NATALINO D'OLIVO
de São Paulo, SP
Allan Kardec considera que o Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa. Por isto ele fala dos precursores da doutrina cristã e do Espiritismo. E cita Sócrates e Platão como os principais.
Sócrates (469-399)
Natural de Atenas, Sócrates quis, inicialmente ser escultor como seu pai. Aconselhado, porém, por um amigo, dedicou-se à filosofia, tornando-se um verdadeiro mestre. Nada escreveu. Tudo o que sabemos a seu respeito e de sua doutrina é através de seus discípulos Platão e Xenofonte. O primeiro nos deixou os diversos diálogos que versam sobre o seu sistema filosófico, e o segundo deixou um livro com o título Memorabilia que expõe o aspecto moral. Em ambos, mais precisamente nos diálogos e especialmente a Apologia de Sócrates encontramos páginas de rara e extraordinária beleza.
Filosofia para ele é pesquisa do saber. Toda a sua vida girou em torno da busca do conhecimento que está dentro de cada um. A aprendizagem consiste em despertar os conhecimentos inatos e adormecidos. Daí a sua famosa frase: Conhece-te a ti mesmo. O aprendiz só chega ao conhecimento de si mesmo, após ter desprezado os conceitos vagos e vulgares, repetidos pela maioria, sem reflexão, através do processo de perguntas e respostas e elaborado um conceito próprio, permanente, de caráter universal, que expresse a verdade. Conhecer o conceito de cada coisa, na sua essência, é a característica principal do seu método. Perguntar e criticar as respostas erradas até conseguir uma resposta verdadeira, correta é o processo denominado ironia. Extrair a verdade, pela elaboração de um conceito correto, é maiêutica (do grego = parto). Sócrates transportou para o campo da filosofia o exemplo de mãe, que era parteira, dizendo que, assim como ela ajudava a trazer crianças ao mundo, ele exercia a arte de trazer à luz as idéias verdadeiras, o espírito, a razão, a consciência.
As questões que Sócrates dava preferência são aquelas referentes à moral. Perguntava aos seus ouvintes em que consiste a coragem, a covardia, a piedade, a justiça e assim por diante. Ao ouvir diversas manifestações de coragem, desejava saber o que a coragem em si, o universal que a representa. Sócrates costumava utilizar o termo logos, que significa razão. Buscar a razão de alguma coisa, é buscar o seu verdadeiro conceito.
Ele admite a imortalidade e a espiritualidade da alma; distingue o conhecimento sensitivo do intelectual. A moral é o vértice do seu edifício especulativo. Deus é o logos, a razão perfeita, o fim último e a felicidade suprema do sábio. O homem deve procurar a semelhança com Deus através da prática da virtude, que é sinônimo de sabedoria e de ciência. A ciência só é útil quando torna a alma melhor. Ser sábio é ser bom. Para ele não havia deuses senão o Deus interior de cada ser humano. E cada qual é o criador de si mesmo. E cada qual só pode iluminar a si mesmo. Está bem em sintonia com o Cristianismo e o Espiritismo. Jesus disse: o reino de Deus está dentro de vós; vós sois deuses.
Ele expunha suas idéias nas praças e ruas, nos mercados e nas oficinas, aos mais variados auditórios. Não dava importância à posição sócio-econômica de seus discípulos ou ouvintes. dialogava com ricos e pobres cidadãos ou escravos. Dirigia sua atenção para o interior das pessoas, sem fazer distinção de classe ou posição social. O que importava eram as condições interiores, psicológicas, de cada pessoa, pois essas condições eram indispensáveis ao processo de autoconhecimento.
Diante do tribunal, onde estava sendo julgado, acusado de corromper a mocidade e de desconhecer os deuses da cidade, Sócrates assumiu uma postura viril, altaneira, imperturbável, de quem nada teme, porque permanece absolutamente em paz com sua própria consciência. Ele não se defendeu, mas estranhou que sua voz profética, que nunca deixou de fazer-se ouvir durante todo o curso de sua existência, até nas circunstâncias mais comezinhas, de se desviar de tudo que pudesse causar dano, ou de prejudicá-lo, tenha se calado justamente naquele momento que estavam sucedendo coisas consideradas como o pior dos males. E perguntou: Por que isto? E ele mesmo responde perante os juizes, procurando fundamentar sua filosofia de vida, dizendo que o motivo é que, verdadeiramente, o que estava acontecendo é UM BEM PARA ELE. E completa o pensamento: Sem dúvida enganamo-nos, supondo ser a morte uma desgraça.
A invés de blasfemar contra Deus e a voz que sempre ouvia e que se omitiu naquele momento, considera como um BEM e nos dá uma grande lição sobre a morte e a imortalidade da alma, o que está perfeitamente de acordo com o Espiritismo. E ainda: quando soube do resultado do julgamento pelos juizes, se regozijou. Enquanto seus amigos e sua esposa se apavoraram, ele recebeu a notícia com muita tranqüilidade e julgou que a morte do corpo daria muito mais vida às altas verdades de seu pensamento e do seu exemplo, espalhados por toda parte, devotadamente. Encarou sua morte como útil às sua lições filosóficas, como gloriosa à causa da humanidade.
Sócrates foi condenado à morte. O processo foi: beber uma dose de cicuta (planta venenosa). Foi condenado numa assembléia constituída de 556 juizes sendo que 275 votaram a favor de Sócrates e 281 contra. Seus mais acirrados inimigos que o acusaram foram: Meleto - poeta trágico e medíocre; Anito - curtidor e negociante de peles; Licon - retórico medíocre e desconhecido. O povo, também, politeísta e fanático pelos seus deuses, humanizados pela mitologia homérica e que Sócrates impugnava, exerceu grande influência sobre o julgamento. Mas, o filósofo, espírito de elevada hierarquia, não teve qualquer pensamento negativo a respeito de seus detratores e o que estava acontecendo, antes, alegrou-se, porque tinha plena convicção da existência do mundo espiritual e da sobrevivência da alma. Enquanto aguardava a execução da sentença, conversava tranqüilamente com seus discípulos a respeito do assunto. era portador de uma mediunidade extraordinária que lhe dava plena segurança da vida eterna dizendo aos seus amigos e discípulos: Quando me descerem à sepultura - creiam que estão a enterrar-me apenas o corpo e não a alma.
Ele tinha intuições, inspirações e orientações de um espírito bom. Era um homem preparadíssimo. Por isto que ele conduzia seus discípulos à busca da verdade em sim mesmo. Seu preparo espiritual pelo cultivo do bem e das virtudes o colocava em condições de receber a ajuda dos espíritos superiores. Caracterizou sua vida, construindo uma personalidade corajosa e guiando sua conduta pelo seu critério de justiça. viveu de acordo com sua consciência e desencarnou sem renunciar a seus mais caros valores morais.
Bibliografia
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e Maria Helena Pires MARTINS, Filosofando
- Introdução à Filosofia, Editora
Moderna Ltda. - 2.ª edição - São Paulo, SP
FRANCA, Pe. Leonel - Noções de História da Filosofia,
12.ª edição - Livraria Editora - Rio de Janeiro, RJ - 1949.
PLATÃO - Apologia de Sócrates - 5.ª edição
- Atena Editora - Trad. de Maria Lacerda de Moura - Biblioteca Clássica
- Vol. V.
SANTOS, Theobaldo Miranda - Manual de Filosofia, 10.ª edição
- Companhia Editora Nacional - São Paulo, SP - 1958
SPINELLI, Miguel - Filosofia & Ciência - Edicon - Editora e
Consultoria Ltda. - São Paulo, SP.
VALLE, Sérgio
- Silva Mello e os Seus Mistérios, Edição LAKE,
2.ª edição - São Paulo, SP.