NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
Quando criança costumava escutar os adultos dizerem: " Respeito é bom e eu gosto", ainda hoje é muito comum esta afirmação ser evocada quando alguém quer falar do desagrado frente a determinadas situações. Nunca me lembro de ter ouvido esta afirmação na boca de uma criança, o que de alguma forma sugere um direcionamento da atitude de respeito ter mão única.
Dentre os muitos significados atribuídos, pelo dicionário, a palavra respeito vamos optar por: "não causar dano, atender a, considerar"; por serem estes significados os que atendem a análise que faremos a seguir. Interessante também trazer à baila a origem da palavra, ela vem do latim respectu que quer dizer " voltar-se para ver".
Assim compreendendo vamos tentar analisar como tem sido a criança tratada pelo mundo dito adulto.
Sem dúvida todos nós ficamos assustados, tristes ou até mesmo indignados quando, por ocasião do carnaval, pudemos ver na televisão, no desfile das escolas de samba a lamentável situação daquela criança em um carro alegórico montando um pássaro cor de rosa. Terror era o que se podia ler na sua expressão facial a cada movimento da alegoria e mais triste ainda foi ver a televisão focalizando e nenhum adulto que estava próximo tomar qualquer atitude ou mesmo se dignar a "voltar-se para ver" como respeito aquela criança.
Outra situação, no mínimo esdrúxula, foi o concurso de fantasia ser ganho por uma menina de dois anos com chupeta na boca e
vestida como a apresentadora de televisão que encarna um símbolo sexual sado-masoquista e a mãe dizendo que o sonho dela havia se realizado.
Ainda a mídia divulgou as imagem de uma criança africana sendo intimidada por um soldado, acredito que muitos choraram ao ver aquela situação sobretudo quando a criança foi mostrada alguns dias depois em um posto de ajuda evidenciando características de profunda depressão.
Esses casos são extremos, entretanto se o desrespeito ostensivo dos três relatos acima já estão fora de nosso repertório de comportamento é necessário que estejamos atentos aos pequenos desrespeitos que se sucedem no cotidiano. Pais que querem a qualquer custo concretizar em seus filhos aquilo que aspiravam para si e que não puderam realizar, sugerir por atos e palavras que um irmão é melhor que o outro, fazer as coisas pela criança lhe tirando a oportunidade de desenvolver seu próprio potencial criativo, ainda que diferente do adulto que lhe orienta.
O hábito que hoje se populariza de levar crianças nos ditos "chá de cozinha", onde se faz a despedida de solteiro da noiva, processando-se um ritual impregnado de expressões eróticas que resvalam o chulo em que diretamente se faz alusões á genitália feminina e masculina de forma pouco respeitosa e grosseira. Que padrão de comportamento se impregna na mente infantil? Sem dúvida não é o de respeito.
Poder-se-ia gastar muito papel arrolando comportamentos que de maneira sutil impregnam o relacionamento desrespeitoso com a criança.
Em a Revista Espírita de setembro de 1963 Kardec reproduz uma interessante comunicação de um grupo de Orleans intitulada a "A Castidade" de onde transcrevemos a parte final muito pertinente ao tema que enfocamos:
"...Para a maioria dos pais os filhos, sobretudo os em tenra idade, quase que não passam de bonequinhas, com as quais se divertem, como se com um brinquedo. E o que as torna divertidas é que sua ingênua credulidade permite enganá-las de manhã à noite com pequenas mentiras, julgando inocentes porque são feitas sem qualquer maldade e unicamente para rir, como se diz.
Ora, em sua verdadeira acepção, inocente significa que não prejudica. Mas, que há de mais nocivo, ao contrário, à candura de uma criança, que esses pequenos abusos de confiança incessantes, de que é última, mas um instante só, do qual se ri e depois se diverte e que acha o maior prazer em imitar logo que pode?
Disso resulta muitas vezes que a criança mais cândida aprende a enganar tão depressa como quanto falar e que, ao cabo de pouco tempo, é capaz de dar lições aos seus mestres.
Quase que não se suspeita quanto, nessa idade por vezes uma causa insignificante pode, mais tarde, dar lugar a deploráveis resultados. Os órgãos da inteligência, nas crianças muitos jovens são como cera mole, apta a receber a moldagem do mais fraco objeto que a toca; e, mesmo por um instante, a deformação. E quando esta cera a princípio tão fluida, vier a endurecer, a impressão ficará inapagável..."
Nós os espíritos sabemos, ou temos a obrigação de saber, que toda a criança é um espírito eterno que reencarnou para seu auto aperfeiçoamento e que confia naqueles que se incumbiram de aceitá-los como filhos para o alcance desta meta.
Portanto se para nós adultos "respeito é bom e gostamos dele" para a criança é ingrediente imprescindível para o alcance de sua meta reencarnatória.