MARLENE FAGUNDES CARVALHO
GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
A reportagem de capa da Revista Veja de 16/dez/98, cuja manchete foi: Um Gênio em Casa nos chama a atenção para a revolução das crianças na era da informação. Cita exemplos curiosos que mostram as capacidades das crianças, exemplos esses que todos nós, educadores e pais, somos testemunhas diariamente. Realmente, as crianças de hoje são diferentes das crianças de outras épocas, parecem estar mais à vontade nesse mundo ao qual nós, adultos, temos que nos adaptar constantemente. Um exemplo disso? Quando uma família compra um eletrodoméstico novo, quem parece ter menos resistência e maior familiaridade com ele? Quase sempre são as crianças...
A reportagem cita o neurocientista americano Gerald Edelman, ganhador do Prêmio Nobel, para buscar esclarecer tal fenômeno. Ele diz: "Em certa medida seus filhos não são seus filhos, eles são filhos da tecnologia da informação. Quem faz a cabeça deles, mais do que os pais, são os estímulos do mundo moderno."
Já se sabe hoje que a criança precisa tanto de proteínas, cálcio, vitaminas, oxigênio, etc., quanto de estímulos sonoros, visuais, olfativos e desafios intelectuais para seu desenvolvimento. Ainda segundo a reportagem: "Nunca antes uma geração infantil viveu num mundo mais diversificado, cheio de luzes, imagens, sons e estímulos culturais tão diversos."
A questão da influência dos aspectos culturais e sociais para o desenvolvimento infantil já tem sido bastante discutida nos meios doutrinários, inclusive nestes artigos. Sabemos a importância que tem uma reencarnação aqui na Terra para a evolução do Espírito. O que precisaria ser destacado é que:
1º) Tais estímulos sociais e culturais não vêm do nada, eles são frutos da evolução dos Homens. Todo progresso acaba se refletindo nas gerações seguintes, passam a fazer parte do mundo delas. No Livro dos Espíritos encontramos referências sobre isso: "A humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tomam a dianteira e arrastam os outros" (p. 789).
2º) Há um segundo ponto, e este fundamental para a questão. Como ficam os valores desta geração? Junto com o imenso crescimento da capacidade intelectual, como aparece a questão moral? Que valores estarão guiando os "estímulos do mundo moderno"? Segundo O Livro dos Espíritos: "Cabe à Educação combater às más tendências, e ela o fará de maneira eficiente quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral chegar-se-á a modificá-la, como se modificam a inteligência pela instrução e as condições físicas pela higiene." (p.872)
Esta é a questão que precisa ser colocada em evidência. Cada vez mais nossas crianças estão tornando-se mais aptas, intelectualmente, a produzir, criar, construir. São os valores morais destas crianças que darão a direção para estas realizações. Se esta habilidade for direcionada para o bem estar de todos, para o respeito ao outro, e crescimento de todos, ótimo. Mas estas habilidades também poderão voltar-se para a satisfação egoísta de certas necessidades suas, para passar por cima de seus companheiros sem pensar nas conseqüências. Já temos tido diversos exemplos desses no nosso cotidiano.
Aqui entra o papel dos pais, é aqui que nossos filhos voltam a ser nossos filhos, em contraposição à idéia de Edelman, citado acima. É aqui que lembramos a importância da infância para o trabalho com as crianças sobre os valores morais, sobre a formação do caráter da criança.
Sabemos que as informações recebidas via TV ou Internet, por exemplo, não são neutras e vem carregadas de conotações de valor moral. Daí a importância de buscarmos acompanhá-las, para que possamos discutir abertamente com nossas crianças sobre isso, para que possamos argumentar com elas e fazê-las pensar sobre tudo, para encontrar seu próprio caminho, com responsabilidade. Este avanço todo nos mostra que as crianças são mais capazes do que imaginávamos no aspecto intelectual, e nos deixa entrever também que são capazes de pensar, discutir e discernir sobre as questões morais.
Quando nós mesmos ficarmos em dúvida quanto a algumas questões que nos são colocadas diariamente, temos um guia perfeito em Jesus; basta sabermos conciliar nossa inteligência e razão com aquele modelo que nos foi deixado.
E é isso, também, que precisamos ajudar nossas crianças a construir.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
REVISTA VEJA, Editora Abril, edição
1577, ano 31, nº 50, 16/dez/98.
ALLAN KARDEC, O Livro dos Espíritos.