NATALINO D'OLIVO
de São Paulo, SP
A função dos precursores é preparar o caminho; é abrir veredas; é anunciar o que está para vir. O advento do Cristo contou com precursores em todas as regiões do Globo, séculos antes. Fo-Hi, Lao Tsé, Confúcio, Mêncio, Vyasa, Gautama, Pitágoras, Sócrates, Platão, Hermes, dentre outros, foram grandes precursores que reencarnaram em ambientes diversos e trouxeram a idéia de Deus e das leis morais a que os homens se devem submeter para a obtenção de todos os benefícios da evolução espiritual. Afinizados com as características da civilização e dos costumes de cada povo, cada um deles foi portador de uma doutrina de amor com os princípios filosóficos e morais em sintonia com os ensinamentos que mais tarde traria o Cristo para propiciar ao homem um novo estágio de ascenção espiritual. Foram, naturalmente, compelidos, em razão do obscurantismo dos tempos a revestir seus pensamentos com os véus misteriosos dos símbolos, como os que se conhecem dentro dos rigores iniciáticos.
"Os enviados do Infinito falaram, na China milenária, da celeste figura do Salvador, muitos séculos antes do advento de Jesus. Os iniciados do Egito esperavam-no com as suas profecias. Na Pérsia, idealizaram a sua trajetória, antevendo-lhe os passos nos caminhos do porvir; na Índia védica, era conhecida quase toda a história evangélica, que o sol dos milênios futuros iluminaria na região escabrosa da Palestina, e o povo de Israel, durante muitos séculos, cantou-lhe as glórias divinas, na exaltação do amor e da resignação, da piedade e do martírio, através da palavra de seus profetas mais eminentes.
Uma secreta intuição iluminava o espírito divinatório das massas populares.
Todos os povos O esperavam em seu seio acolhedor; todos O queriam, localizando em seus caminhos a sua expressão sublime e divinizada. Todavia, apesar de surgir um dia no mundo, como Alegria de todos os tristes e Providência de todos os infortunados, à sombra do trono de Jessé, o Filho de Deus em todas as circunstâncias seria o Verbo de Luz e de Amor do Princípio, cuja genealogia se confunde na poeira dos sóis que rolam no infinito." 1
O povo de Israel e seus profetas que vaticinaram a vinda do Cristo, como Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Joel, Zacarias e Malaquias, constantes do Velho Testamento e que viveram, praticamente em função dessas profecias, foram precursores da doutrina cristã. Moisés, o grande líder, ao conceber os Dez Mandamentos, consolida o Monoteísmo e lança as bases da Religião da Justiça e do Direito, apesar de as doutrinas antigas já terem arraigado a crença de Deus único, sendo o politeísmo apenas uma questão simbológica, apenas para satisfazer a mentalidade geral.
"A legislação de Moisés está cheia de lendas e de crueldades compatíveis com a época, escoimada de todos os comentários fabulosos a seu respeito, a figura é, de fato, a de um homem extraordinário, revestido dos mais elevados poderes espirituais. Foi o primeiro a tornar acessíveis às massas populares os ensinamentos somente conseguidos à custa de longa e penosa iniciação, com a síntese luminosa de grandes verdades." 2
"Jeremias toma a defesa dos oprimidos, clama pela paz, prega contra a tirania, a trapaça, o assassinato, os maus costumes. Deixa ao Mundo uma grande lição e um grande exemplo. Era um homem que chorava, como choram todos aqueles que percebem as fraquezas do povo, a falência da humanidade." 3
João Batista um precursor direto, ou mais próximo do Cristo. Proclamou o arrependimento, falou dele e o apresentou ao povo no momento oportuno. A profecia sobre João como precursor está em Malaquias, capítulos 3 e 4. A profecia fala do profeta Elias, mas Jesus, no monte Tabor, confirma ser João Batista o Elias que voltaria. Em outras palavras João era a reencarnação de Elias.
Quando estava preso por ordem de Herodes, por proclamar a boa conduta e o arrependimento, enviou mensageiros ao Cristo para saber se ele era o Cristo que havia de vir. Quando chegaram, Jesus estava no meio de muita gente carente. Ouviu a indagação dos discípulos de João e, depois de ter atendido toda aquela gente na presença deles, disse:
"Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo anunciado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço." (Mt. 11:4 a 6)
Jesus manifesta afeto e amor por todos os profetas e ao povo de Israel que o anunciaram, mas lamenta o comportamento daqueles que o rejeitaram. As palavras seguintes mostram o reconhecimento pelo trabalho deles:
"Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruí-los, mas para dar-lhes cumprimento. Porque em verdade vos digo que o céu e a terra não passarão, até que não se cumpra tudo quanto está na lei, até o último jota e o último ponto." (Mt. 5:17 e 18)
O Mestre deu início às suas tarefas lendo e comentando um texto de um de seus precursores, e que fala sobre a sua missão:
"Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou num sábado, na Sinagoga, conforme o seu costume, e levantou-se para ler. Então lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração e proclamar liberdade aos cativos, restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor." Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na Sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir." (Lc. 4:16 a 21)
Observa-se que Jesus pratica exatamente o que ele leu em Isaías, quando esteve na Sinagoga. Não houve mágica nem falsidade, mas autenticidade.
O profeta Joel disse:
"Eu derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, e os vossos velhos serão instruídos através de sonhos, e os vossos jovens terão visões." (Joel, 2-28)
Essa profecia foi concretizada na festa de Pentecostes, em Jerusalém, cinqüenta dias após a partida de Jesus. E o apóstolo Paulo, em seu trabalho de divulgação, repete as palavras de Joel, para confirmar a presença do espírito entre nós, através da mediunidade. E considerando o Espiritismo a terceira revelação, visto que a primeira foi trazida por Moisés e a segunda por Jesus, são lembradas as palavras de Joel, repetidas pelo apóstolo, para ressaltar e enfatizar o valor da mediunidade estudada e classificada por Allan Kardec por ser de grande utilidade na prática espírita.
A respeito dos precursores, disse Allan Kardec:
"As grandes idéias não aparecem nunca de súbito. As que têm a verdade por base contam sempre com precursores, que lhes preparam parcialmente o caminho. Depois, quando o tempo é chegado, Deus envia um homem com a missão de resumir, coordenar e completar os elementos esparsos, com eles formando um corpo de doutrina. Dessa maneira, não tendo surgido bruscamente, a doutrina encontra, ao aparecer, espíritos inteiramente preparados para a aceitar. Assim aconteceu com as idéias cristãs, pressentidas muitos séculos antes de Jesus e dos Essênios, e das quais foram Sócrates e Platão os principais precursores." 4
Os Essênios, antes de Jesus e ao tempo dele, desempenharam uma tarefa importante no preparo da comunidade palestina. Sustentavam uma doutrina de amor e fraternidade, levando aos carentes da periferia da cidade a terapia do passe, através de grupos formados para o desempenho dessa tarefa. Eram os chamados terapeutas. Acreditavam em Deus, na imortalidade da alma, na reencarnação, no mundo dos Espíritos e praticavam a mediunidade com disciplina e ordem.
Parece claro que os Essênios tenham sido, como os profetas, precursores do Cristo, pela afinidade de suas idéias com o Cristianismo. Parece óbvio também que o Mestre não os citou para não se identificar com qualquer seita da época. Citou os profetas que inspiravam os Essênios e que eram estudados por eles. A Bíblia era a base das instituições religiosas. E Jesus não podia se identificar com qualquer delas, para não comprometer a organização diante da fúria e ambição pelo poder dos saduceus e fariseus, que eram, na ocasião, predominantes e grandes aliciadores de adeptos. Foi, sem dúvida, um critério muito acertado de Jesus, e não podia ser diferente diante da sua missão e da nova doutrina que trazia para reformular tudo. Era uma doutrina de aproximação e fraternidade. Dotado de grande poder de persuasão, manifestar simpatia por uma seita, seria provocar uma revolução social.
Bibliografia:
1 - Francisco C. XAVIER/Emmanuel - A Caminho da Luz, pág. 39 - 10.ª edição - FEB Rio, RJ
2 - Francisco C. XAVIER/Emmanuel - Emmanuel, pág. 27 - 16.ª edição - FEB - Brasília, DF
3 - Carlos IMBASSAHY - A Missão de Allan Kardec, pág. 12 - edição da FEP - 1957
4 - Allan KARDEC - O Evangelho Segundo o Espiritismo - 1.ª edição - Edicel, tradução de J. Herculano Pires - São Paulo, SP