidas corriqueiramente.
Podemos dividir os fatores comportamentais do Espírito indutores de doença em quatro grandes classes: RESPOSTA DISFÓRICA às adversidades, traduzindo-se por melancolia e infelicidade persistentes, ansiedade, impaciência, hostilidade e solidão-isolamento; CONDUTAS IMUNOSSUPRESSORAS, como privação prolongada de sono, fumo, abuso de álcool, tóxicos e alimentos, etc.; EXPERIÊNCIAS ADVERSAS vividas sem serenidade, bom ânimo ou resignação, como, por exemplo, o estresse no trabalho, separação conjugal, fracasso profissional, dificuldades financeiras ou desencarne de parentes; VULNERABILIDADE, qual é inversamente proporcional ao equilíbrio espiritual diante dos incidentes da vida. O equilíbrio espiritual se obtém com autoconhecimento, para se sentir seguro diante das adversidades; compromisso com a vida, com o trabalho e com os valores morais pessoais, o que, para nós espíritas, é extremamente facilitado pelo conhecimento "de quem somos, de onde viemos e para onde vamos"; a coragem, entendida como confiança com lucidez, para interpretar os desafios da existência como possibilidades de sucesso, em vez de ameaças à nossa individualidade o que se obtém com fé no homem e em Deus e consciência de sua eternidade. Devemos incluir ainda como fatores saneadores, ou fomentadores, desta VULNERABILIDADE ESPIRITUAL, os relacionamentos interpessoais, interespirituais, tanto com Espíritos encarnados como desencarnados (chamando a atenção a relação entre cônjuges e pais e filhos), levando a motivações de auto-ajuda ou a quadros obsessivos.
O Espírito encarnado em busca de si mesmo e de Deus
O Espírito encarnado, durante a embriogênese, rememora toda a sua evolução filogenética com o propósito de construir um novo corpo e reintegrar-se ao mundo carnal com uma nova personalidade que lhe propicie maiores possibilidades evolutivas. A personalidade é a identidade que assumimos na reencarnação presente, cuja historicidade está limitada ao berço, mas que é continuamente modelada e recriada pelas vivências milenares do Espírito. A espiritualidade é inerente ao Espírito, sendo a criação de imagens religiosas (no sentido de "religar a Deus") e a vivência transcendente inerentes à própria alma. Quanto mais o Espírito desenvolve suas faculdades mentais, mais aprimora sua relação consigo e com o meio, apreendendo, cada vez melhor, as verdades espirituais primitiva e a Causa Primária da Criação (Deus).
Não existem métodos iniciáticos milagrosos que possam oferecer esta evolução de modo instantâneo. Apenas o aprendizado contínuo no plano horizontal do fazer sobre a matéria e no plano vertical do Ser filho de Deus fará o caminho ascendente em direção à Unidade e à Individuação. Assumamos nossa espiritualidade para que tenhamos cada vez maior lucidez no discernimento dos eventos da vida e para que, guiados pela moral que Jesus exemplificou, maior sabedoria no agir, concretizando as aspirações autênticas do Espírito eterno.
E, para não nos iludirmos com as adversidade e não perdermos a verdadeira métrica de nossa Realidade, lembremos o que nos disse os espíritos da Codificação no Evangelho Segundo o Espiritismo: "o período reencarnatório é apenas um estado transitório, uma tarefa que Deus impõe ao Espírito no princípio de sua existência, como primeira prova do uso que fará do livre-arbítrio".
Bibliografia:
DELANNE, Gabriel: Evolução
Anímica; O Espiritismo perante a Ciência; A Alma
é imorta
DENIS, Léon: Depois
da Morte
GOETZL, E. J. et. al.: Modulation of Immunity and hypersensitivity
by Immune Function Behavioral Neuroscience 105 (1991)
860-869
JORGE, José: Antologia
do Perispírito
JUNG, Carl G.: Memórias, Sonhos, Reflexões
KARDEC, Allan: O Livro dos Espíritos; O Livro dos Médiuns;
O Evangelho Segundo o Espiritismo; A Gênese
LUIZ, André: Missionários da Luz; No
Mundo Maior; Libertação; Entre a Terra e o Céu;
Nos Domínios da Mediunidade; Ação e Reação;
Evolução em Dois Mundos
MIRANDA, Hermínio: Alquimia
da Mente
PINHEIRO, Raimundo: Medicina Psicossomática uma abordagem
clínica
ROBERTS, J. E.: ....(photoneuroimmunology) J. Photochemistry
and Photobiology B: Biology 29 (1995) 3-15