JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA
de Ribeirão Preto, SP
"O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente à terra". Jesus (Marcos, 4:26)
Primeiro de Maio, dia do trabalho. O dicionário diz que "trabalho" é a aplicação da atividade intelectual ou física. Como entendemos o trabalho em nossas vidas? Emmanuel, no "Livro da Esperança", lição n.° 59, considera que para compreendermos a importância do trabalho, é bom lembrar algumas calamidades da inércia: A casa longamente desabitada transforma-se em moradia de insetos, é danificada por criaturas irresponsáveis, e dentro de algum tempo não mais oferece condições de moradia; O campo largado em abandono torna-se depósito de lixo, de entulho, e se vê, também, tomado por ervas daninhas; A água parada, apodrece; A ferramenta que não é utilizada, enferruja; A roupa que ninguém usa é devorada pela traça; O alimento guardado por muito tempo deteriora, e assim por diante. Onde estivermos, lembra o citado autor, considera que a vida é caminhada, atividade, progresso, movimento e incessante renovação para o bem. O trabalho supera dificuldades, faz-nos esquecer da irritação e das mágoas, e nos proporciona os recursos da experiência para prosseguirmos adiante. E conclui Emmanuel: "Quem permanece na preguiça abre as portas da própria alma à sombra da obsessão em que fatalmente se arruinará". Percebemos, assim, estar correto o ditado popular: "Cabeça desocupada, oficina do diabo". Sim, porque se não ocupamos nossa mente com algo útil, ela resvala para o desequilíbrio, sintonizando-se com outras mentes em situação idêntica, e o resultado é sempre desagradável para o ocioso.
No "Livro dos Espíritos", Allan Kardec indaga se em mundos mais aperfeiçoados, os homens se acham submetidos a necessidade de trabalhar. Os instrutores espirituais responderam: "A natureza do trabalho está em relação com a natureza das necessidades. Quanto menos materiais são estas, menos material é o trabalho. Mas não deduzais daí que o homem se conserve inativo e inútil. A ociosidade seria um suplício, em vez de ser um benefício".
Deus criou o Universo e as Leis que governam a vida, no plano físico e no plano espiritual. E permanece na execução dessas leis que movimentam o Universo e sustentam a Vida. Se por um único momento Deus deixasse de exercitar seus poderes soberanos, sobreviveria o caos. Por isso, disse Jesus: "Meu Pai trabalha até agora", definindo a ação divina, eterna, onipotente, onipresente.
De um modo geral, ainda não compreendemos o valor do trabalho em nossas vidas. A bíblia registra que Adão e Eva, ao serem expulsos do paraíso, foram condenados a ganhar o pão com o suor do rosto. A primeira vista, parece que o "trabalho" foi o castigo aplicado a quem desobedeceu. Porém, compreendemos a passagem como a conquista da razão, do livre-arbítrio. Enquanto o princípio espiritual permanecia no "ventre da natureza", estagiando na irracionalidade, antes da conquista da razão, era natural a passividade. O único guia era o instinto. Conquistada a condição de ser racional, agora na fase humana, como Espírito dotado da razão, e do livre-arbítrio, deverá, pelo trabalho, desenvolver suas potencialidades.
Na infância da humanidade, o homem só aplica a sua inteligência na procura de alimentos, dos meios de se preservar das intempéries, e de se defender dos inimigos. Mas Deus lhe deu essa aspiração do melhor, o desejo constante de progredir, e isto o impele à pesquisa, a aperfeiçoar seus métodos de trabalho, visando melhores resultados. Assim, desenvolve a inteligência, aprende a se relacionar com o seu semelhante e, embora só busque resultados materiais no seu trabalho, obtém também o progresso espiritual que ele ainda não sabe valorizar, e nem compreende. É como aconteceu com os bandeirantes, no processo de colonização do Brasil. Interessados em pedras preciosas, iam para o interior, enfrentando dificuldades, mas construíram estradas, fundaram cidades, levaram o progresso para o interior. Embora o objetivo fosse material - as pedras preciosas, prestaram um serviço à nação. Assim o Espírito, no início de sua evolução. Ainda não se conhece, não sabe que é um ser imortal, não tem interesse em trabalhar pelo aperfeiçoamento espiritual, mas trabalhando pela obtenção dos bens materiais realiza, sem perceber, sua própria evolução espiritual.
O trabalho já foi considerado como algo desonroso. Até atividades nobres, como educador, e de musicista, eram atribuídas a escravos. Os que se consideravam nobres entendiam que, para serem importantes, nobres de verdade, nada deviam fazer. E isto aconteceu bom tempo depois de Jesus nos ter afirmado que o Pai trabalha desde o início e Ele, Jesus, também...
No "Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec pondera que "se Deus tivesse liberado o homem do trabalho físico, seus membros seriam atrofiados; se o livrasse do trabalho intelectual, seu Espírito permaneceria na infância, nas condições instintivas do animal. Por isso fez do trabalho uma necessidade.