Ser livre

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Se permanecerdes na minha palavra, sois realmente meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" - Jesus (João: 8,32)

O que é liberdade? O dicionário define como sendo a "condição do homem que pode dispor de si, ou que não é propriedade de outrem. Poder de fazer ou deixar de fazer uma coisa. Faculdade de praticar tudo aquilo que não é proibido por lei". A definição já deixa claro que liberdade não é fazer tudo o que se quer, tudo o que a pessoa, levada pelos seus instintos ou por uma vontade não educada, pretenda fazer. A liberdade é só para fazer o que não é proibido por lei." Termina onde começa o direito do outro. Não se pode matar, roubar, invadir propriedades alheias, pois assim não se estaria sendo livre, e sim criminoso, porque praticando atos catalogados na lei humana como ilícitos, não permitidos. Nesse sentido que o Livro dos Espíritos registra que a liberdade absoluta seria a do eremita no deserto. Ali não haveria o outro, cujos direitos teriam que ser respeitados. A chegada de outro homem acarretaria, entre eles, direitos recíprocos que deveriam respeitar e, conseqüentemente, a liberdade ficaria limitada. No deserto não haveria regras sociais, leis humanas a respeitar, enquanto o homem ali permanecesse só.

Se analisarmos a liberdade noutro aspecto, aquela que o dicionário registra como a "condição do homem que pode dispor de si", ou que "pode fazer ou deixar de fazer algo" constatamos que nem mesmo o homem no deserto seria livre, pois ele é obrigado a se movimentar para atender suas necessidades básicas, ou pode estar preso a pensamentos inferiores, paixões que o tornam verdadeiramente escravo. Prisões sem grades, mas nem por isto menos reais. É o nosso caso. Podemos ser livres fisicamente, mas se praticamos determinados atos e nos justificamos, ou tentamos nos justificar, dizendo: "não é culpa minha, é o meu temperamento"; ou "não posso passar sem isso...", ou, ainda, quando afirmamos "sei que estou errado, mas não desistirei"; ou quando dizemos "penso assim, faço assim, porque todos também o fazem". Se assim pensamos, ou agimos, não somos livres. A maioria dos homens pensa ser livre quando pode dizer "eu faço o que quero, isto é, não tenho algemas nas mãos, nenhuma coação física me tolhe, posso satisfazer todos os meus instintos, meus impulsos, nada nem ninguém me segura". Essa é a liberdade do homem primitivo, do selvagem.

A liberdade do homem não se situa no nível de seu corpo, mas só de seu Espírito. Assim, a pessoa pode estar numa cama, prisioneira no fundo de uma cela condenado à morte, se quiser pode continuar livre, pelo Espírito. Sócrates condenado à morte era muito mais livre do que seus julgadores.

Jesus estabelece condições para a conquista da liberdade. "Se permanecerdes na minha palavra, sois realmente meus discípulos". Permanecer na palavra é compreender e viver o ensino. Para isto é necessário estudar, refletir, assimilar corretamente. Sem esse interesse no aprendizado, sem a busca, o desejo sincero de dominar o conhecimento não se consegue compreender integralmente a palavra do Mestre. E não basta o conhecimento teórico; não é só a compreensão intelectual. É preciso viver, ou seja, empenharmos em praticar, aplicar na vida cotidiana os ensinamentos. Sem a prática não ocorre a mudança íntima; não se realiza, verdadeiramente, o aprendizado. É necessário "permanecermos na palavra" para nos tornarmos discípulos, ou seja, aprendizes do evangelho. Cumprida essa condição, "conheceremos a verdade e ela nos libertará". "Conhecereis" - disse Jesus - no futuro, porque não é algo que acontece de um momento para outro. Não é algo que ocorre tão logo a pessoa assim o deseje. Não se consegue a evolução espiritual instantaneamente. É uma construção, lenta, demorada, resultado de um trabalho constante, persistente. Vamos conhecendo a verdade a medida que vamos evoluindo.

O que é a verdade? É outra questão que exige reflexão. Mas, no presente, poderíamos dizer que a verdade é o conhecimento e a vivência das leis divinas. Tanto as leis que governam a vida no plano físico, como no plano espiritual. Conhecer a verdade seria entender o mecanismo das leis. Não só entender, mas também viver de acordo com essas leis. O conhecedor da verdade seria o que tivesse pleno entendimento das leis divinas e observasse integralmente essas leis. Seria o sábio e bom. Isto é fruto da evolução. É trabalho que realizamos ao longo dos milênios. Uma escada com número infinito de degraus que vamos subindo paulatinamente. A medida que vamos subindo, vamos vislumbrando horizontes cada vez mais amplos. Como resultado vem a libertação.

Quando Jesus fez a afirmativa citada de início os judeus replicaram-Lhe: "Somos descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. como é que dizeis "ficareis livres?" (João, cap. 8, vers. 33). Entenderam a liberdade no sentido físico, e Jesus falava no sentido espiritual. E a verdade libertaria de que? Certamente das prisões sem grades. Das paixões inferiores, de tudo o que nos infelicita e nos impede de sermos senhores de nós mesmos. Conquista importante e difícil de ser realizada. Fator importante para a conquista dessa libertação é o desapegar-se dos bens materiais. Alguém já afirmou, e com razão que "quanto mais tivermos: brinquedos a nossa disposição; negócios em nosso escritório; roupas e objetos de adorno em nossos armários; dinheiro no banco e no bolso", quanto mais tivermos tudo isso, mais facilidades, mais nos será difícil ser livres, porque, no nosso estágio evolutivo, temos a tendência para nos apegar a tudo isso. Desapegar-se é tornar-se livre. Ser livre não é ser indiferente. É normal que nos emocionemos, que sintamos, que nos impressionemos ou nos alegremos com as coisas e as criaturas. Mas é preciso que todas as atrações, as alegrias e os sofrimentos não confundam nossa razão na escolha do caminho, não constranjam nossa vontade na decisão de seguir o caminho do Bem.

Para os que gostam de especular fica uma indagação: E quando o Espírito atinge a condição de Ser sábio e bom. Conhece e vive integralmente as Leis Divinas. Será totalmente livre? A resposta é afirmativa. conquistada a perfeição relativa, conquista-se a liberdade. E tendo essa liberdade o Espírito poderia fazer o que bem entendesse, poderia, inclusive, fazer o mal, isto é, agir em desacordo com a Lei? Em tese, sim, mas ele saberá que isto não lhe convém. Paulo já dizia: "Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém". Atualmente, mesmo em nossas precárias condições evolutivas, temos possibilidades de fazer coisas que, entretanto, evitamos, porque sabemos não ser conveniente. Poderiam nos causar algum prazer no presente, mas comprometeria o futuro. E isto sabemos que não vale a pena. Não é conveniente.