Na marcha evolutiva

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP

"Primeiro a erva, depois a espiga e, por último, o grão cheio na espiga" Jesus (Marcos, 4:28)

Realizar a evolução espiritual , finalidade de nossas vidas na Terra, não é tarefa fácil. Existem as dificuldades internas (que estão em nós, no nosso íntimo) e as dificuldades externas, a influência do meio em que vivemos.

O degrau evolutivo em que nos achamos, em grande parte, influencia nosso modo de sentir, pensar e agir. Só com denodo e perseverança vamos vencendo as limitações que nos são impostas pelo patamar evolutivo.

As dificuldades externas são a influência do meio e as resistências que esse mesmo meio oferece. Diz Emmanuel: "Quando o homem comum descansa nas vulgaridades e inutilidades da existência terrestre, ninguém lhe examina os passos. Suas atitudes não interessam a quem quer que seja. Todavia, em lhe surgindo no coração a erva tenra da fé retificadora, sua vida passa a constituir objeto de curiosidade para a multidão. Milhares de olhos, que o não viram quando desviado na ignorância e na indiferença, seguem-lhe, agora, os gestos mínimos com acentuada vigilância" 1. Em outras palavras, enquanto o homem está vivendo como a maioria, só interessado nos valores transitórios da vida material, suas atitudes são consideradas normais, ninguém se preocupa com ele. Porém, quando envida o esforço da subida, isto é, da evolução espiritual, (surgindo-lhe no coração a erva tenra da fé retificadora) passa a ser observado e cobrado pela multidão. O aprendiz ainda se encontra nas primeiras lições, e já passa a receber exigências como se tivesse muito mais avançado. Muitos desanimam e desistem, voltando a viver como a maioria, o que é mais fácil. Acentua Emmanuel: "a multidão, dentro da velha ignorância que lhe é peculiar, só entende o homem na animalidade em que se compraz".

Muitos estranham o fato de a humanidade estar ainda tão atrasada, moralmente falando. Questionam: se existe a reencarnação, porque as pessoas ainda não evoluiram? E citam os crimes, as desonestidades, a violência, o egoísmo, e tantos outros fatos que evidenciam o atraso moral das pessoas. Alguns indagam: Como Deus permite tais crimes.

O Espiritismo nos ensina que Deus não tem pressa. Ele nos cria para a perfeição e a felicidade. Mas o tempo que gastaremos para chegar lá depende de cada um. Dos caminhos que escolhermos. Para tanto, o Pai nos concedeu o livre arbítrio, a razão, a inteligência. Podemos optar por caminhos contrários à Lei Divina, mas sempre receberemos o resultados de nossas escolhas. A cada um segundo suas obras, disse-nos o Mestre.

Por outro lado, é bom lembrar que se nossa situação atual não é boa, não há porque negar a evolução. O progresso é uma lei natural a que tudo e todos estamos subordinados. Estamos evoluindo sim, inclusive no que tange às questões espirituais. No passado, muitas injustiças, arbitrariedades, e mesmo crimes eram cometidos, sem que o povo deles tomasse conhecimento. As classes privilegiadas tudo podiam, e os oprimidos não tinham nem como reclamar. A escravidão humana era um fato considerado normal, de acordo com a lei humana da época, e os poderosos estavam acima da lei. Hoje a situação é bem diferente. Muitas mudanças já ocorreram, e para melhor, felizmente. Vivemos uma época de transição, de definição de valores, com muitas dificuldades, mas numa análise criteriosa, a médio e longo prazo, constatamos, indubitavelmente, que temos progredido.

Mas porque a vida é tão difícil e há tanto sofrimento sobre a Terra? No Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 3. item 6, Allan Kardec considera: "Admira-se de haver sobre a Terra tantas maldades e tantas paixões inferiores, tantas misérias e enfermidades de toda sorte, concluindo-se que miserável coisa é a espécie humana. Esse julgamento decorre de uma visão estreita que dá uma falsa idéia do conjunto. É necessário considerar que toda a humanidade não se encontra na Terra, mas uma pequena fração dela. Porque a espécie humana abrange todos os seres dotados de razão que povoam os inumeráveis mundos do Universo. Ora, o que seria a população da Terra, diante da população total desses mundos? Bem menos que a de um lugarejo em relação a de um grande império. A condição material e moral da humanidade terrena nada tem, pois, de estranho, se levarmos em conta o destino da Terra e a natureza da sua população".

Como lembra Emmanuel, "resta ao cristão cultivar seus propósitos sublimes e ouvir o Mestre: Primeiro a erva, depois a espiga e, por último, o grão cheio na espiga". O progresso é lento, mas se perseverarmos no estudo e no trabalho, insistindo na prática do bem, vamos realizando nossa marcha evolutiva. Assim como há um espírito de seqüência da Natureza, também a nossa evolução está subordinada a esse espírito de seqüência. Não se evolui de um momento para outro, instantaneamente. O progresso espiritual é realizado passo a passo. Mas, com perseverança, ainda que lentamente, vamos caminhando. Devagar, mas sempre, como diz o ditado.

1 - Emmanuel - Caminho, Verdade e Vida, cap. 102