Literatura e educação, segundo Tolstoi

MARLENE CARVALHO FAGUNDES GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP

Lendo a psicografia assinada por Tolstoi, apêndice do livro A Educação segundo o Espiritismo, de Dora Incontri, editada pela FEESP, senti-me envolvida pela doçura e delicadeza desse texto, do famoso autor de Anna Karenina.

Segundo a Nova Enciclopédia Ilustrada FOLHA, Tolstoi foi um escritor e pensador religioso russo. Nascido em 1828 num meio aristocrático, proprietário de terras, entrou para o exército em 1852. Participou da vida social de São Petersburgo e de Moscou, e consagrou-se como brilhante escritor com a publicação da trilogia Infância, Adolescência e Mocidade (1852-4). Após seu casamento, em 1862, administrou suas propriedades com êxito, enquanto escrevia as duas obras-primas, Guerra e Paz (1863-72) e Anna Karenina (1875-6). Depois de escrever estes dois romances, passou por uma crise espiritual, renunciou aos bens materiais e repudiou suas obras artísticas. Tentou investigar o significado da vida em A Morte de Ivan Ilitch (1885), A Sonata de Kreutzer (1890) e em uma série de pequenas obras, concluindo que a salvação humana está no serviço ao próximo. Com suas idéias, influenciou os movimentos pacifistas do século 20. Faleceu em 1910.

Transcrevo a seguir na íntegra o texto ao qual me referi, ressaltando a importância do período da infância para o desenvolvimento humano, o papel dos adultos no sentido de guiá-las, propiciando um melhor aproveitamento da sua reencarnação, o valor do conhecimento da Doutrina Espírita e, principalmente, a importância da literatura em todo este processo. Tolstoi diz o seguinte:

"Quando eu era um menino, tenro e choroso, na minha última vida terrestre, corria aos braços de minha ama e ela contava histórias da minha terra. As personagens eram mujiques, pessoas simples do povo, popes cheios de fervor, peregrinos que mendigavam o pão, nos caminhos gelados das estepes, mulheres e crianças da imensa Rússia.

E nessas histórias, eu bebia o leite do solo em que havia nascido, aprendia a amar o povo - a quem tanto desejei servir depois - e ao mesmo tempo, extraía a seiva da sabedoria popular; sempre a mesma em todas as latitudes e em todas as épocas. A religiosidade pura dos camponeses, a simplicidade dos costumes e da vida, que então me eram narrados e que eu espiava também à minha volta, impregnaram minha formação de aristocrata, fazendo-me ansiar por uma vida mais autêntica do que as complicadas e perigosas experiências da corte.

É certo que, durante a juventude, comecei me perdendo nos vícios da época, tresmalhei-me por caminhos nada aprazíveis ao meu espírito, no fundo sempre sedento de paz. Mas sem que eu percebesse, aquelas histórias da infância, aquelas personagens simples e sábias, que passaram a habitar alguns de meus contos e romances, me inspiravam e me empurravam à mudança de valores.

Foi então que, em certo ponto da existência, já saturado das armadilhas sociais, já entediado de meus próprios desenganos, aproximei-me mais reverente do Evangelho de Jesus. Esse Evangelho que justamente foi dirigido aos simples e aos humildes de coração. Mas, apesar do ardente desejo de iluminar minha vida com os ensinamentos do Mestre de Nazaré, ainda não conseguia me despojar de todo os resquícios de orgulho e de todas as manchas viciosas do passado. Por isso, vivi os conflitos, amargamente experimentados, até a derradeira hora terrena.

Sim, o impulso recebido na infância foi a fonte que me alimentou a transformação na maturidade. Mas o trabalho de conversão do Espírito exige a obra paciente dos anos. E posso dizer que quase cheguei ao ponto de partida na minha velhice. Por pouco, o velho de longas barbas não conseguiu reavivar inteiramente a pureza dos seus primeiros anos.

Faltou-me para isso, a aceitação de uma luz que já despontara no mundo - a luz da Doutrina Espírita. Apenas a força da lógica e o influxo de renovação, trazidos pelo Espiritismo, poderiam ter me transformado radicalmente a alma, naquela altura. É verdade que procurei me nutrir da essência mais pura do Cristianismo. Mas que bem me teria feito, enxergar que o Espiritismo era bem aquela ressurreição do Cristianismo, que eu procurava realizar por conta própria, lutando contra minhas próprias e teimosas imperfeições!

É por isso que, hoje, trabalho ardentemente pela expansão dessa Doutrina, inspirando, onde me seja possível, corações de boa-vontade, a conhecê-la, amá-la e praticá-la…

A infância é o canteiro mais apropriado para a semeadura de tais ideais. Porém, é preciso não pecar pela mera doutrinação, destituída do encanto e da suavidade, necessários ao tratamento dos pequenos renascentes no corpo terrestre.

Que bom se pudéssemos reunir as histórias verdadeiras e singelas dos povos, extraídas da vida das pessoas comuns e oferecê-las às crianças, sob a égide do Espiritismo. Que a Doutrina garantisse a lição, mas que a vida popular e as personagens verídicas fornecessem o encanto da narrativa e o impulso de simplicidade!

Que as crianças então aprendessem, desde cedo, a essência igualitária e fraterna do Espiritismo cristão, convivendo com as personagens populares de todos os rincões do planeta. Que não escasseasse assim o amor ao solo maternal que nutre as criaturas - e com isso as futuras gerações pudessem se desvencilhar das paredes de concreto que lhes encerram a existência, nessas desumanas megalópolis do século!

Recuperar a beleza da vida no campo, a crença fervorosa dos simples, o valor do trabalho das mãos, como fator de enobrecimento e serenidade do espírito; fazer renascer o desejo da natureza e fazer desaparecer o apego ao supérfluo e ao inútil - tudo isso pode ser estimulado através de uma literatura cativante e adequada, que apele profundamente ao atavismo do homem, que é, no fundo, sempre saudoso de suas origens…

Por isso, convocamos todos aqueles que se dedicam à Educação e à literatura: abandonai os contos excitantes de violência; jamais desperteis ansiedades e terrores, sensualidade e desconfiança, nas mentes em formação para uma nova existência física! Antes, semeai o futuro tranqüilo, a volta do homem para suas origens, a serenidade do trabalho e a simplicidade de uma vida sem muitas necessidades! Não é que devais rejeitar a máquina, como se fosse instrumento de perdição. Mas não a endeuseis e não deixeis que ela substitua os prazeres mais puros, da natureza e da arte, da convivência humana e da elevação da alma para as estrelas e para o Senhor de todo a universo!

Também para a harmonia das emoções e para a disciplina dos instintos, deve contribuir uma literatura mais fiel ao homem e mais de acordo com as leis naturais! Falo da literatura como um dos instrumentos da Educação da infância e da juventude, mas esses ideais devem se transmitidos por todos os meios possíveis e, sobretudo, pela vivência dos mais velhos, que poderiam procurar desde já alternativas mais sadias para a civilização do lucro financeiro e do desperdício das mais belas potencialidades do homem!

Nós, Espíritos, acompanhamos com atenção todo o desenvolvimento da humanidade e contribuímos para a procura de novas formas de vivência na Terra, porque, afinal, nós mesmos vamos reencarnar ainda muitas vezes nesse orbe e gostaríamos de receber uma Educação à altura dos nossos anseios de evolução e encontrar o mundo mais bem disposto a cuidar da dignidade espiritual do ser humano!"

Tolstoi, psicografado em 5/3/94