A Nova Era hoje: Um pouco de História

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Riberão Preto

O Evangelho Segundo o Espiritismo nos fala, no Capítulo I - Não vim destruir a Lei - sobre A nova era, fazendo referência às três revelações: Moisés, Jesus e o Espiritismo.

Por que revelação? O que é revelar? No dicionário Aurélio encontramos que revelar é, entre outras coisas, "Tirar o véu a; descobrir, desvelar; fazer conhecer; declarar, divulgar; mostrar; descobrir."

Com as três revelações tivemos três formas de se fazer conhecer a verdade, que é uma só, mas que precisou ser mostrada de forma diferente, devido às características das pessoas na época em que a receberam e ao contexto em que estavam vivendo naquele período.

Para entender um pouco do contexto temos que falar de história, lembrar sobre o que já ouvimos falar, relembrar nossas aulas de história na escola, relacionar ao que já lemos e ao que já assistimos em filmes... Assim poderemos situar melhor as situações às quais o Evangelho faz referência. Isto porque as condições materiais concretas da existência acabam por influenciar fortemente sobre o desenvolvimento, a vida, o conhecimento do grupo social, ao mesmo tempo que são determinadas justamente pelas condições das pessoas que o formam.

Vamos começar falando da Pré-História, quando então os homens mais se assemelhavam aos animais, vivendo para garantir sua subsistência, fazendo sua caminhada na senda da evolução. Os homens passaram a viver em agrupamentos humanos, e puderam desenvolver a linguagem, possibilitando melhor comunicação entre si. Surge então a escrita, cerca de 4.000 a.C., que marca o início da História propriamente dita.

Esta começa na chamada Idade Antiga, quando então os homens não mais viviam da caça ou coleta, mas já plantavam, criavam animais, enfim, viviam em grupos organizados. Muitos povos desenvolveram-se bastante neste período, que ainda assim foi marcado por conflitos, lutas e guerras entre povos, que dominavam e escravizavam seus adversários.

A parte habitada e conhecida historicamente por nós é uma região da Europa, parte da Ásia e norte da África. O Egito, país do extremo nordeste da África, um dos mais adiantados - intelectualmente - da época antiga, foi berço das primeiras civilizações do velho mundo. O povo hebreu era escravizado pelos egípcios. A religião destes povos incluía adoração aos deuses locais, prostituição sagrada, sacrifício infantil e profecias frenéticas.

No Séc. 13 a.C., Moisés conduziu o povo hebreu em sua saída do Egito. Por anos governando os hebreus errantes, chegaram à Canaã, a terra prometida, antigo nome da Palestina, onde se fixaram os Reinos de Israel e de Judá.

Moisés foi o enviado de Deus para abrir os olhos do povo para a moral. Este povo não sabia adorar a Deus senão pelo sacrifício, ou por uma representação semimaterial, devido às próprias condições da época.

Até hoje temos reflexos da situação de luta entre estes países, que dirá há cerca de 5.200 anos atrás, quando Moisés por lá apareceu. Como então chegar aos seus corações? Ao seu Espírito? Moisés foi a luz que apareceu naquele momento para iluminar estes caminhos, através da lei mosaica, composta pela lei de Deus, promulgada no monte Sinai, e pela lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés. Não podemos confundi-las, mas entender a que vieram. A primeira, imutável e eterna; e a segunda, coerente com as necessidades básicas e momentâneas daquele povo em particular.

A lei mostrou um caminho, mas a humanidade tinha ainda muito o que aprender...

O terreno foi sendo preparado para o que viria depois, Jesus, a segunda revelação.

Ainda na Idade Antiga, por volta do ano 1.000 a.C. o pensamento religioso toma forma na Índia; no ano 500 a.C., aproximadamente, Buda prega o budismo; Confúncio organiza na China uma base político-familiar baseada no senso de dever e na humildade. Na Grécia, grandes filósofos, como Sócrates e Platão, que viveram por volta do ano 400 a.C. (cerca de 900 anos depois de Moisés) já antecipavam as lições que Jesus traria. Isto nos mostra que nunca estivemos sós, que Deus sempre mandou Espíritos de muita luz para preparar e guiar a humanidade

Cerca de 1.300 anos após Moisés e 400 anos depois dos filósofos gregos, Jesus chegou com a segunda revelação. Estávamos ainda na Idade Antiga. Jesus foi o amor em pessoa, que veio num momento em que as pessoas ansiavam por um caminho melhor.

"Cristo foi o iniciador da moral mais pura, a mais sublime; da moral evangélica cristã que deve renovar o mundo, reaproximar os homens e torná-los irmãos; que deve fazer brotar de todos os corações humanos a caridade e o amor ao próximo e criar entre todos os homens uma solidariedade comum. Enfim, de uma moral que deve transformar a Terra, o fazer dela a morada para Espíritos superiores àqueles que a habitam hoje." ¹

Alguns poucos séculos depois, o Cristianismo tinha tornado-se a esperança do povo, e politicamente passa a ser a religião predominante. Entramos então na Idade Média, período que se iniciou no século V e no qual, embora reconhecido como cristão, ocorreram atos de extrema crueldade e ignorância, em nome do Cristo. Era conhecido como a Idade das Trevas, na qual não se podia ler um livro que não fosse aceito pela igreja, não podia dizer nada contrário às suas idéias. Quantos foram queimados e mortos por apresentarem idéias diferentes à propagadas pela Igreja. Foi a ignorância dos homens, que mesmo tendo os ensinamentos de Cristo nas mãos, não puderam compreender de pronto. Ao contrário, interpretaram como quiseram e impunham sua interpretação aos outros.

Ainda assim muitos Espíritos de luz continuaram seu trabalho, e quando tudo parecia sem saída, alguns estudiosos mostravam o caminho. Santo Agostinho foi um deles, que foi capaz de fazer uma previsão brilhante da futura doutrina.

Vivemos alguns séculos assim... A Idade Média durou do séc. V ao XV.

Por volta do séc. XIV começam a surgir idéias se rebelando contra o domínio da igreja, e contra tudo aquilo que representou o período das trevas. Foi o período denominado de renascimento, pois o homem renascia das trevas. Nas artes e na literatura, no direito e na arquitetura, em todas as áreas o homem se redescobria...

Era novamente o mundo se preparando para mais uma revelação. E agora sim, estávamos entrando na Idade Moderna (séc. XV a XVIII), na qual a Ciência estava sendo descoberta: novas formas de se conhecer a verdade, que começavam a partir das dúvidas e desconfianças sobre o que seria a verdade.

Não se aceitava mais que a verdade fosse aquilo que alguém falava e pronto. Não, agora era necessário provar, mostrar, demonstrar e experimentar. Podemos dizer que a ciência apareceu aqui, nesta concepção de ciência que temos hoje. Só aqui, por exemplo, é que se admitia a necropsia para se conhecer profundamente o corpo humano.

Ora, as dúvidas e questões começaram a ganhar espaço. Também as idéias políticas e de revolução. O movimento iluminista é desta época. Este período (Idade Moderna) culminou na Revolução Francesa, cujo lema era LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE. Entramos assim para a Idade Contemporânea, na qual estamos até hoje.

Estava pronto o terreno para a doutrina espírita, como a 3ª revelação. Primeiro porque as relações sociais entre os homens estava sendo colocada em xeque. E depois porque o homem agora buscava entender, não mais apenas aceitar. Kardec é fruto deste tempo em que a razão é fundamental e a fé tem de ser raciocinada. A religião começava então unir-se à ciência, na medida em que era preciso pensar, refletir, buscar a razão e a lógica de tudo.

E qual é o nosso papel hoje? Olhando para a história somos capazes de perceber como tudo se encaixa e nada é por acaso, bem como percebemos o quanto o homem construiu o mundo em que vivemos. A ciência desenvolve-se muito rapidamente, a e o Espiritismo vem trazer e alertar para as questões morais.

O Evangelho nos incita a reconhecer que fazemos parte deste processo, e que não basta apenas entender as revelações. Elas não vieram simplesmente para que as conheçamos e a achemos interessante, mas para que a partir delas façamos algo.

Fénelon nos alerta: "A revolução que se prepara é mais moral do que material, os grandes Espíritos, mensageiros divinos, inspiram a fé para que todos vós, obreiros iluminados e ardentes, fazei ouvir vossa humilde voz. Pois vós sois o grão de areia, mas sem grãos de areia não haveria montanhas. Assim, pois, que estas palavras: "Somos pequenos", não tenham mais sentido para vós. Cada um tem sua missão, cada um tem seu trabalho. A formiga não constrói seu formigueiro e os animaizinhos insignificantes não erguem continentes? A nova cruzada começou. Apóstolos da paz universal e não da guerra, São Bernardos modernos, olhai e andai para a frente: a lei dos mundos é a lei do progresso." ²

Se isso já era verdade em 1861, agora é ainda mais urgente. É a Nova Era, hoje.

BIBLIOGRAFIA
1. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. I, item 9.
2. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. I, item 10.