1 - O Centro Espírita
e o pensamento unificador de Allan Kardec

 

LEDA MARQUES BIGHETTI
de Ribeirão Preto, SP

Iniciamos esta série visando "(...) evidenciar, reforçar, recordar a função primeira das instituições espíritas - o estudo."

Reflexões sobre a importância e necessidade do conhecimento objetivaram a que, pelo retornar, se firmar ou se manter junto à Codificação Espírita, o Centro realmente se constitua como ponto irradiador da mensagem libertadora de Jesus.

Essa proposta foi percebida?

Necessariamente não. Muitas vezes, o divergir pessoal impediu entender que o estudo se faz imprescindível para a fé verdadeira a se refletir nas atitudes libertas dos atavismos, das exterioridades, na ação do bem que aquece, equilibra e liberta a alma.

De certo modo, esquecemos ou desconhecemos que Allan Kardec ao receber dos Espíritos responsáveis pela terceira revelação, as instruções para o trabalho da Doutrina Espírita na Humanidade, estabeleceu como norma essencial o amor paralelo a Instrução, unidade onde cabe ao Amor iluminar a fé e esta racional, esclarecer o Amor, na ajuda mútua para que não resvale ou caminhe em preferências ou diferenças, na sustentação em objetivos e metas que plenificam, orientando o crescimento.

Esse discordar, esse não admitir estudar, conhecer a dinamização da casa espírita é natural e se reverterá na proporção em que o conhecimento da Doutrina Espírita se fizer. É trabalho dependente do despertamento dos espíritas, fazendo-se necessário que, de tempo a tempo, se retorne ao tema. Se é mais difícil atingir as gerações que nos precedem, ao menos, os trabalhadores de hoje ou o público que chega, formem consciência diferente sobre o papel e função do Centro Espírita - estudo - renovação espiritual, moral do homem e não cura de corpos, rezas, benzeções e arbítrios.

Retornando aos primeiros tempos da Codificação no mundo, encontraremos Allan Kardec envolto em preocupações semelhantes quanto ao futuro da crença. Naquele passado porém, as questões principais e as acessórias não estavam plenamente resolvidas. Os resultados por isso só poderiam ser incompletos. Aqueles que se aproximavam entreviam a finalidade e as conseqüências de modo vago, impreciso. Daí nasciam incertezas e divergências. Nessa análise da realidade, o Codificador entende que só a medida que o conhecimento se desse, o todo harmônico seria percebido aí surgiria o Espiritismo em toda sua pujança.

O que contribuía para que Allan Kardec trabalhasse com tal abertura?

Justamente a apreciação desapaixonada a lhe mostrar que nesse início, não passa a Doutrina Espírita de um opinião filosófica. Havia simpatia natural dos adeptos mas nenhum laço mais forte os unia. Além da falta do entendimento real, não havia programação claramente traçada, pontos estes fundamentais para união e estabilidade dos grupos e sociedades que então se formavam. As repercussões eram individuais "(...) os resultados coletivos e gerais serão fruto do Espiritismo completo que sucessivamente se desenvolverá".

Tem claro para si, que a Doutrina como essência, era, é, imperecível. Repousa nas leis da Natureza; corresponde às aspirações do homem.

A instalação definitiva poderá ser adiantada ou retardada por circunstâncias várias.

Que circunstâncias seriam?

Primeiramente cuidado em relação aos cismas, isto é, dissidência de opiniões, separações que poderiam surgir toda vez que idéias pessoais tentassem se espalhar; que pessoas ligassem seu nome à Causa por ambição, como meio de projeção criando novidades, agregando fraquezas humanas que causariam afastamento da doutrina "(...) há que se entender tais fatos como naturais, porém, faz-se mister estar atento para neutralizar conseqüências. Faz-se necessário que a Doutrina, no seu conjunto, seja determinada com precisão e clareza dando aos estudos tal forma, que não dêem azo às interpretações contraditórias, dizendo as coisas francamente sem ambigüidades".

Mesmo sob esses cuidados Allan Kardec previne, que seitas poderão se formar ao lado do Espiritismo, por não lhe adotarem algum princípio.

Fica-lhe evidente que, trabalhando na parte teórica, não poderia descuidar da parte prática, para que esta não se recheasse de princípios quiméricos, afastados das bases comprobatórias da Ciência, da Filosofia, falta de cuidados estes que afastariam mentes positivas, lúcidas, que refletindo e analisando não se deixam enganar por aparências e ilusões.

Outro cuidado é inerente ao seu caráter progressivo - por não se embalar em sonhos não se imobiliza. apoiada nas leis da Natureza, acompanha-as e se nova lei for descoberta pôr-se-á de acordo com ela. Essa observação refere-se aos princípios básicos, uma vez que quanto a estes não há o que reformular. Desse modo assimilará todas as idéias reconhecidamente justas quer sejam físicas ou metafísicas, garantido lhe tal proceder que nunca seja ultrapassada, constituindo-se isso como uma das principais garantias da sua perpetuidade.

A caridade constituirá base da crença, em decorrência, a tolerância se imporá como um dever de respeitar todas as formas de pensamento jamais hostilizando outros modos de pensar, proclamando a liberdade de consciência como direito natural imprescindível.

Os princípios doutrinários, passados como verdades comprovadas e invariáveis serão adaptados às várias circunstâncias do momento progressivo. Sendo assim, dinâmica, cabe estar atento para não se envolver em devaneios e utopias.

Outro aspecto preocupante era com relação ao chefe do Espiritismo. Quem manteria esse caminho? Quem teria tempo disponível, perseverança, dedicação ao trabalho incessante que requererá? Deixando entregue a si mesmo, sem guia, correrá risco de desviar-se da rota. Como fazer?

Kardec entende pela necessidade de uma direção central superior que funcionaria como guarda vigilante da unidade progressiva e dos interesses gerais da Doutrina, direção esta envolta em autoridade moral, capaz de centralizar os trabalhos, os estudos, as observações; de impulsionar, estimular os cuidados, sustentar os ânimos vacilantes ajudar com reflexões e troca de experiências, fixar opinião sob pontos incertos, preencher condições de força, segurança, unidade e estabilidade suficientes para afrontar tempestades.

Reconhecida a necessidade da direção nesses moldes, quem receberá os poderes de chefe? Será escolhido pela maioria dos adeptos?

Isso não seria bom. Se impusesse sua autoridade, uns aceitariam, outros não estabelecendo-se as dissenções, formando partidos.

No caso de surgirem vários candidatos, cada qual teria proposta diferente, levantando-se a bandeira contra bandeira.

Encontrando-se alguém que reunisse condições plenas, certo dia haveria substituição, podendo este novo mudar toda direção.

Ah! mas a frente do Espiritismo estão os Espíritos, que poderiam indicar o novo chefe! Talvez não possa existir nada pior do que aquele chefe que se acreditasse eleito por Deus e distinguido pela indicação dos Espíritos! Não haverá um sinal que os indique, nem um designo premeditado. Onde quer que estejam, os homens darão provas de si, por suas obras e se a algum destes couber tomar parte na direção, circunstâncias aparentemente fortuitas para lá o conduzirão, dentro de meios legais, sem que haja indicações prévias, sem mesmo ter ele consciência da sua missão.

Houve sugestões para que, em cada sociedade, os Espíritos indicassem candidatos, esquecidos estes, que a missão dos Espíritos consiste em nos instruir para que melhoremos e que não se impõem ao livre-arbítrio. Podem inspirar, ajudar com reflexões de cunho geral, principalmente no que diz respeito às questões morais, mas deixam à opção do homem o encargo da execução das providências materiais.

O que todas essas reflexões asseguram a Kardec?

Na próxima edição será publicado encerramento deste artigo.