Do sincretismo religioso

DOMÉRIO DE OLIVEIRA
de São Paulo, SP

O fenômeno do sincretismo religioso, no Brasil, é uma decorrência do processo de formação sócio-cultural do País. Quem estuda bem o assunto, induvisosamente, é o nosso saudoso e perlúcido Deolindo Amorim, no seu livro, "Africanismo e Espiritismo".

Podemos dizer que sincretismo religioso é um fenômeno cultural, porque tem, no seu contexto, elementos de sociologia e de antropologia amalgamados em crenças, objetos de cultos, símbolos e valores. No Brasil, o sincretismo seria inevitável, pois nossa formação étnica conta com três elementos notórios de influências iniciais: o elemento indígena ou nativo, o europeu (notadamente o Português), e o Africano. Passaram, assim, no bojo, deste "caldo da cultura", indiretamente, influências secundárias como a judaica, a maometana e outras. O elemento judaico, na formação do nosso sincretismo religioso, não teve tanta influência como o africano. A influência judaica deu-se através do Português que trouxe consigo muita sobrevivência desta raça, por causa dos "Cristãos novos" que eram Judeus convertidos à Igreja, muitos deles com medo da inquisição.

A maior fonte do nosso sincretismo, sem dúvida, teve procedência do continente africano. Sabemos que a África teve diversas vias de penetração. Se, por um lado, recebeu infiltrações fortes do Catolicismo, em determinadas faixas de seu território, também, recebeu, por outro lado, outro contingente igualmente forte, que é o maometano ou islâmico. Assim, grande parte dos africanos trazia, para nosso País, a marca ostensiva do elemento árabe em seus cultos. Também, de época remota, os africanos já incorporavam remanescências do Judaismo. Até hoje, em nossos dias, ainda se vê, por exemplo o "turbante" em determinados terreiros. Que é isto? É uma reminiscência tipicamente árabe. E, a "estrela de David" faz lembrar a longínqua presença judaica no africano oriundo de certas áreas do continente negro. É de se considerar, outrossim, que, em determinados "terreiros", exige-se que o visitante tire os sapatos. Tudo isto, por certo, demonstra o reflexo da velha bagagem cultural trazida de práticas recuadas na África, um continente heterogêneo sob os aspectos da cultura e da religião. Sim, meus amigos, o sincretismo tem os seus reflexos nas mais diversas correntes religiosas. Sabemos que o próprio culto católico não é inteiramente original, pois recebeu muita coisa do paganismo greco-romano, como do judaismo. A Igreja usou, em certos casos, o que um escritor católico, certa vez, chamou de "tática de ocupação"; penetrou no paganismo, entrou pacificamente e, depois, retirou o que lhe convinha e incorporou tudo à liturgia, mudou a forma e criou, então, culto "original". Sabemos que o sincretismo tomou corpo no Brasil. Até hoje, pululam os terreiros de "candomblés", de "umbandas", "macumbas" e congêneres.

Quando a Doutrina Espírita começou a ser divulgada no Brasil, tudo isso, inegavelmente, já estava "enraizado" no País.

Justamente, por isso, a prática espírita não ficou imune de certos contactos que se tornaram absorventes em muitos casos. Infelizmente, pessoas que não estudam o Espiritismo, na sua base legítima, ainda insistem em situar a Doutrina nos contextos de cultos afro-católicos. É um engano difícil de ser removido. Infelizmente, às vezes, lemos: "Tenda Espírita de Umbanda Pai Joaquim". Não temos nada contra o "nosso Pai Joaquim", mas não concordamos com a confusão entre "Umbanda" e "Espiritismo". Talvez essa confusão seja feita mais por ignorância, mas já é tempo de acabarmos com essa crassa e supina ignorância.

Sim, é preciso que todos saibam que o Espiritismo é o corpo de doutrina, codificado por Allan Kardec, dando interpretação científica aos fenômenos mediúnicos e deduzindo, daí, profundas conseqüências filosóficas, morais, religiosas, sociais e assim por diante.

O Espiritismo nada tem, portanto, com rituais, símbolos, imagens, "pontos de terreiros, etc.". Nada disto.

O Espiritismo como já disse um meu Amigo:

"É a Filosofia das ciências e a Ciência das Filosofias".

O sincretismo afro-brasileiro é um fenômeno que deve ser estudado com lúcido critério analítico, como capítulo da sociologia religiosa, mas é necessário que se conheça também o verdadeiro caráter do Espiritismo, a fim de que não se continue a confundir uma coisa com outra.