Lições natalinas

NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP

PRIMEIRA

Um grupo de professoras conversava sobre o final de ano, o término do período letivo e como não podia deixar de ser sobre a proximidade do natal e toda a correria para os festejos, uma vez que nesta época há uma abundância de festas e festinhas, que mais cansam que divertem.

Uma delas então resolveu contar uma experiência pessoal que havia mudado, para ela, o significado do natal que dizia ter sido uma grande lição em sua vida.

O fato passará há mais de 10 anos, quando ainda trabalhava no Campus da USP de Ribeirão Preto. Fora convocada a trabalhar no dia 24 de dezembro pela necessidade de enviar a órgãos superiores determinada documentação na manhã do dia 26, isso a deixou de humor alterado pois não se havia programado para tal.

O serviço terminou mais tarde do que esperava e sua irritação tornou-se ainda maior.

Quando voltava pelo novo acesso, local bastante descampado e ermo notou que uma grande tempestade se aproximava e deu-se pressa em acelerar o carro pois o vento tornava-se intenso.

Passou então por uma jovem senhora que caminhava apressada tentando abrigar um bebe de colo, seu primeiro impulso foi passar reto, afinal estava cansada e de mau humor. Chegou a dirigir alguns metros mas não conseguia tirar o olhos do espelho retrovisor; deu ré no carro e ofereceu carona até um ponto de ônibus. A mulher agradecida abriu um amplo sorriso e se deu pressa em subir.

A colega, sem conversar ia acelerando o carro pois queria chegar em casa antes da chuva, em um determinado ponto a mãe pediu para parar o carro pois ela morava há alguns quarteirões daquele lugar.

A colega num impulso compadeceu-se da mulher e prontificou-se a leva-la até sua casa. Lá chegando a chuva já começara e a mãe abrigando mais diligentemente a criança correu até a pobre casa, abriu a porta , entrou e acenou para a motorista com um grande sorriso de agradecimento.

Retornando ao seu caminho sentiu uma estranha sensação e com se escutasse alguém a lhe dizer que neste dia havia entendido o real significado do Natal, libertar-se do egoísmo e sentir a necessidade do outro.

Terminou seu relato dizendo: "— Vocês podem até achar esquisito mas naquele dia foi como eu tivesse levado em meu carro Maria e seu filho."

SEGUNDA

Final de período letivo a mãe professora tem que entregar documentos na escola e leva consigo a pequena filha de 3 anos. No corredor encontra com outra colega mais velha, que observando a inquietação da menina pergunta pelo motivo. A mãe explica que ela está ansiosa para saber se o Papai Noel já recebeu a carta que ela ajudara a escrever.

— Ela acredita no Papai Noel? Indaga a professora mais velha.- Se assim não fosse não haveria a magia do natal, você não concorda comigo?

Não, não concordava, mas não achou oportuno fazer considerações naquele momento.

-E para Jesus você não escreveu para mandar um abraço pelo aniversário? Nem a garotinha nem a mãe responderam, despediram-se e foram embora.

Alguém que havia escutado a conversa e observado a expressão da professora mais velha lhe pergunta porque não gostava do Papai Noel.

— Não se trata disso: gostar ou não do Papai Noel mas de achar que a magia do natal está em quem traz o presente e não no aniversariante. A importância da mensagem do aniversariante fica relegada a segundo plano.

— Crianças seriam capazes de entender a mensagem de Jesus? Não é muito para elas? É mais fácil entender o Papai Noel.

Pudéssemos todos refletir nessa inversão de valores. Nada contra os presentes e seu suposto entregador, mas a dar a devida importância ao significado do Natal prioritariamente.